"Hay hombres que luchan un dia y son buenos
Hay otros que luchan um año y son mejores
Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos
Pero hay los que luchan toda la vida
Esos son los imprescindibles"
(Bertolt Brecht)

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Guerra Farroupilha: História e Mito

MÁRIO MAESTRI
Historiador e professor universitário (UPF)


1. A revolta dos grandes fazendeiros

Um gaudério devidamente maneado pelo mito
No extremo sul do Brasil, apenas os festejos da Semana da Pátria, com o apogeu no 7 de Setembro, data da ruptura com ex-colônia com Portugal, voltam para a garagem das efemérides anuais, aquecem-se os motores para a largada da Semana Farroupilha, com linha de chegada em 20 de Setembro, data do ingresso dos rebeldes farroupilhas em Porto Alegre, em 1835, inicio da ruptura da então província sulina com o resto do país.

Através do Rio Grande do Sul, como pequenos robôs esquizofrênicos, os estudantes nas escolas públicas e particulares agitam primeiro as cores verde e amarela das bandeirolas do unitarismo nacional, inaugurado em 1822, para saudarem dias mais tarde, com igual ânimo patriótico, o verde-amarelo-vermelho do separatismo sul-rio-grandense de 35!

Nenhum estado brasileiro celebra data cívica regional com tamanha magnificência. Do Mampituba ao Chuí, do rio Uruguai ao oceano Atlântico, nos pampas, na Serra, no Planalto, na Depressão Central e no Litoral, organizam-se desfiles, celebrações, festas. A mídia comenta fartamente os fatos do passado e as comemorações em desenvolvimento. De certo modo, a Semana Farroupilha está para o gaúcho como o Carnaval está para o carioca.

A Semana Farroupilha é sobretudo festa pública. Desde que foi oficializada, em setembro de 1964, no início do Regime Militar [1964-1984], o governo estadual sul-rio-grandense abraçou fortemente as comemorações, verdadeira tradição nas escolas públicas estaduais e municipais. Nesse sentido, a passada administração petista [1999-2002] apenas vergou-se à tradição nascida há mais de 30 anos, ao manter retoques a festa patriótica regional.

Os com e os sem

A celebração privada da independência farroupilha é também magnífica e portentosa. Almoços, jantares, bailes, shows, conferências, acampamentos, palestras, exposições, etc. são realizados na capital e no interior, sobretudo por iniciativa do Movimento Tradicionalista Gaúcho – MTG –, através dos milhares de Centros de Tradição Gaúcha – CTG – esparramados através do Estado.

A Semana Farroupilha é unanimidade regional, congregando cidadãos de todas as regiões, origens, classes sociais e situações. Na roda de chimarrão, reúnem-se o ítalo, o teuto, o nipo, o luso, o afro-descendentes. Achegam-se à chama crioula o bem empregado, o mal-empregado e o desempregado; o esquerdista, o centrista e o direitistas; os com muito, os com pouco, os sem nada.

Diante da pira cívica regional e da celebração das raízes e dos princípios que seriam as mais lídimas expressões da Revolta Farroupilha, realiza-se congregação suprapolítica, supra-racial e supra-social que, no Brasil, repete-se apenas quando a Seleção Nacional entra em campo vestindo a bandeira canarinho!

Travada sobretudo no meridião do Rio Grande, a Guerra Farroupilha constituiu apenas um entre os múltiplos movimentos armados liberais, federalistas e separatistas terçados pelas elites proprietárias das diversas regiões do Brasil, inicialmente, contra o regime colonial lusitano e, após 1822, contra o Estado imperial brasileiro.

Num desses paradoxos da história, a guerra farroupilha contra o regime imperial foi movimento elitista, sem nenhum conteúdo social, promovido sobretudo pelos grandes criadores sulinos, que sequer contou com a unanimidade dos proprietários regionais. Não foi movimento de todo os habitantes sulinos, nem de todo o Rio Grande da época.

2. 1822: a Independência dos Escravistas

A América lusitana foi mosaico de regiões semi‑autônomas, de frente para a Europa e para a África, de costas voltadas umas às outras. As diversas colônias luso-brasileiras produziam regionalmente os produtos que exportavam pelos portos da costa, por onde chegavam os manufaturados e os africanos duramente escravizados. Os mercados internos quase inexistiam.

Os senhores luso-brasileiros controlavam o essencial do poder regional e viviam em situação de associação subordinada às elites portuguesas metropolitanas. Eles sentiam-se membros do império lusitano, possuíam fortes laços de identidade regional e desconheciam sentimentos ‘nacionais’ brasileiros efetivos.

Quando da crise colonial, as elites luso-brasileiras mobilizaram-se por independência restrita aos limites objetivos das regiões sócio-econômicas em que viviam e que controlavam. Então, o Brasil era uma entidade essencialmente administrativa. O Estado-nação brasileiro foi sobretudo produto do ciclo nacional-industrialista dos anos 1930. É, portanto, realidade muito recente.

Tendências centrífugas

Nas colônias luso-americanas atuavam as mesmas forças centrífugas que explodiram a América espanhola em uma constelação de repúblicas independentes. Porém, as diversas províncias luso-brasileiras emergiram da Independência coeridas em um Estado monárquico, centralizado, autoritário.

Quando da crise colonial, as classes proprietárias regionais desejavam pôr fim ao governo autocrático lusitano, nacionalizar o comércio monopolizado pelos portugueses, resistir às pressões inglesas pelo fim do tráfico transatlântico de cativos. Elas defendiam soluções federalistas, separatistas, monárquicas e republicanas.

No Norte, no Nordeste, no Centro-Sul e no Sul eram muito fortes as tendências republicanas e independistas. Tudo sugeria que o Reino do Brasil explodiria em diversas repúblicas, ao igual ao ocorrido com os vice-reinados espanhóis, através das possessões hispano-americanas.

Porém, um grande problema angustiava os grandes senhores de todo o Brasil. Como realizar a independência sem comprometer a ordem escravista, base da produção e da sociedade em todas províncias? Fortes choques militares colocariam em perigo a submissão dos cativos e a manutenção do tráfico de trabalhadores escravizados.

Independência negreira

Os senhores sabiam que a guerra levaria ao alistamento e à fuga de cativos, como ocorrera quando da luta contra os holandeses. Havia também o exemplo recente do Haiti, onde os cativos, sublevados, haviam fundado um Estado negro livre da escravidão. Os Estados luso-brasileiros que abolissem a escravidão acolheriam cativos fugidos. As pequenas nações negreiras vergariam-se ao abolicionismo britânico do tráfico.

O Estado monárquico, autoritário e centralizador foi partejado e embalado pelos interesses negreiros. A Independência deu‑se sob a batuta conservadora dos grandes proprietários e comerciantes de trabalhadores escravizados. Os ideários republicano, separatista e federalista – fortes sobretudo entre as fracas classes médias regionais – foram reprimidos.

A independência do Brasil foi a mais conservadora das Américas. Os senhores brasileiros romperam com a coroa portuguesa e com o absolutismo e entronizavam o autoritário herdeiro do reino lusitano. Cortavam as amarras com Portugal e asseguravam os interesses portugueses. Mantiveram-se unidos sobretudo para garantir o abastecimento farto e a exploração dura dos trabalhadores escravizados.

As forças liberais e federalistas regionais curvaram-se à proposta monárquica e unitarista sob a condição que a autonomia provincial fosse discutida quando de Assembléia Constituinte, convocada antes mesmo da Independência. Em novembro de 1823, dom Pedro, digno filho dos Braganças, pôs fim ao regime constitucional e às esperanças federalistas regionais, ao inaugural o primeiro golpe de Estado militar do Brasil.

A ferro e fogo

O golpe anti-constitucional de 1823, e a constituição autoritária imposta em 1824, no contexto de profunda crise da economia escravista exportadora da época, determinaram período de forte instabilidade político-social, durante o qual as facções liberais das elites regionais mobilizaram-se pela independência ou por maior autonomia regional.

Em 1824, a primeira revolta provincial contra o golpismo bragantino, promovida sobretudo pelos liberais e republicanos pernambucanos – Confederação do Equador –, foi sufocado em um verdadeiro banho de sangue. Os líderes liberais foram executados sem o julgamento garantido pela própria Constituição autoritária outorgada por dom Pedro.

A concentração despótica dos poderes e recursos provinciais pelo governo central, em contexto de decadência da economia escravista, levou à deposição de dom Pedro, em 7 de abril de 1831, pelos farroupilhas, como eram chamados os liberais radicais de todas as províncias. Porém, o poder terminou deslizando para as mãos dos liberais conservadores, reais detentores do poder econômico, ou seja, de legiões de trabalhadores escravizados e de imensas parcelas de terras.

Em 7 de abril de 1831, com a partida de dom Pedro e com o fim do controle da administração e do exército por dignitários e oficiais próximos do príncipe português, concluía-se finalmente a independência política do Brasil. Então, o poder central passou ao controle dos representantes dos grandes escravistas, sobretudo do Rio de Janeiro.

