"Hay hombres que luchan un dia y son buenos
Hay otros que luchan um año y son mejores
Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos
Pero hay los que luchan toda la vida
Esos son los imprescindibles"
(Bertolt Brecht)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O gaúcho era gay?


Mário Maestri (*)
La Insignia. Brasil, novembro de 2006.


Em 20 de setembro de 2002, em pleno centro de Porto Alegre, durante celebração da Semana Farroupilha, membros do Movimento Tradicionalista Gaúcho sovaram a relhaços militante do movimento gay que se introduzira, montado e pilchado, na parada regionalista, com a bandeira do arco-íris, símbolo mundial da luta contra a discriminação sexual e pela paz. Ao passar diante do palanque do governador do Estado, Olívio Dutra, também vestido de gaúcho, o ativista gritara ser aquela a "verdadeira bandeira da revolução". Em inícios de 2005, em Centro de Tradições Gaúchas de Passo Fundo, no norte do RS, professor foi expulso do salão de festa por portar brinco em uma orelha. Segundo o patrão do clube, folcloristas e o presidente do Movimento Tradicionalista Gaúchos, o adereço agredia por sua feminilidade a procurada figuração contemporânea do gaúcho histórico.

O ato público de covardia grupal homofóbica de 2002, ou o comportamento autoritário e machista de 2005, materializam a angústia do movimento tradicionalista diante da simples sugestão de que o gaúcho do passado, objeto paradigmático das recriações encenadas pelos cetegistas do presente, tenha conhecido, mesmo marginalmente, orientação homossexual. Uma realidade que negaria a essência mítico-histórica proposta para o personagem, apresentado como símbolo do rio-grandense de ontem, hoje e sempre. Entre as principais atribuições do tradicionalismo ao gaúcho destaca-se a qualidade, cantada em prosa e verso, de ser tão, mas tão totalmente macho, que essa macheza desbragada terminou virando motivo de jocosidade geral, de além e aquém Mampituba.

A desembargadora Maria Berenice Dias, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, ao rechaçar publicamente a agressão física ao militante gay, de 2002, teria feito a pergunta cuja verbalização faz tremer o tradicionalismo sulino: "Por que não pode existir um gaúcho gay de bombachas?" (Época, 227, 23.09.02. www.epoca.com.br) Ou seja, em palavras simples e sem floreios: "O gaúcho do passado, cavaleiro vagabundo dos campos indivisos, centauro destemido dos pampas, guerreiro indômito do sul das Américas, motivo de lendas e romances, poderia ter sido, eventualmente, gay?"

Por vocação ou necessidade

Desconheço se há estudos históricos científicos sobre a orientação sexual do gaúcho, questão de não desprezível interesse, nem que seja como contribuição para a superação tendencial das propostas homofóbicas construídas em torno desse personagem, permanentemente esvaziado de seu sentido histórico pelas representações mítico-triviais do passado, que o confundem, mais e mais, com o fazendeiro, seu antagonista social. Porém, por razões obvias, sem o apoio de qualquer dado histórico positivo, podemos afirmar que a gauchada dos pampas sulinos, uruguaios e argentinos, como qualquer outra população masculina, em qualquer local e época, dividiu-se em uma maioria de heterossexuais e uma minoria de homossexuais.

Em forma muito geral, as práticas homossexuais correspondem à realização dos impulsos sexuais de indivíduos orientados eroticamente para o mesmo sexo ou como derivativos nascidos da impossibilidade de objetivação de orientação heterossexual. Especialistas defendem que, em qualquer situação e época, de quatro a quatorze por cento da população masculina seria homossexual [homossexuais exclusivos, segundo Alfred Kinsey, 1949], divergindo sobre as origens genéticas, psicológicas, sociais etc. do fenômeno. O impulso homossexual derivativo nasceria comumente de isolamento de população do mesmo sexo, em conventos, quartéis, internatos, presídios, navios, etc., campo fértil para a realização dos impulsos homossexuais dominantes ou subordinados e de práticas sexuais derivativas.

Essa distribuição natural da população, tendo nos seus extremos uma maioria hétero e uma minoria homossexual, constitui apenas o ponto de partida de uma eventual investigação sobre a sexualidade da população gaúcha ou de qualquer outra. Isso porque as orientações sexuais profundas e derivativas materializam-se no contexto de inúmeras e complexas determinações sociais, culturais, etc. Portanto, a questão não é saber se houve ou não gaúchos homossexuais, já que tal questão registra, em si, profunda ignorância e preconceito sobre a sexualidade humana, mas sim desvelar como o gaúcho homossexual teria vivido sua orientação homoerótica, nos diversos espaços geográficos e de tempo.