3. Revoltas farroupilhas no Brasil e no RS


Apesar de ter debilitado as oposições provinciais, as limitadas concessões regenciais às reivindicações federalistas e liberais lançaram o Império em profunda crise. A negativa da Regência de conceder a monarquia ou a república federativa quase pôs fim à frágil unidade nacional brasileira, pactuada havia dez anos.

Através de todo o Brasil, um rosário de movimentos liberais federalistas e liberais separatistas convulsionou a Regência e o início do II Império: Ceará (1831-2); Pernambuco (1831-5); Minas Gerais (1833-5); Bahia (1837-8); Grão-Pará (1835-40), Maranhão (1838-41); Rio Grande do Sul (1835-45).

O centralismo imperial teria sido possivelmente vergado se cabanos, balaios, sabinos, praieiros, sul-rio-grandense etc. tivessem coordenado suas lutas. Isolados, os movimentos farroupilhas regionais foram esmagados, sucessivamente, um após o outro, pelo poder central.

Liberais radicais

É um acaso histórico que apenas os farroupilhas sulinos sejam conhecidos pela denominação comum a todos os liberais radicais de então. É erro deduzir romanticamente o termo farroupilha/farrapo dos uniformes em frangalhos dos últimos combatentes sulinos.

Os movimentos liberais regenciais foram impulsionados pelas elites dissidentes regionais. No Maranhão (Balaiada) e no Grão-Pará (Cabanagem), as revoltas liberais assumiram claro caráter social com o ingresso na pugna de pobres, caboclos, cativos, quilombolas, etc. O que levou as elites regionais liberais a abandonarem a luta, submetendo-se ao tacão imperial.

Os liberais sulinos reivindicavam a autonomia federativa, e, a seguir, a república separatista. Sobretudo, o movimento interpretou as reivindicações dos criadores do meridião, então hegemônicos. A longevidade da revolta deveu-se também ao fato de as elites sulinas manterem as classes subalternas regionais à margem do movimento.

Em geral, os comerciantes, a população urbana, os colonos alemães, etc. optaram pelo Império, levando a que os farrapos perdessem rapidamente o controle das grandes cidades e, sobretudo, do litoral. Porto Alegre resistiu por três vezes ao cerco farroupilha. O programa liberal-latifundiário farroupilha pouco propunha para esses setores sociais.

A questão oculta

Em 1835, no início da revolta, os farroupilhas controlaram quase toda a província. Em 1845, ao concluir-se o movimento, encontravam-se arrinconados nos pampas da fronteira sul. Tal fato também se deveu à defecção dos grandes comerciantes e charqueadores escravistas, temerosos que a vitória do movimento separatista comprometesse o tráfico internacional de trabalhadores escravizados.

Os farroupilhas jamais foram revolucionários ou reformistas sociais e políticos. Entretanto, continua-se a insistir sobre o pretenso caráter revolucionário do movimento sobretudo porque boa parte das tropas farrapas foram formadas por peões pobres e ex-cativos.

Os senhores farroupilhas e imperialistas preferiam que outros lutassem e morressem por seus ideais. Muito logo, os exércitos republicanos e monarquistas formaram-se com contingentes de peões, nativos e cativos africanos e afro-descendentes libertos.

Quando da guerra, boa parte dos gaúchos livres eram descendentes de nativos guaranis e pampianos, que haviam perdido, para os grandes latifundiários, no século anterior, suas terras ancestrais. Eles acompanhavam seus caudilhos nos combates, como faziam-no tradicionalmente nas lides dos campos.

Churrasco e saque

Não foi o ideal liberal-republicano que levou o gaúcho pobre à guerra. Quando os caudilhos trocavam de lado, sem pudor, os peões faziam o mesmo. Bento Manuel mudou de bandeira diversas vezes, sempre seguido por sua gauchada. Para o peão, o ideário farroupilha significava sobretudo soldo, churrasco e saque.

Quando chamado às armas, o homem livre tinha o direito de substituir-se. Em geral, alforriava um cativo para ocupar seu posto no combate. Arrolavam-se nas tropas republicanas cativos dos inimigos da República e compravam-se trabalhadores escravizados de cidadãos da república para preencher os vazios das tropas.

Os soldados negros que combateram faziam-no obrigados, por preferirem a vida militar à escravidão, por sonharem com liberdade após a luta, jamais obtida. Não houve democracia racial nas tropas farrapas. Soldados negros e brancos marchavam, comiam, dormiam e morriam separados. Os oficiais dos combatentes negros eram brancos.

A Constituição farroupilha dizia: "A República do Rio Grande é a associação política de todos os cidadãos rio-grandenses". Ou seja, dos "homens livres nascidos no território da República". A República erguia-se sobre a mesma pedra angular do Império: o latifúndio e a escravatura. O índio e o cativo não eram e não seriam cidadãos.

República dos senhores

Os principais chefes farrapos eram ferrenhos escravizadores. Ao ser enviado preso para a Corte, Bento Gonçalves da Silva levou consigo um negro doméstico, para servi-lo. Ao morrer, legou terras, gado e meia centena de trabalhadores escravizados, numa época em que um cativo valia um bom patrimônio.

Os farroupilhas jamais acenaram com a distribuição de terras, aos gaúchos, e com o fim do cativeiro, aos cativos, como fizera Artigas, na Banda Oriental. Os farroupilhas sequer propuseram o fim do tráfico transatlântico de homens. Nas filas farroupilhas, as veleidades emancipacionistas foram facilmente silenciadas e abafadas. Sustentada sobretudo com o sangue do peão sem terra e do negro liberto, a revolta era das elites, para as elites.

Recorda-se sempre que, para abater as armas, os farrapos exigiram, insistentemente, que o Império respeitasse a liberdade dos soldados negros. Nos fatos, temiam que se formasse uma guerrilha negra na província, ou que os combatentes negros homiziassem-se no Uruguai, caso temessem a reescravização. E, nos últimos anos da guerra farrapa, já se pensava na intervenção na Banda Oriental ...

A infâmia de Porongos

Na madrugada de 14 de novembro de 1844, em conluio com Caxias, chefe das forças imperial, David Canabarro, principal general farrapo, entregou os soldados farroupilhas negros ao inimigo, desarmados. No serro de Porongos, foi dizimada a infantaria negra, acelerando a paz entre os amos farroupilhas e imperialistas.

A rendição de Poncho Verde foi acordo de cavalheiros entre senhores. Não havia contradições essenciais entre os chefes imperialistas e republicanos. Os fazendeiros farroupilhas não haviam conseguido impor a separação da província, o Império não manteria o controle sobre ela sem a colaboração dos grandes criadores. Muito logo, os ex-farrapos marchariam, sem pejo, sob a bandeira imperial contra o Uruguai e a Argentina, em defesa da extra-territoriedade de suas imensas fazendas nos departamentos setentrionais da Banda Oriental.

4. A Invenção da Tradição – Império e República Velha

Nas décadas seguintes ao fim da guerra separatista, facções das elites sul-rio-grandenses apropriaram-se da memória farroupilha, adaptando-a aos seus objetivos. Esse processo foi permitido pelo conteúdo nulamente social daquele movimento, onde as classes subalternizadas jamais intervieram em forma autônoma.

No Segundo Reinado [1840-1889], o desenvolvimento da cafeicultura, no Centro Sul, relançou, no Sul, a criação de mulas para o transporte e a produção de charque para os trabalhadores escravizados. A boa conjuntura permitiu às elites pastoris retomaram o poder político regional, através do Partido Liberal, incontestavelmente hegemônico no Rio Grande, de 1866 a 1889.

O Partido Liberal expressava os criadores do meridião que haviam dirigido a revolta de 1835. Devido à importância dos cativos nas grandes fazendas e charqueadas, os liberais sul-rio-grandenses defendiam a escravidão, ao contrário do que faziam no resto do país, onde apoiavam em geral o emancipacionismo. Discutindo a sorte do cativeiro, o grande tribuno liberal Gaspar Silveira Martins declararia amar “mais sua pátria do que o negro”.

Os liberais reivindicaram facilmente a memória farroupilha, que permaneceu propriedade das classes pastoris do meridião, como no passado. Porém, os liberais, agora monarquistas, reivindicando apenas apenas a descentralização dos poderes imperiais, abandonavam duas grandes bandeiras farroupilhas – a separação e a república.

Urbanos e abolicionistas


Em 1878, em Porto Alegre, fundou-se o Clube Republicano “Bento Gonçalves”. A seguir, fez-se o mesmo em outras cidades do interior. Saídos das frágeis classes médias, os primeiros neo-republicanos sulinos desenvolveram ativa agitação abolicionista, com poucos resultados, em província dominada pelos grandes criadores e charqueadores escravistas.

Entretanto, agora, por primeira vez, a memória farroupilha era apropriada por grupos sociais, política e geograficamente estranhos ao movimento de 1835. O mundo urbano e as classes médias jamais haviam sido farroupilhas. Os líderes farrapos abominavam a libertação dos trabalhadores escravizados. Bento Gonçalves morrera como grande escravista. Acelerava-se a manipulação da memória farroupilha.

Em fevereiro de 1882, em Porto Alegre, meia centena de delegados elegeram a comissão organizadora do Partido Republicano Rio-grandense. Logo, o PRR foi controlado por jovens filhos de ricas famílias de criadores, sobretudo do centro e do norte do RS, chegados em boa parte da escola de Direito de São Paulo. Eles defendiam modernização conservadora do Rio Grande.

No início de 1880, em São Paulo, alguns desses universitários – Borges de Medeiros, Júlio de Castilhos, Pinheiro Machado, etc. – fundaram o Clube 20 de Setembro, para celebrar o republicanismo sulino. Em 1882, a pedido dos seus pares republicanos, o jovem Assis Brasil escreveu sua História da república rio-grandense.

A pátria pequena

Sem ser separatista, o PRR desenvolveu virulenta pregação republicana e federalista. Os jovens jacobinos defendiam a autonomia regional e a diversificação produtiva, para superar a estagnação da economia pastoril-charqueadora. A República Farrapa tornava-se referência da propaganda dos positivistas radicais, adeptos das “pequenas pátrias” de Auguste Comte.

Momentos antes da República, o jovem líder republicano Júlio de Castilhos propôs a celebração do 20 de Setembro. Com o golpe militar anti-monárquico de 15 de novembro de 1889, apoiado primeiro pelo marechal Deodoro da Fonseca, a seguir por Floriano Peixoto, os republicanos sulinos empalmaram o poder regional, institucionalizando a leitura positivistas do passado farroupilha.

Em 14 de julho de 1891, promulgava-se a constituição republicana sulina, cópia quase literal do anteprojeto escrito por Júlio de Castilhos. A primeira constituição sul-rio-grandense determinava que as “insígnias oficiais do Estado” seriam as do "pavilhão tricolor criado pelos revolucionários [...] de 1835”.

Para manterem-se no poder e implementar o novo projeto, os republicanos positivistas vergaram as forças do meridião pastoril, na mais sangrenta guerra civil conhecida Sul. A revolta farrapa foi rusga de namorados, ao lado da carnificina de 1893-5. A Revolução Federalista ceifou mais de dez mil vidas, em uma população de um milhão de habitantes.

Somos todos farrapos

Durante o confronto, os fazendeiros do meridião, herdeiros sociais, políticos e territoriais dos farroupilhas liberais, reunidos sob a nova bandeira federalista, foram acusados de monarquistas e de separatistas pelos castilhistas, republicanos e federalistas extremados. Reinterpretada, a memória farroupilha escorregava das mãos dos grandes fazendeiros para as dos jacobinos do PRR.

Os republicanos positivistas assumiam a herança simbólica da revolta latifundiária-pastoril, que vestiam com nova roupagem. Enfatizando o autonomismo e o republicanismo farrapos, alicerçavam simbolicamente o republicanismo federalista radical defendido pelo PRR através de toda a República Velha [1889-1930].

Na nova versão, a memória farroupilha passava a ser herança de todo sulino, não importando sua origem étnica – negro ou branco –; sua origem social – pobre ou rico –; sua região de nascimento – Campanha, Litoral, Serra, etc. Manipulava-se a história, apresentando o movimento como de toda a população do Rio Grande, contra o Estado central.

O mito da unidade da população, no passado, na luta por ideal único republicano e autonomista, fortalecia a proposta de comunhão de interesses do sul-rio-grandense, no presente, pilastra da ordem republicana autoritária que regeu o Rio Grande até a chamada Revolução de 1930. Nesse processo, a história desvanecia por detrás do mito.

5. A invenção da tradição: o Movimento Tradicionalista Gaúcho

Na República Velha [1889-1930], o Rio Grande foi talvez o Estado mais cioso de sua autonomia federal, assentada em uma economia em boa parte voltada para o mercado interno sulino. Nesses anos, o RS foi o único Estado que jamais conheceu intervenção federal. A independência sul-rio-grandense seria vergada apenas em 1930, por Getúlio Vargas, gaúcho e ex-militante, desde a juventude, do PRR.

A chamada Revolução de 1930 e, sobretudo o golpe do Estado Novo, de fins de 1937, promoveram a propagação autoritária do sentimento de brasilidade. Com ele, buscava-se consolidar cultural e ideologicamente a formação em curso de mercado e de indústria nacionais centrados no eixo Rio-São Paulo. Para tal, foram fortemente reprimidos os sentimentos regionalistas.

Durante a “Proclamação ao Povo Brasileiro”, de 10 de novembro de 1937, Vargas denunciou o “caudilhismo regional” que, segundo o ditador, ameaçava a unidade nacional brasileira. Em gesto simbólico, mandou queimar publicamente as bandeiras regionais, ardendo, entre elas, o estandarte criado por seus antigos mestres, Castilhos e Borges, em 1891!

A seguir, o Estado Novo promoveu a invenção de cultura nacional, como substrato da identidade nacional proposta e imposta. Para isso, o getulismo apoiou fortemente a seleção futebolística nacional; difundiu o carnaval e o samba cariocas; financiou o surgimento de arquitetura moderna brasileira etc.

Brasileiros para o Brasil

Criaram-se e adaptaram-se órgãos e associações destinados a divulgação-imposição do sentimento de amor à Pátria e à Nação, entre eles, a Liga de Defesa Nacional; a Juventude Brasileira; o Departamento de Imprensa e Propaganda; a Hora do Brasil; a Rádio Nacional, etc. As iniciativas contaram com o apoio de grande parte da intelectualidade brasileira e, logicamente, sul-rio-grandense.

A campanha de nacionalização reprimiu os sentimentos regionalistas fortalecidos na República Velha. O separatismo farroupilha passou a ser execrado. Nesses anos, historiadores do Instituto Histórico e Geográfico do RS negaram, de mãos juntas, contra todas as evidências históricas, o independismo farrapo. O mesmo seria também feito, após 1964, por historiadores acadêmicos.

A dominância das relações econômico-sociais nacionais sobre as regionais exigia que o sul-rio-grandense deixasse de ser sobretudo gaúcho, para passar a ser essencialmente brasileiro. Ainda que, em âmbito local, a identidade gaúcha – leitura romantizada da vida pastoril – mantivesse seu caráter dominante sobre as outras identidades sulinas possíveis – escrava, imigrante, operária, etc.

Durante o Estado Novo, a posição econômica e política relativa do Rio Grande recuou em relação ao Rio de Janeiro e São Paulo, que se industrializaram aceleradamente. As elites sulinas aceitaram a subordinação imposta, preocupadas em manter a dominância regional. A industria sulina cresceu em ritmos menores do que a de São Paulo e Rio de Janeiro e se manteve a importância relativa da produção rural e pastoril sulina.

O Novo Tradicionalismo

Com a derrota do nazi-fascismo e a redemocratização conservadora de 1945, a perda de importância relativa do Rio Grande ensejou movimentos culturais regionalistas que reafirmavam a especificidade sulina, em oposição à proposta nacional-centalizador getulista que marginalizara relativamente o Estado sulino.

Em vez de apontarem para o rompimento com um passado que determinara, em última instância, esse atraso, esses movimentos reivindicaram o passado rural-latifundiário arcaico, apresentando-o em forma utópica e idealizada como espécie de Era de Ouro pampeana perdida.

Em 1947, em Porto Alegre, alguns filhos de proprietários rurais fundam movimento regionalista que, apoiados no mito da democracia pastoril e do caráter libertário farroupilha, propunha o culto da ideologia latifundiária-pastoril. O movimento expressava também a rejeição ao plebeísmo democratizante da sociedade urbana-industrial e o fortalecimento político e social das classes trabalhadoras industriais sulinas.

Essa releitura do passado retomava a visão pastoril liberal-federalista do movimento farroupilha, repudiando a interpretação urbana-industrialista do castilhismo. A Guerra Farroupilha surgia apenas como uma expressão, entre outras, da excelência da sociedade pastoril-latifundiária, apontada como síntese da essência do povo gaúcho.

O mito da unidade

Também em 1947, Érico Veríssimo começou a escrever O Continente, primeira parte de sua trilogia regionalista, onde mitifica igualmente a história gaúcha, realizando o elogio póstumo da economia pastoril-latifundiária. Também nesse romance, é mínimo o espaço dedicado às classes subalternizadas no passado – peões pobres e trabalhadores escravizados.

O Tradicionalismo organizou-se em torno dos Centro de Tradições Gaúchas – CTG –, espécie de ludização da fazenda pastoril, onde peões confraternizam sob a presidência do patrão. Para não perder sua funcionalidade, essa interpretação do passado ignorou o papel do trabalhador escravizado no passado sulino, em geral, e na grande fazenda pastoril, em especial.