Entretanto, a questão sobre a orientação e objetivação das tendências sexuais do gaúcho torna-se ainda mais complexa devido ao fato de dispormos de informação histórica positiva que pode sugerir, hipoteticamente, que as práticas homoeróticas não fossem incomuns entre a população gaúcha heterossexual, devido precisamente às características singulares da forma de vida e de produção desse habitante do pampa sul-americano, como assinalado, motivo de infindáveis narrativas e figurações, dos mais diversos cunhos, em geral profundamente românticas e folclorizadas.

Falando mal

José Feliciano Fernandes Pinheiro nasceu em Santos, em 1774, em família abastada. Com 18 anos, partiu para Portugal, formando-se em Direito Canônico em Coimbra. Com as finanças familiares abaladas, estabeleceu-se em Lisboa, trabalhando como tradutor. Em 1800, viajou para a colônia brasileira, para ser juiz da alfândega das capitanias de São Pedro e Santa Catarina e auditor dos regimentos do Rio Grande. José Feliciano publicou, em 1819-22, os célebres Anais da Província de São Pedro, tidos como primeira história orgânica do Rio Grande, escritos desde a ótica de um burocrata de destaque do império lusitano. Na primeira edição dos Anais, José Feliciano desanca literalmente a sociedade e o habitante sulinos. Define os rio-grandenses como "inertes e vários, e de natural ferino" e propõe que os "roubos, mortes e atentados" dominassem o interior, devido aos "poucos progressos" da "moral", das "leis" e do "espírito de sociedade" locais, ensejados pelo "ruim fermento" da população original, constituída pelo "enxurro da nação", ou seja, "degredados" e "mulheres imorais e banidas". Isso porque os poucos "casais" açorianos, de límpido sangue lusitano, teriam "emigrado" devido ao descumprimento das promessas públicas.

O paulista enxovalhou igualmente sem dó a sociedade pastoril, ao anatematizar o churrasco, causa segundo o mesmo da "insensibilidade" com o "espetáculo da dor e da morte" do "estancieiro" e do "charqueador", que despedaçavam a "cada passo uma rês". Para ele, os "devoradores de vianda em geral" seriam "mais cruéis e ferozes" do que o homem normal. Ao referir-se à fazenda pastoril, registrou afirmação intrigante. Propôs nada menos que, devido à "inércia" da estância, o seu habitante conheceria a "moleza, a ociosidade e a devassidão", causas de "misérias" e, muita atenção, da baixa "multiplicação da espécie humana".

Não apenas na época, sobretudo no mundo católico homofóbico ibérico, acusava-se a sodomia, ou seja, a homossexualidade masculina, como forma de "devassidão" responsável pela frustração da "multiplicação da espécie humana". Essa interpretação deve ser tomada em sentido hipotético, ao lado de outras eventuais leituras, devido ao caráter obscuro e sintético da afirmação de José Feliciano. Porém, vinte anos mais tarde, um outro autor de narrativa muito conhecida do Rio Grande voltava a tocar, na mesma tecla, com ainda maior intensidade, sugerindo, assim, que a dupla fumaça poderia ser indício de um único foco de fogo.

Nicolau Dreys nasceu em 1781, na França. Funcionário público e militar bonapartista, viajou ao Brasil, após 1815, dedicando-se ao comércio. Conheceu diversas províncias, vivendo no Sul, na capital e no interior, em fazendas e charqueadas, de 1817 a 1827. Dreys publicou sua Notícia descritiva da província do Rio Grande de São Pedro do Sul, em 1839, no Rio de Janeiro, onde faleceu, em 1843. Sua Narrativa traz rica informação sobre o gaúcho, sua gênese e principais características. Ao concluir seu valioso depoimento, propõe que o gaúcho literalmente não gostava de mulher, devendo-se a isso a sua baixa proliferação, para o francês, fenômeno positivo, devido à fereza daquele tipo social.

¡No me gustan las chicas!

"Os gaúchos parecem pertencer a uma sociedade agyne [sem mulher], como dizia [Francesco] Algarotti, que viviam no seu tempo os Tártaros zoporojos; pelo menos, os gaúchos aparecem geralmente sem mulheres e manifestam mesmo pouca atração por elas, felizmente para seus vizinhos, a quem sua multiplicação, acompanhada de desejos tumultuosos, poderia causar desassossego [...]." Também a importante proximidade entre as propostas de José Feliciano e Nicolau Dreys não pode ensejar afirmações conclusivas, despropositadas e peremptórias. Não deve, porém, ser desconhecida e desconsiderada como ponto de partida para investigações mais detidas.

O gaúcho surgiu no Prata sobretudo como nativo destribalizado ou mestiço de europeu e pampiano ou guarani, vivendo em forma semi-nômade em campos abertos ainda que em geral apropriados privadamente, em contato intermitente com a sociedade ibérica. A explicações etimológicas mais comuns é que gaúcho teria se originado da palavra quíchua, importante idioma andino, "huachu" ou "huakcho", com o significado de "órfão", "vagabundo", "errante", "sem raízes". O nome não possuía feminino, já que não havia uma gaúcha. Na língua araucana, falada no sul do Chile e da Argentina pelos mapuches, "huaso" descreve o "habitante do campo" e "gatchu", "amigo" ou "parceiro".

No Rio Grande, mas sobretudo no Uruguai e na Argentina, o gaúcho incorporou-se, em forma permanente e episódica, à fazenda pastoril, como peão, o que não deve ensejar confusão entre os dois termos, já que o primeiro é atinente, originalmente, a uma etnia e cultura e, o segundo, a uma profissão. Nem todos os peões eram gaúchos e nem sempre o gaúcho trabalhava como peão. Segundo parece, sobretudo a partir dos anos 1870, quando os campos começaram a ser cercados, transformando o cavaleiro vago em intruso, o gaúcho foi definitivamente apealado pela necessidade econômica à fazenda, confundindo-se até mesmo etimologicamente com o peão.

Se, nos campos abertos, o gaúcho podia fazer-se acompanhar por uma companheira, em geral uma china - mulher, em quíchua - e, ainda com maior dificuldade, por algum filho, ele era aceito na fazenda pastoril apenas como trabalhador sem laços familiares. O custo de manutenção do peão e de sua família era dificilmente coberto pelo trabalho marginal que sua mulher e filhos pequenos forneceriam. Sobretudo, o fazendeiro temia que núcleos familiares de peões criassem laços familiares, societários e com a terra que questionariam inevitavelmente a posse latifundiária.

Eternamente solteiros

Na fazenda, além do fazendeiro, apenas o capataz, na sede, o posteiro, nas bordas da propriedade, e o cativo, nas senzalas, acasalavam-se normalmente, assegurando a baixa reprodução da mão-de-obra livre e escravizada necessária à produção pastoril. O cativo, campeiro ou não, podia se casar e multiplicar, como parece ter feito abundantemente no sul do Brasil, pois produzia seres que tinham no fazendeiro seu verdadeiro pai sociológico, já que eram dele propriedades e a ele deviam obediência e trabalho.

O peão, ao contrário, permanecia solteiro, dormindo no galpão, ao pé do fogo ou, mais tarde, em pequeninos dormitórios coletivos. Os levantamentos arquitetônicos das fazendas rio-grandenses dos séculos 18 e 19 registram a presença da sede, do galpão, da senzala, dos depósitos, dos currais e jamais de moradias unifamiliares para os peões. Essa triste condição do peão manteve-se quase plenamente até poucos anos.

Estudo de 1964 registrou que, nas fazendas rio-grandenses estudadas, 75% dos peões eram solteiros, enquanto praticamente 71% do capatazes eram casados. Sobre os peões, Laudelino Medeiros, autor desse valioso levantamento, registrou: "As mais das vezes dormem numa peça junto ao galpão, mais propriamente uma divisão no galpão: o quarto dos peões. Ali se encontram quatro ou cinco camas rústicas (...). São poucas as fazendas que têm quartos individuais ou de dois para os empregados." Os poucos peões casados dormiam em geral nos dormitórios coletivos e visitavam a família uma vez por semana.

Cada modo e forma de produção tem sua lei demográfica tendencial. Carente de braços, a economia colonial-camponesa ensejou explosão demográfica, impondo à camponesa papel de verdadeira parideira, de conseqüências fisiológicas, psicológicas e sociais que apenas começam a ser estudadas. A produção pastoril latifundiária e extensiva exigia escasso emprego de mão-de-obra, determinando muito baixos acasalamento e reprodução dos trabalhadores livres, fenômenos registrados no despovoamento relativo das regiões envolvidas pela economia pastoril, no RS, no Uruguai e na Argentina. Uma realidade imposta pelo fazendeiro em detrimento das necessidades e anseios, conscientes e inconscientes, do gaúcho-peão. Nesse sentido, acertava Dreys, ao ver no gaúcho um homem sem mulher, mas errava, redondamente, em sugerir que o fenômeno pudesse dever-se a sua pouca simpatia com o frágil ser do sexo feminino.