O Tradicionalismo surgia, em 1947, em plena Guerra Fria, em época em que as classes operárias gaúcha e brasileira começavam a expressar-se no cenário político, em forma tendencialmente autonômica. Ou seja, quando se materializavam nas esfera das relações políticas e das representações culturais os antagonismos sociais profundos que haviam dividido, desde sempre, o Rio Grande.

No contexto de uma sociedade crescentemente industrial, o novo regionalismo construía discurso ideológico que tentava abafar a consciência sobre as contradições sociais, através do mito do destino comum de explorados e exploradores, construído em torno do culto à propriedade pastoril latifundiária e de seu proprietário – o patrão.

Então já hegemônico, o capital industrial sulino apoiou o movimento, solidário com sua essência conservadora, já que a debilidade econômica do latifúndio descartava-o como força política concorrente. Em setembro de 1964, a Assembléia Legislativa institucionalizou a Semana Farroupilha, comemorada de 14 a 20 de setembro, através do Rio Grande do Sul.

6. O Mito Fundador – A Democracia Pastoril

Em 1923, a derrota da insurreição armada assisista assinalou a definitiva submissão política do campo pela cidade no Rio Grande do Sul. Em 1927, desde a ótica do latifúndio pastoril, Salis Jorge Goulart publicou A formação do Rio Grande do Sul, tida como a primeira tentativa de análise estrutural da história sulina.

Em uma época em que a produção colonial-camponesa do norte gaúcho já superava a produção latifundiária-pastoril do meridião, o autor baseava sua explicação da formação sulina nos mitos “da democracia pastoril” e da “produção sem trabalho”, aos quais também procurou dar uma base sociológica sistemática.

Para o jovem ideólogo do latifúndio, o processo de formação sulino diferenciara-se do resto do Brasil que, desde o berço, apoiara-se na despótica exploração do índio e do negro escravizados. Para ele, ao contrário, a formação social sulina teria nascido e se desenvolvido à margem das diferenças e contrdições de classes.

No Sul, a “influência geográfica” das “vastas extensões territoriais” e a “grande quantidade de alimentos fornecidos pelos rebanhos” haviam gerado o latifúndio pastoril, “célula social” do “organismo coletivo” rio-grandense, que se apoiara essencialmente no trabalho solidário e não-compulsório.

Meu patrão, meu amigo

Nessa estranha “terra sem males”, onde o alimento surgia da terra sem exigir o suor humano, com “a subsistência garantida em qualquer parte”, o “trabalhador” jamais se empregara sob o chicote da necessidade, servindo “espontaneamente” ao “patrão, de quem era “mais um amigo do que um subordinado”.

Portanto, tratava-se de uma sociedade nascida sob verdadeira “indiferenciação de classes”, formada essencialmente por “uma classe única, a dos gaúchos” que, fossem “ricos ou pobres”, igualavam-se sempre “pelo garbo dos gestos, pelo amor da guerra, pelo gosto das aventuras”.

Gaúchos preocupados apenas com a “galhardia do pingo, felizes na roda amistosa do chimarrão, entre relatos guerreiros ou façanhas dos dias de rodeio”. Gaúchos que possuiriam, “todos, humildes e potentados, os mesmo hábitos, os mesmos costumes, os mesmos ideais”.

Um mundo em que “patrões e empregados alimentavam-se com o mesmo churrasco e o mesmo chimarrão, cavalgavam os mesmo animais e juntos entregavam-se às mesma fainas dos campos, às mais velozes correrias [...].” Sociedade onde o “empregado” “não criava interesses opostos aos do patrão”, identificava-se “com ele”, tornava-se “seu amigo e, por assim dizer, seu igual.”

Poucos e tarde

Era clara a contradição posta à proposta da democracia pastoril pela importância do cativo no Sul. Na solução do paradoxo que se elevava entre o mito e a história, Salis Goulart simplesmente negou a importante introdução de cativos desde os primórdios sulinos e sua contribuição às atividades criatórias.

Segundo ele, a origem singular do Rio Grande deveria-se ao “pouco” “contingente de escravos” e ao fato de que o “espírito democrático” sulino “se formara antes da grande introdução do elemento negro”, que teria conhecido no Sul condições de vida superiores às do resto do Brasil.

“Julgamos que o nosso espírito democrático já se formara antes da grande introdução do elemento negro. Esse ponto de vista explica o fato de serem, como relatam os historiadores, os escravos melhor tratados aqui [...].” Para ele, o Rio Grande, em geral, e a fazenda pastoril, em especial, seriam sobretudo produto do trabalho livre.

Salis Goulart não inventou nada. No preciso momento em que se consolidava a superação do latifúndio pastoril pela produção colonial e urbana, sistematizou, com inteligência e criatividade, os mitos já existentes da “democracia pastoril” e da “produção pastoril sem trabalho”.

A invenção da memória

As romantizações históricas não são simples resultados de uma conspiração consciente de intelectuais com o objetivo de escamotear as contradições étnico-sociais do passado, para melhor domesticar as classes subalternas do presente. Não são meras estórias construídas por imaginações fantasiosas a partir de elucubrações arbitrárias.

Não é condição suficiente à universalização das apologias que sejam profusamente difundidas pelas elites. Em geral, elas são produtos de uma longa elaboração coletiva das classes que as patrocinam, através da potenciação-generalização de fatos circunstanciais, da ocultação-distorção de fenômenos essenciais, da projeção no passado de expectativas sociais jamais cumpridas.

A apologia pastoril da identidade entre fazendeiros e trabalhadores apoiava-se na ausência de movimentos multitudinários de luta de peões pela terra. No século 19, para estabelecer-se como criador, o gaúcho pobre necessitava de talvez não menos de mil hectares. Realidade que dificultava, naquele então, objetivamente, a luta pela divisão dos latifúndios.

Fenômeno que não impediu o confronto social incessante, expresso no abate selvagem de gado, pelo gaúcho, pela carne e pelo couro, e na sua luta por um naco de terra onde levantar seu rancho. A ojeriza do latifundiário ao sem-terra, nos dias de hoje, repete o horror, no passado, de seu ancestral, do peão em busca de um lugar onde levantar um rancho.

Luta social no campo

As apologias pastoris sobre as condições idílicas de vida dos trabalhadores escravizados sulinos extremam e generalizam para todo o Rio Grande as relativamente melhores condições de trabalho dos cativos campeiros, em relação aos negros das charqueadas, das olariais, dos cortumes, das plantações, no Sul e no resto do Brasil.

A produção pastoril era atividade extensiva semi-natural, que se baseava nas condições naturais das fazendas – pastagens, aguadas etc. – e no esforço humano. Realidade que restringia, e não abolia, a produção crescente de lucro monetário através da intensificação de extração de trabalho excedente. Para o peão e o cativo, o trabalho pastoril era um jogo, apenas se comparado ao trabalho duro na charqueada e na plantação.

Porém, o trabalho escravizado negava, essencialmente, as representações de uma sociedade pastoril edênica. Assim sendo, em verdadeira limpeza étnica, as narrativas apologéticas simplesmente ignoraram, como o fez Salis Goulart, o papel sistêmico do cativo campeiro nas ricas fazendas criatórias.

A Idade de Ouro

As representações sobre a fazenda pastoril no passado sulino foram levantadas sobretudo através da generalização das condições de trabalho das pequenas fazendas de subsistência, exploradas pelo fazendeiro e seus familiares, já que incapaz de comprar um cativo ou assalariar um peão.

A facilidade com que as narrativas sobre a democracia pastoril universalizaram-se no Rio Grande atual, processo que se registra sobretudo através da grande adesão popular aos relatos nativistas, deve-se igualmente a fenômenos recentes.

Estressadas pelas contradições da sociedade capitalista, em forma inconsciente, os segmentos sociais populares e médios, sem forças e canais para concretizarem suas expectativas no presente, voltam-se para o passado, recriando uma imaginária idade de ouro, solidária e fraterna, onde o trabalho alienado era aventura lúdica e criativa.

Manipuladas pela elites, as mitificações do passado assumem sentido social negativo ao escamotear a história real das classes trabalhadoras e a verdadeira essência da formação social sulina, apresentando-as como mundos em que o lobo apascentava o cordeiro, em que o explorador fraternizava com o explorado.

7. O MTG contra o Capitão Gay

O turista mostra apreensivo na alfândega italiana a mala com o valioso cálice etrusco comprado a peso de ouro ao arqueólogo furtivo. Displicente, o policial pouca atenção dá à peça contrafeita rusticamente que repousará sobre centenas de lareiras de incautos e orgulhosos compradores norte-americanos.
Movimento Tradicionalista Gaúcho não busca no passado valores originais que iluminem o presente. Simplesmente apresenta como bens pretéritos visões do presente avelhentadas rusticamente para parecerem desterradas do tempo.