O barranco e o gaúcho

A falta de mulheres, a dificuldade em constituir família, os longos períodos vividos dioturnamente apenas entre homens, nos campos, na sede, no galpão e nos dormitórios coletivos, certamente motivaram forte tensão na vida erótica dos peões e gaúchos heterossexuais, raízes das conhecidas práticas zoofílicas, motivo de poesias tradicionalistas cantadas comumente, é lógico, quando as prendas não estão presentes. Não deixa de ser interessante que o amor carnal do peão por sua égua arranque sorrisos simpáticos e cúmplices, enquanto que o abraço do gaúcho, alegre ou triste, ao seu companheiro de faena, luta e tristeza cause arrepios de horror aos muchachos nativistas!

O desespero dos tradicionalistas com a eventualidade de que o gaúcho histórico fosse, ainda que minoritariamente, homossexual, ou tivesse, eventualmente, comportamentos homoeróticos, deve-se em parte à falsa associação necessária da homossexualidade masculina a comportamentos femininos. A feminização é apenas uma, e talvez nem mesmo a mais significativa, entre as múltiplas formas de vivência da homossexualidade masculina. Em muitos países, a expressão da homossexualidade dá-se, precisamente, através da ênfase dos atributos físicos e psíquicos masculinos.

Uma das muitas qualidades do belo filme de Ang Lee, "O Segredo de Brokeback Mountain", de 2005, é precisamente apresentar o longo, tenso e dramático relacionamento afetivo e sexual de dois peões estadunidenses, no contexto da integridade plena dos atributos e comportamentos tidos como normais à identidade masculina. Ou seja, mostrar uma forma da expressão da homossexualidade masculina que deixa muito pouco espaço aos preconceitos e caricaturas habituais sobre o relacionamento homoerótico. Uma reconstituição que pode nos sugerir, igualmente, comportamento dominante dos gaúchos eventualmente homossexuais ou envolvidos em atos homoeróticos no passado.

É crível que o hipotético gaúcho homossexual vivesse ou reprimisse, mais ou menos plenamente, suas orientações profundas, sem jamais deixar de ser e de se comportar como o gaúcho que era. Ou seja, continuaria sendo macho, mas tão extremamente macho, que, caso se encontrasse no centro de Porto Alegre, em 2002, entraria no entrevero, mesmo de mãos nuas e desmontado, nem que fosse para não ter o desgosto de ver um grupo de barbados, de rebenques na mão, fantasiados de gaúchos, se encostando um nos outros, cheios de fricotes, para encontrarem a coragem que lhes faltava para surrar um guasca solito e desmamado. Um ato, definitivamente, convenhamos, mui, mas mui pouco macho!


Bibliografia consultada

CHAVES, Antônio Gonçalves. Memórias Ecônomo-políticas sobre a administração pública do Brasil. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1978.
DELLA FLORA, Jussara Maria "Rosas na Coroa, Pranto na Vida: a história silenciosa da Camponesa Oestina ítalo-catarinense". Passo Fundo: PPGH UPF, 2005. [Dissertação de Mestrado.]
DREYS, Nicolau. Notícias descritiva do Rio Grande do Sul. 4 ed. Porto Alegre: Nova Dimensão; PUC, 1990.
MAESTRI, Mário. O escravo no Rio Grande do Sul: trabalho, resistência e sociedade. 3 ed. Revista e ampliada. Porto Alegre: EdiUFRGS, 2006.
MEDEIROS, Laudelino T. "O peão de estância: um tipo de trabalhador rural". Porto Alegre: Instituto de Estudos e Pesquisas Econômicas da UFRGS, 1967. [Edição fotocopiada]
SÃO LEOPOLDO, José Feliciano Fernandes Pinheiro, Visconde de. Anais da Província de São Pedro. 5ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.
SILVA, Nery Luiz Auler da. Antigas fazendas : arquitetura rural do Planalto Médio. Séc. XIX. Passo Fundo: Edição do Autor, 2003.

Artigo escrito para a Revista Arquipélago. A homofobia. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro/Governo do Estado do RS, 2006.

(*) Mário Maestri, 58, é historiador e professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF. E-mail: maestri@via-rs.net

Um comentário:

biotipo disse...

Olha meu caro amigo, li toda sua postagem achei muito interessante sua pesquisa, mas gostaria de deixar meu ponto de vista sobre o assunto.
Sinceramente não tenho nenhum tipo de preconceito, mas gostaria de resaltar que o seguinte:
Se vc ignorar a cultura de um povo, eles vão ignorar a sua tambem, ou seja, não sou a favor da violencia, mas acho que cada um na sua, os gays em suas manifestações e os gauchos em suas tradiçoes.