Em Nativismo: um fenômeno social gaúcho, Barbosa Lessa confessou com grande honestidade intelectual como o tradicionalismo procedeu, não raro na “votação”, a “invenção das tradições” gaúchas. “Quando algum elemento faltasse para a nossa ação, nós teríamos de suprir a lacuna de um jeito ou outro.”

Criado por filhos de fazendeiros, o MTG leu o passado com os olhos do latifúndio moderno. Suas interpretações romantizadas da sociedade pastoril-latifundiária monopolizaram o passado, esterilizando a real, rica, contraditória e semi-desconhecida história sul-rio-grandense.

A alegoria do latifúndio feliz dissolveu a diversidade e a contradição do passado. Ela negou espaço histórico ao nativo sulino e ao missioneiro e a suas lutas pela defesa da terra ancestral; ao peão pobre e ao gaúcho vago e quarteiro, na sua oposição ao criador; ao trabalhador escravizado, trabalhador, fujão, quilombola e justiceiro.

Diversidade e Contradição

O tradicionalismo desconheceu a rica e dolorosa trajetória histórica da mulher. A sua pretensa doce submissão ao marido, no passado, teatralizada na submissão da prenda do CTG ao peão e ao patrão, no presente, apresenta imagem idealizada da fazendeira como sinônimo de toda mulher sulina.
Na sociedade patoril-latifundiária, o trabalho era monopólio do pobre e do cativo. O ato produtivo transformador da natureza era signo de inferioridade. Nesse universo mandonista, os fazendeiros sobreviviam impondo-se pela violência aos subalternizados.

A coragem era a qualidade paradigmática senhorial. O gaúcho-fazendeiro devia ser macho, pouco importando sua disposição ao trabalho. Personagem-síntese do gaúcho em O continente, de Érico Veríssimo, o capitão Rodrigo era femeeiro e pouco amigo do trabalho. Mas brilhava pela macheza.

O grande signo da sociedade pastoril não foi a enxada, mas o rebenque. Com ele, o fazendeiro domesticava o animal bravio e, protegido pelo capataz, chegava-se às costas do cativo desobediente e ao rosto do peão impertinente, em castigo físico degradante. Nas cavalgadas urbanas, tradicionalistas expõem valiosos rebenques de cabos de prata.

Nos gestos, falas e canções, os tradicionalistas cultuam a imagem mítica do gaúcho-fazendeiro que defendia seus latifúndios, impondo-se despótico as suas mulheres, peões, cativos e lindeiros. Reconstrução funcional em momento em que milhares de trabalhadores sem terra lutam por um naco de terreno onde possam trabalhar.

Surge o Capitão Gay

Sem maior sucesso, o movimento gay brasileiro tem lançado candidatos a cargos legislativos. Em fins de 2002, procurando a exposição à mídia, imprescindível ao sucesso eleitoral, candidato gay ao legislativo sulino por partido conservador, já derrotado como candidato a vereador em Pelotas, assumiu a personagem do Capitão Gay, em referência aos personagens do humorista Jô Soares e do ficcionista Érico Veríssimo.

A transfiguração possuía múltiplas mensagens e reivindicações, implícitas e explícitas, conscientes e inconscientes. Entre elas, o direito do homossexual masculino de participar de pleno direito do MTG e a proposta de que a destemerosidade pessoal é também qualidade do gay. Idéia que é um quase truísmo. E se alguém dela duvida, que vá separar uma dessas desesperadas e furiosas disputas urbanas de travestis, à navalha, por um pedaço de calçada.

O Capitão Gay trazia também à discussão tabu da história sulina. Ou seja, a sexualidade do peão, trabalhador pastoril do passado, eternamente solteiro, devido à negativa do fazendeiro de ceder naco de terra para arranchar-se com sua china. Em geral, na fazenda, fora o patrão, apenas o capataz casava e procriava, fenômeno que determinou a débil expansão demográfica pastoril do meridião do RS, uma das razões de seu atual atraso.

Reduzido ao celibato, vivendo em latifúndios onde escasseavam as mulheres, o gaúcho concretizou os impulsos erótico-sexuais como pôde. Em geral, se reconhece seus hábitos bestialistas, mantendo-se porém silêncio sobre suas relações homoeróticas, finamente abordadas no conto A intrusa, de Jorge Luis Borges que inspirou a sensível obra cinematográfica homônima de Carlos Christensen [1979].

Gaúcho desinteressado


O francês Nicolau Dreys viveu no Sul em 1817-27. Em relato, anotou que o gaúcho não tinha “mulheres”, mostrando por elas “pouca atração” [sic]. Pesquisas históricas demonstrarão certamente que o gaúcho destemido do passado podia eventualmente ser um gay, por natureza ou necessidade.

Em Porto Alegre, durante o desfile de 20 de Setembro de 2002, ao desfraldar a bandeira arco-íris do movimento homossexual, diante do palanque oficial, o Capitão Gay foi perseguido e surrado a rebenque, como anunciado, por cavalarianos tradicionalistas. Em 7 de setembro, já fora impedido de entrar no mega-acampamento ruralista, promovido anualmente em parque público municipal de Porto Alegre, cidade que jamais se rendeu aos farroupilhas.

Em uma metáfora histórica, os regionalistas perseguiram e golpearam, matreiramente, em grupo, um tradicionalista que ousou enunciar, isolado, sua diversidade, ao igual que os fazendeiros surravam no relho, no passado, protegidos pelos prepostos, o peão e o cativo alçado. A covarde violência do presente espelhou-se e inspirou-se no barbarismo do passado.

Há quase meio ano dos fatos, o cidadão ofendido, em especial, e a população sul-rio-grandense humilhada, em geral, não conheceram a devida reparação mínima através da expulsão pública e notória pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho de seus associados siderados pelo ódio homofóbico.

sábado, 10 de setembro de 2016

LENDA D'O NEGRINHO DO PASTOREIO



Por Hemerson Ferreira*

Hoje, durante o almoço, contei a lenda d'O Negrinho do Pastoreio para a minha filha, Olga. Contar histórias, contos, mitos e lendas é uma forma de distraí-la. Porque se não for assim as vezes ela não come.
A lenda d'O Negrinho do Pastoreio é antiga. Não se sabe ao certo quem a criou. Era contada no séc. XIX, sobretudo pelos abolicionistas, em campanha pelo fim da escravidão. Por isso seu tom trágico, carregado de dor e injustiça. Mostrando em forma de mito a dor de um povo sob a sina do cativeiro, que no Brasil durou 3/4 da nossa história e deixou marcas até hoje.

O escritor pelotense João Simões Lopes Neto (1865-1916) publicou uma versão em 1913, que ficaria famosa somente a partir de uma reedição feita em 1949 por Érico Veríssimo e outros escritores.

Como acontece com toda a lenda, quem a conta, o faz de um jeito. Carrega num trecho aqui, se esquece de outro ali, muda a garrafa, mas serve mesma bebida, sem mudar muito sua essência. Por isso eu contei do meu jeito, que foi mais ou menos assim:

Era uma vez um fazendeiro que morava no Sul do Brasil. Ele era rico, ignorante, violento, mas esnobe e arrogante. Vivia da exploração de trabalhadores, alguns livres e alguns escravizados. Era criador de cavalos. Gostava de apostar em corridas. Tinha um cavalo baio que era o seu xodó, de quem gostava até mais que do próprio filho, um Mauricinho que só gastava o dinheiro do pai na capital Porto Alegre, no Rio e até na França e tinha vergonha da grossura do pai, um semi-analfabeto. E odiava ver o velho com mais orgulho do cavalo baio do que dos seus diplomas.

Na fazenda haviam peões livres, peões cativos, uns plantadores e os criados da casa. A maioria era de homens, jovens, que se chamavam de "irmãos" ou "malungos". Havia um preto velho, que todos os pretos chamavam de "pai" e algumas senhoras, chamadas de "mães".

Um desses pretos cativos era um menino, muito novo e franzino, adquirido pelo fazendeiro numa das apostas em corridas de cavalo. Foi apartado da mãe, também cativa, que durante o pagamento da aposta implorou para que não levassem seu filho. Em vão. Eles nunca mais se viram. O garoto tinha nome de um santo português, sobrenome da família dos donos da sua avó, trazida da África num navio negreiro, a quem nem conheceu, mas o fazendeiro o chamava apenas de Negrinho, e assim ficou conhecido na fazenda.

Por ser pequeno e leve, o fazendeiro passou a usar Negrinho como "jóquei" do cavalo baio, num tino inteligente que o fez ganhar ainda mais dinheiro nas corridas. Nenhum peão da redondeza era páreo para o baio montado pelo menino.

Numa tarde de rodeio, porém, depois de ganhar muito dinheiro, numa das corridas, justo na qual o fazendeiro apostou bem alto, o cavalo baio, que mais uma vez iria vencer, parou de repente, como se tivesse se assustado com algo, talvez uma cobra, derrubando o Negrinho e deixando outros peões cruzarem a chegada na sua frente.

Enfurecido com o prejuízo, o fazendeiro covarde descontou no cativo. Mandou o capataz dar-lhe uma surra bem dada de relho. Depois amarrou a mão do menino numa corda que na outra ponta prendia-o ao pescoço do cavalo, obrigando-os a passarem os dias e noites unidos. Negrinho, então, não mais dormia debaixo da escada, como os criados da Casa-Grande, nem na senzala, como seus demais companheiros. Tinha que dormir no campo, no chão gelado ou no lombo do baio, ao relento.

Certa noite, muito cansado, o menino dormiu profundamente e nem percebeu que o nó que o atava ao cavalo se desprendeu. O baio, solto, partiu em disparada, sumiu, se escafedeu, junto com o resto da cavalhada.

O fazendeiro, que já era carrancudo e estava furioso por causa do prejuízo da última aposta, ficou ainda mais brabo. De relho na mão, disse ao Negrinho que ele deveria encontrar os cavalos, sobretudo o baio, ou pagaria com a vida depois da pior surra que ele jamais sonhara.

Os senhores brancos eram especialistas nisso de causar dor. Palmatória, tronco, chicote de três pontas, ferro em brasa, máscara de flandres, pau-de-arara, torniquete na cabeça, cadeira do dragão, fio elétrico desencapado, tiro no pé ou na mão, apagar o cigarro na pele, arrancar ou enfiar alfinetes embaixo das unhas, desaparecimento, exílio, chacina, salário mínimo, tapão no rosto, telefone nos ouvidos, expulsar do shopping, olhar de desprezo, desemprego, fome, achaques, blitz, "vai pra parede"..., o menino bem sabia do que os opressores eram capazes.

Em desespero, o menino então rogou pela ajuda de uma protetora a quem as mães pretas costumavam rezar nas horas de sufoco. Algumas chamavam-na de Iara, outras de Iansã, Iemanjá, Odoiá, Janaína ou Maria. Ela tinha muitos nomes. Diziam que era mãe de deuses. Ou de um deus, que apanhou também e sangrou em seus braços. O menino lembrou de sua mãe preta. E se essa protetora dos pretos já foi mãe, havia de socorrê-lo...

Na noite escura, saiu o garoto com uma vela em busca dos cavalos. Cada pingo da vela que caia no campo acendia uma luz, fazendo um rastro iluminado que não o deixou se perder. Depois de muito caminhar, ele encontrou os cavalos, inclusive o baio. Sentiu um peso gigante saindo de suas costas. Montou no baio e conduziu toda a cavalhada pra fazenda, seguindo o rastro iluminado, voltando um pouco antes do sol nascer.

Acontece que o filho do fazendeiro não gostou de ver de volta o maldito cavalo baio, de quem tinha ciúmes. Aproveitou-se que o menino foi preparar o milho para os animais e espantou novamente o cavalo, somente aquele, o baio, xodó de seu pai. Quando Negrinho chamou o fazendeiro para mostrar que havia realizado a tarefa, o homem deu falta do cavalo e explodiu de raiva: "Seu inútil, inútil. Você vai ver"!

Negrinho apanhou muito, por horas, até seu carrasco não aguentar mais bater. Quando parou de gritar e de se mexer, o fazendeiro jogou seu corpo ensanguentado num enorme formigueiro, para que as formigas o despedaçassem.

Anoiteceu e um silêncio terrível tomou conta da fazenda. Todos os cativos choravam, mas ninguém ousava fazer qualquer comentário. O batuque estava proibido. Quando amanheceu, o fazendeiro voltou ao formigueiro para ver se as formigas haviam feito o "serviço". Mas, para sua surpresa, Negrinho estava vivo, sem um arranhão sequer, montado no cavalo baio e ao lado da sua protetora celeste.

Diziam os antigos que lá no Sul do Brasil que, a partir de então, toda vez que alguém perdia algo importante e o quisesse de volta, bastava acender uma vela, colocá-la ao lado de um formigueiro e pedir ao Negrinho que o encontrasse e trouxesse.

Imagens do Negrinho do Pastoreio estão hoje enfeitando a sede do governo do Rio Grande do Sul, o Palácio do Piratini, para que essa história seja lembrada e contada de geração em geração, até o fim dos tempos, para que todos saibam que a liberdade não tem preço.

OBS: "Hemerson Ferreira: Mas ainda tomaremos esse palácio de inverno".

*Hemerson Ferreira é Professor de história

COSPLAY DE GAÚCHO: por trás da história do Laçador.

Por Hemerson Ferreira*

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 Em 1947, jovens folcloristas urbanos reunidos em um apartamento em Porto Alegre resolveram recriar um Movimento Tradicionalista Gaúcho. O contexto histórico era o do início da Guerra Fria. Após o fim da ditadura estadonovista de Getúlio Vargas, o presidente era o general Eurico Gaspar Dutra, um dos mais reacionários que o Brasil já conheceu.

Notório lacaio dos EUA, Dutra havia fechado a Central Geral dos Trabalhadores (CGT), tornou o PCB ilegal, rompeu ligações diplomáticas com a URSS, criou uma lei que tornava todos as atividades laborais como essenciais e por isso proibidas de fazerem greves, com rarissimas exceções, como a dos perfumistas.

É neste clima que o MTG surgia, buscando resgatar uma pretensa Era de Ouro perdida do Rio Grande do Sul. Os regionalismos deixaram de ser proibidos, como na ditadura de Vargas, e buscava-se então re-emplacar uma cultura subnacionalista chauvinista, que voltava com força.

Voltava-se os olhares melancólicos para o passado, pretendendo recriá-lo e, se necessário, inventando o que fosse preciso para preencher as lacunas ainda desconhecidas daquela história, como confessaram os criadores do novo tradicionalismo. O termo Movimento e Tradição mostram certa contradição. Como algo pode mover-se e se conservar? Certamente era um mover-se para trás...

O tradicionalismo gaúcho é um elogio ao mundo rural, à fazenda, às lides do campo numa propriedade latifundiária. Em seus Centros de Tradição (CTG's), apresenta-se uma recriação lúdica e fantasiosa das relações patrão/empregado.

No topo da pirâmide social reina o patrão, seguido do capataz, os peões, os cavalos, os cachorros e as prendas, nesta ordem. O negro escravizado não existe, desaparece na versão caramelada da antiga fazenda gaúcha. Patrões e empregados confraternizam ao som de violas e gaitas, servindo chimarrão uns aos outros, entre histórias de valentia, com piadas machistas que incluem com orgulhoso deboche até zoofilia. Gaúcho que tinha um cavalo tinha um amigo. E quem tinha uma égua, tinha uma namorada, zomba o piadista quando uma dama não está por perto.

Alguns anos depois, o folclorista Paixão Cortes pousou para o brilhante artista Antônio Caringi na elaboração de uma estátua que acabou vencendo o prêmio de arte tradicionalista. Fez um cosplay de gaúcho, dando uma versão ao sujeito social marginalizado no passado sulista, filho bastardo do colonizador espanhol e português com a indígena americana violentada. Com os antigos campos abertos fechados pelos alambrados, o gaúcho original teve de se tornar militar, trabalhador da fazenda ou bandido. O "gaúcho" branco da estátua do Laçador na verdade é uma representação do peão de estância, também romanceada, ficcional, e em quase nada parecida com o gaúcho do passado.

Há muito tempo o trabalho rural, da lavoura ou pastoril, não representa mais as principais atividades econômicas no Rio Grande do Sul. Aqui no RS o grosso do mundo do trabalho se dá nas cidades, nas relações entre patrões e empregados assalariados. Mas o tradicionalismo é estimulado pelos governantes e pela grande imprensa local, justamente pelo seu conteúdo ideológico conservador e "conciliador" de classes. Aqui nasceu também o MST, na luta dos trabalhadores, homens e mulheres do campo, por um pedaço de terra. Mas evidentemente esta parte da nossa história não é nem um pouco celebrada pelo tradicionalismo.

No Rio Grande do Sul há uma enorme cultura urbana e operária. Terra de ricos e variados estilos e ritmos musicais, desde o samba ao funk, hip-hop, rock, metal, punk, bregas, corais, bandinhas "sertanejas" etc. Mas para o tradicionalismo música gaúcha limitar-se-ia aos estilos tocados nos CTG's e certas estações de rádio.

O mês de setembro é o ápice dos festejos de cunho tradicionalista no Rio Grande do Sul, em comemoração à revolta de ricos criadores de gado no séc 19, que passou para a história como a "Revolução Farroupilha". Algumas façanhas dos fazendeiros do passado são elogiadas pelos fazendeiros atuais, obviamente escamoteando outros feitos não tão louváveis assim de seus heróis.
Em 1992, a Estátua do Laçador foi considerada pelo poder público local como símbolo do Rio Grande do Sul. O contexto histórico agora era o do desembarque do neoliberalismo no país e no estado, onde o tradicionalismo continuaria tendo um papel ideológico fundamental. Mas esta é uma outra história...

*Hemerson Ferreira é professor de História.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O GAÚCHO ERA GAY?

Por Mário Maestri


Em 20 de setembro de 2002, em pleno centro de Porto Alegre, durante celebração da Semana Farroupilha, membros do Movimento Tradicionalista Gaúcho sovaram a relhaços militante do movimento gay que se introduzira, montado e pilchado, na parada regionalista, com a bandeira do arco-íris, símbolo mundial da luta contra a discriminação sexual e pela paz. Ao passar diante do palanque do governador do Estado, Olívio Dutra, também vestido de gaúcho, o ativista gritara ser aquela a "verdadeira bandeira da revolução". Em inícios de 2005, em Centro de Tradições Gaúchas de Passo Fundo, no norte do Rio Grande do Sul, professor foi expulso do salão de festa por portar brinco em uma orelha. Segundo o patrão do clube, folcloristas e o presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho, o adereço agredia por sua feminilidade a procurada figuração contemporânea do gaúcho histórico.

O ato público de covardia grupal homofóbica de 2002, ou o comportamento autoritário e machista de 2005, materializam a angústia do movimento tradicionalista diante da simples sugestão de que o gaúcho do passado, objeto paradigmático das recriações encenadas pelos cetegistas do presente, tenha conhecido, mesmo marginalmente, orientação homossexual. Uma realidade que negaria a essência mítico-histórica proposta para o personagem, apresentado como símbolo do rio-grandense de ontem, hoje e sempre. Entre as principais atribuições do tradicionalismo ao gaúcho destaca-se a qualidade, cantada em prosa e verso, de ser tão, mas tão totalmente macho, que essa macheza desbragada terminou virando motivo de jocosidade geral, de além e aquém Mampituba.

A desembargadora Maria Berenice Dias, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, ao rechaçar publicamente a agressão física ao militante gay, de 2002, teria feito a pergunta cuja verbalização faz tremer o tradicionalismo sulino: "Por que não pode existir um gaúcho gay de bombachas?" (Época, 227, 23.09.02. www.epoca.com.br) Ou seja, em palavras simples e sem floreios: "O gaúcho do passado, cavaleiro vagabundo dos campos indivisos, centauro destemido dos pampas, guerreiro indômito do sul das Américas, motivo de lendas e romances, poderia ter sido, eventualmente, gay?"

Por vocação ou necessidade

Desconheço se há estudos históricos científicos sobre a orientação sexual do gaúcho, questão de não desprezível interesse, nem que seja como contribuição para a superação tendencial das propostas homofóbicas construídas em torno desse personagem, permanentemente esvaziado de seu sentido histórico pelas representações mítico-triviais do passado, que o confundem, mais e mais, com o fazendeiro, seu antagonista social. Porém, por razões óbvias, sem o apoio de qualquer dado histórico positivo, podemos afirmar que a gauchada dos pampas sulinos, uruguaios e argentinos, como qualquer outra população masculina, em qualquer local e época, dividiu-se em uma maioria de heterossexuais e uma minoria de homossexuais.

Em forma muito geral, as práticas homossexuais correspondem à realização dos impulsos sexuais de indivíduos orientados eroticamente para o mesmo sexo ou como derivativos nascidos da impossibilidade de objetivação de orientação heterossexual. Especialistas defendem que, em qualquer situação e época, de quatro a quatorze por cento da população masculina seria homossexual [homossexuais exclusivos, segundo Alfred Kinsey, 1949], divergindo sobre as origens genéticas, psicológicas, sociais etc. do fenômeno. O impulso homossexual derivativo nasceria comumente de isolamento de população do mesmo sexo, em conventos, quartéis, internatos, presídios, navios, etc., campo fértil para a realização dos impulsos homossexuais dominantes ou subordinados e de práticas sexuais derivativas.


Essa distribuição natural da população, tendo nos seus extremos uma maioria hétero e uma minoria homossexual, constitui apenas o ponto de partida de uma eventual investigação sobre a sexualidade da população gaúcha ou de qualquer outra. Isso porque as orientações sexuais profundas e derivativas materializam-se no contexto de inúmeras e complexas determinações sociais, culturais, etc. Portanto, a questão não é saber se houve ou não gaúchos homossexuais, já que tal questão registra, em si, profunda ignorância e preconceito sobre a sexualidade humana, mas sim desvelar como o gaúcho homossexual teria vivido sua orientação homoerótica, nos diversos espaços geográficos e de tempo.


Entretanto, a questão sobre a orientação e objetivação das tendências sexuais do gaúcho torna-se ainda mais complexa devido ao fato de dispormos de informação histórica positiva que pode sugerir, hipoteticamente, que as práticas homoeróticas não fossem incomuns entre a população gaúcha heterossexual, devido precisamente às características singulares da forma de vida e de produção desse habitante do pampa sul-americano, como assinalado, motivo de infindáveis narrativas e figurações, dos mais diversos cunhos, em geral profundamente românticas e folclorizadas.

Falando mal


José Feliciano Fernandes Pinheiro nasceu em Santos, em 1774, em família abastada. Com 18 anos, partiu para Portugal, formando-se em Direito Canônico em Coimbra. Com as finanças familiares abaladas, estabeleceu-se em Lisboa, trabalhando como tradutor. Em 1800, viajou para a colônia brasileira, para ser juiz da alfândega das capitanias de São Pedro e Santa Catarina e auditor dos regimentos do Rio Grande. José Feliciano publicou, em 1819-22, os célebres Anais da Província de São Pedro, tidos como primeira história orgânica do Rio Grande, escritos desde a ótica de um burocrata de destaque do império lusitano.

Na primeira edição dos Anais, José Feliciano desanca literalmente a sociedade e o habitante sulinos. Define os rio-grandenses como "inertes e vários, e de natural ferino" e propõe que os "roubos, mortes e atentados" dominassem o interior, devido aos "poucos progressos" da "moral", das "leis" e do "espírito de sociedade" locais, ensejados pelo "ruim fermento" da população original, constituída pelo "enxurro da nação", ou seja, "degredados" e "mulheres imorais e banidas". Isso porque os poucos "casais" açorianos, de límpido sangue lusitano, teriam "emigrado" devido ao descumprimento das promessas públicas.

O paulista enxovalhou igualmente sem dó a sociedade pastoril, ao anatematizar o churrasco, causa segundo o mesmo da "insensibilidade" com o "espetáculo da dor e da morte" do "estancieiro" e do "charqueador", que despedaçavam a "cada passo uma rês". Para ele, os "devoradores de vianda em geral" seriam "mais cruéis e ferozes" do que o homem normal. Ao referir-se à fazenda pastoril, registrou afirmação intrigante. Propôs nada menos que, devido à "inércia" da estância, o seu habitante conheceria a "moleza, a ociosidade e a devassidão", causas de "misérias" e, muita atenção, da baixa "multiplicação da espécie humana".

Não apenas na época, sobretudo no mundo católico homofóbico ibérico, acusava-se a sodomia, ou seja, a homossexualidade masculina, como forma de "devassidão" responsável pela frustração da "multiplicação da espécie humana". Essa interpretação deve ser tomada em sentido hipotético, ao lado de outras eventuais leituras, devido ao caráter obscuro e sintético da afirmação de José Feliciano. Porém, vinte anos mais tarde, um outro autor de narrativa muito conhecida do Rio Grande voltava a tocar, na mesma tecla, com ainda maior intensidade, sugerindo, assim, que a dupla fumaça poderia ser indício de um único foco de fogo.

Nicolau Dreys nasceu em 1781, na França. Funcionário público e militar bonapartista, viajou ao Brasil, após 1815, dedicando-se ao comércio. Conheceu diversas províncias, vivendo no Sul, na capital e no interior, em fazendas e charqueadas, de 1817 a 1827. Dreys publicou sua Notícia descritiva da província do Rio Grande de São Pedro do Sul, em 1839, no Rio de Janeiro, onde faleceu, em 1843. Sua Narrativa traz rica informação sobre o gaúcho, sua gênese e principais características. Ao concluir seu valioso depoimento, propõe que o gaúcho literalmente não gostava de mulher, devendo-se a isso a sua baixa proliferação, para o francês, fenômeno positivo, devido à fereza daquele tipo social.

No me gustan las chicas!

"Os gaúchos parecem pertencer a uma sociedade agyne [sem mulher], como dizia [Francesco] Algarotti, que viviam no seu tempo os Tártaros zoporojos; pelo menos, os gaúchos aparecem geralmente sem mulheres e manifestam mesmo pouca atração por elas, felizmente para seus vizinhos, a quem sua multiplicação, acompanhada de desejos tumultuosos, poderia causar desassossego [...]." Também a importante proximidade entre as propostas de José Feliciano e Nicolau Dreys não pode ensejar afirmações conclusivas, despropositadas e peremptórias. Não deve, porém, ser desconhecida e desconsiderada como ponto de partida para investigações mais detidas.

O gaúcho surgiu no Prata, sobretudo como nativo destribalizado ou mestiço de europeu e pampiano ou guarani, vivendo em forma semi-nômade em campos abertos ainda que em geral apropriados privadamente, em contato intermitente com a sociedade ibérica. Segundo explicações etimológicas mais comuns, gaúcho teria se originado da palavra quechua, importante idioma andino, "huachu" ou "huakcho", com o significado de "órfão", "vagabundo", "errante", "sem raízes". O nome não possuía feminino, já que não havia uma gaúcha. Na língua araucana, falada no sul do Chile e da Argentina pelos mapuches, "huaso" descreve o "habitante do campo" e "gatchu", "amigo" ou "parceiro".

No Rio Grande, mas sobretudo no Uruguai e na Argentina, o gaúcho incorporou-se, em forma permanente e episódica, à fazenda pastoril, como peão, o que não deve ensejar confusão entre os dois termos, já que o primeiro é atinente, originalmente, a uma etnia e cultura e, o segundo, a uma profissão. Nem todos os peões eram gaúchos e nem sempre o gaúcho trabalhava como peão. Segundo parece, sobretudo a partir dos anos 1870, quando os campos começaram a ser cercados, transformando o cavaleiro vago em intruso, o gaúcho foi definitivamente apealado pela necessidade econômica à fazenda, confundindo-se até mesmo etimologicamente com o peão.

Se, nos campos abertos, o gaúcho podia fazer-se acompanhar por uma companheira, em geral uma china - mulher, em quíchua - e, ainda com maior dificuldade, por algum filho, ele era aceito na fazenda pastoril apenas como trabalhador sem laços familiares. O custo de manutenção do peão e de sua família era dificilmente coberto pelo trabalho marginal que sua mulher e filhos pequenos forneceriam. Sobretudo, o fazendeiro temia que núcleos familiares de peões criassem laços familiares, societários e com a terra que questionariam inevitavelmente a posse latifundiária.

Eternamente solteiros

Na fazenda, além do fazendeiro, apenas o capataz, na sede, o posteiro, nas bordas da propriedade, e o cativo, nas senzalas, acasalavam-se normalmente, assegurando a baixa reprodução da mão-de-obra livre e escravizada necessária à produção pastoril. O cativo, campeiro ou não, podia se casar e multiplicar, como parece ter feito abundantemente no sul do Brasil, pois produzia seres que tinham no fazendeiro seu verdadeiro pai sociológico, já que eram dele propriedades e a ele deviam obediência e trabalho.

O peão, ao contrário, permanecia solteiro, dormindo no galpão, ao pé do fogo ou, mais tarde, em pequeninos dormitórios coletivos. Os levantamentos arquitetônicos das fazendas rio-grandenses dos séculos 18 e 19 registram a presença da sede, do galpão, da senzala, dos depósitos, dos currais e jamais de moradias unifamiliares para os peões. Essa triste condição do peão manteve-se quase plenamente até poucos anos.


Estudo de 1964 registrou que, nas fazendas rio-grandenses estudadas, 75% dos peões eram solteiros, enquanto praticamente 71% dos capatazes eram casados. Sobre os peões, Laudelino Medeiros, autor desse valioso levantamento, registrou: "As mais das vezes dormem numa peça junto ao galpão, mais propriamente uma divisão no galpão: o quarto dos peões. Ali se encontram quatro ou cinco camas rústicas (...). São poucas as fazendas que têm quartos individuais ou de dois para os empregados." Os poucos peões casados dormiam em geral nos dormitórios coletivos e visitavam a família uma vez por semana.

Cada modo e forma de produção tem sua lei demográfica tendencial. Carente de braços, a economia colonial-camponesa ensejou explosão demográfica, impondo à camponesa papel de verdadeira parideira, de conseqüências fisiológicas, psicológicas e sociais que apenas começam a ser estudadas. A produção pastoril latifundiária e extensiva exigia escasso emprego de mão-de-obra, determinando muito baixos acasalamento e reprodução dos trabalhadores livres, fenômenos registrados no despovoamento relativo das regiões envolvidas pela economia pastoril, no RS, no Uruguai e na Argentina. Uma realidade imposta pelo fazendeiro em detrimento das necessidades e anseios, conscientes e inconscientes, do gaúcho-peão. Nesse sentido, acertava Dreys, ao ver no gaúcho um homem sem mulher, mas errava, redondamente, em sugerir que o fenômeno pudesse dever-se a sua pouca simpatia com o frágil ser do sexo feminino.

O barranco e o gaúcho

A falta de mulheres, a dificuldade em constituir família, os longos períodos vividos dioturnamente apenas entre homens, nos campos, na sede, no galpão e nos dormitórios coletivos, certamente motivaram forte tensão na vida erótica dos peões e gaúchos heterossexuais, raízes das conhecidas práticas zoofílicas, motivo de poesias tradicionalistas cantadas comumente, é lógico, quando as prendas não estão presentes. Não deixa de ser interessante que o amor carnal do peão por sua égua arranque sorrisos simpáticos e cúmplices, enquanto que o abraço do gaúcho, alegre ou triste, ao seu companheiro de faena, luta e tristeza cause arrepios de horror aos muchachos nativistas!

O desespero dos tradicionalistas com a eventualidade de que o gaúcho histórico fosse, ainda que minoritariamente, homossexual, ou tivesse, eventualmente, comportamentos homoeróticos, deve-se em parte à falsa associação necessária da homossexualidade masculina a comportamentos femininos. A feminização é apenas uma, e talvez nem mesmo a mais significativa, entre as múltiplas formas de vivência da homossexualidade masculina. Em muitos países, a expressão da homossexualidade dá-se, precisamente, através da ênfase dos atributos físicos e psíquicos masculinos.

Uma das muitas qualidades do belo filme de Ang Lee, "O Segredo de Brokeback Mountain", de 2005, é precisamente apresentar o longo, tenso e dramático relacionamento afetivo e sexual de dois peões estadunidenses, no contexto da integridade plena dos atributos e comportamentos tidos como normais à identidade masculina. Ou seja, mostrar uma forma da expressão da homossexualidade masculina que deixa muito pouco espaço aos preconceitos e caricaturas habituais sobre o relacionamento homoerótico. Uma reconstituição que pode nos sugerir, igualmente, comportamento dominante dos gaúchos eventualmente homossexuais ou envolvidos em atos homoeróticos no passado.


É crível que o hipotético gaúcho homossexual vivesse ou reprimisse, mais ou menos plenamente, suas orientações profundas, sem jamais deixar de ser e de se comportar como o gaúcho que era. Ou seja, continuaria sendo macho, mas tão extremamente macho, que, caso se encontrasse no centro de Porto Alegre, em 2002, entraria no entrevero, mesmo de mãos nuas e desmontado, nem que fosse para não ter o desgosto de ver um grupo de barbados, de rebenques na mão, fantasiados de gaúchos, se encostando um nos outros, cheios de fricotes, para encontrarem a coragem que lhes faltava para surrar um guasca solito e desmamado. Um ato, definitivamente, convenhamos, mui, mas mui pouco macho!

Bibliografia consultada:

CHAVES, Antônio Gonçalves. Memórias Ecônomo-políticas sobre a administração pública do Brasil. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1978.

DELLA FLORA, Jussara Maria "Rosas na Coroa, Pranto na Vida: a história silenciosa da Camponesa Oestina ítalo-catarinense". Passo Fundo: PPGH UPF, 2005. [Dissertação de Mestrado.]

DREYS, Nicolau. Notícias descritiva do Rio Grande do Sul. 4 ed. Porto Alegre: Nova
Dimensão; PUC, 1990.

MAESTRI, Mário. O escravo no Rio Grande do Sul: trabalho, resistência e sociedade. 3 ed. Revista e ampliada. Porto Alegre: EdiUFRGS, 2006.

MEDEIROS, Laudelino T. "O peão de estância: um tipo de trabalhador rural". Porto
Alegre: Instituto de Estudos e Pesquisas Econômicas da UFRGS, 1967. [Edição fotocopiada]

SÃO LEOPOLDO, José Feliciano Fernandes Pinheiro, Visconde de. Anais da Província de São Pedro. 5ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.

SILVA, Nery Luiz Auler da. Antigas fazendas: arquitetura rural do Planalto Médio. Séc. XIX. Passo Fundo: Edição do Autor, 2003.

Artigo escrito para a Revista Arquipélago. A homofobia. Porto Alegre: Instituto
Estadual do Livro/Governo do Estado do RS, 2006.