"Hay hombres que luchan un dia y son buenos
Hay otros que luchan um año y son mejores
Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos
Pero hay los que luchan toda la vida
Esos son los imprescindibles"
(Bertolt Brecht)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A crise gaúcha. A erosão da ética republicano-castilhista. Entrevista especial com Mário Maestri



“A crescente subjunção da economia sulina ao grande capital global, e a dissolução do tecido socioeconômico tradicional rio-grandense, no contexto de grande fragilidade do movimento social, erodiram objetiva e subjetivamente o que poderíamos chamar de ética republicano-castilhista, equiparando as práticas políticas regionais às do resto do Brasil. Agora, faz-se política para enriquecer, legal ou, mais e mais, ilegalmente.” A opinião é do historiador gaúcho Mário Maestri, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Ele ainda afirma que a “identidade inventada” do gaúcho “sufoca as identidades nascidas das experiências sociais profundas, como as do mundo do trabalho urbano, rural, servil etc.”.

Mário Maestri é graduado em Ciências Históricas, pela Université Catholique de Louvain, na Bélgica, onde também realizou mestrado e doutorado na mesma área. Em 1991, fez o pós-doutorado na mesma universidade. Atualmente, é professor da Universidade de Passo Fundo. É autor de Uma história do Rio Grande do Sul: a ocupação do território (Passo Fundo: UPF Editora, 2006), O escravo no Rio Grande do Sul: trabalho, resistência, sociedade (Porto Alegre: Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2006) e Antonio Gramsci: vida e obra de um comunista revolucionário (São Paulo: Expressão Popular, 2007), entre outros.

De Mário Maestri, publicamos os Cadernos IHU no. 6 ("Gilberto Freyre: da Casa-Grande ao Sobrado. Gênese e Dissolução do Patriarcalismo Escravista no Brasil), no. 13 ("O escravismo colonial: a revolução copernicana de Jacob Gorender. A gênese, o reconhecimento, a deslegitimação"), no. 17 ("As Sete Mulheres e as Negras sem Rosto: Ficção, História e Trivialidade"), e no. 74 ("Raça, nação e classe na historiografia de Moysés Vellinho"). Todas as edições estão disponíveis neste sítio para download.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Podemos perceber elementos da trajetória histórica da política gaúcha na crise do governo do estado rio-grandense?

Mário Maestri - Ao contrário do resto do Brasil, no Rio Grande do Sul, a República promoveu o defenestramento das oligarquias pastoris por um novo bloco pró-capitalista castilhista-borgista que literalmente refundou o Estado regional, em um processo já definido como verdadeira “revolução passiva”, no sentido gramsciano. Ou seja, realizou reforma democrático-burguesa – controlada, conservadora e limitada – da sociedade, à margem da participação popular. Um processo possível devido à diversificação crescente, desde 1824, do perfil socioeconômico latifundiário-pastoril, devido à ação de dinâmica colonização de pequenos camponeses proprietários. Este processo ensejou uma gestão político-administrativa regional diferenciada dos estados dominados pela oligarquia agrária.

IHU On-Line – Qual é o espaço e o papel da ética política no Rio Grande do Sul de hoje?

Mário Maestri - Como assinalado, ao contrário da maior parte do Brasil, o Sul conheceu verdadeira brecha colonial-camponesa na ordem latifundiária. O que ensejou sociedade, ao menos no início, tendencialmente democrática, onde praticamente todos os colonos-camponeses possuíam terra para trabalhar com seus braços. A economia, a disciplina e o respeito ao cidadão eram valores dessa sociedade apoiada na produção familiar, que valorizava o trabalho individual, abominado pelo escravismo oligárquico. A própria industrialização sulina nasceu, sobretudo, de pequenas unidades familiares. Esses valores plebeus determinaram e influenciaram o comportamento político. Grandes políticos republicanos, como Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, Getúlio Vargas e Leonel Brizola, foram acusados – e não sem razão – de enorme apego ao poder, mas jamais foram taxados de desonestos. A crescente subjunção da economia sulina ao grande capital global, e a dissolução do tecido socioeconômico tradicional rio-grandense, no contexto de grande fragilidade do movimento social, erodiram objetiva e subjetivamente o que poderíamos chamar de ética republicano-castilhista, equiparando as práticas políticas regionais às do resto do Brasil. Agora, faz-se política para enriquecer, legal ou, mais e mais, ilegalmente.

IHU On-Line - Os movimentos sociais estariam fragilizados, hoje, em relação aos anos 1980?

Mário Maestri - Após a grande derrota de 1964 e quinze anos de ditadura militar, o movimento social sulino e brasileiro conheceu, em 1979, verdadeira explosão das lutas sindicais e pela democratização da posse da terra. Apenas muito parcialmente vitorioso nas suas reivindicações materiais, esse movimento ensejou grande vitória política com a fundação do PT (1980), da CUT (1983), então com orientações socialistas e classistas, e do MST (1984). Esses foram também os anos da luta pela anistia e pelas eleições diretas, que não conseguiram, entretanto, impor a punição dos criminosos da ditadura e as eleições diretas. Nos anos seguintes, o mundo do trabalho conheceu duas décadas de depressão econômica tendencial, agravada pela vitória da contra-revolução neoliberal em fins dos anos 1980, desastre de proporções históricas. Esse processo determinou enorme desorganização do movimento popular e cooptação dos partidos e das direções políticas, sindicais e sociais populares para a colaboração com o capital. Como assinalado, a política passou a ser simples meio de progressão social individual, lícita ou ilícita. Destaque-se que essa forma de enriquecimento se espraiou horizontalmente na esfera do executivo e legislativo, municipal, estadual e federal, garantindo ganhos pequenos, médios e literalmente abismais.

IHU On-Line - Como avalia a postura do governo do Rio Grande do Sul em relação aos movimentos sociais? O que essa repressão significa?

Mário Maestri - Yeda Crusius elegeu-se com a conjunção da votação conservadora sulina com parte do eleitorado popular desgostoso com o governo Olívio Dutra, do PT, e Germano Rigotto, do PMDB. Sem projeto autonômico para o estado, propõe-se simplesmente facilitar a transferência para privados de recursos públicos; privatizar empresas estaduais e atrelar mais estreitamente a sociedade regional ao grande capital. Todos esses objetivos (liliputização do Estado; corte de investimentos; alienação acionária do Banrisul; facilitação selvagem do agronegócio etc.) exigem a quebra da resistência do professorado, do funcionalismo público, do movimento dos camponeses sem terra. Com a exposição da corrupção do governo, reconhecida como prática normal por Cézar Busatto, chefe da Casa Civil, e acusações diretas à probidade pessoal da governadora, para o governo Yeda Crusius, destruir o movimento social, de projeto estratégico, tornou-se meio para a rápida reconstrução-consolidação de apoio, sobretudo pelo latifúndio e grandes capitais interessados na celulose e bioenergia. Segmentos que sabem remunerar em forma magnânima seus prepostos.

IHU On-Line - A sociedade gaúcha sempre foi politizada. Como agiram suas chamadas elites?

Mário Maestri - O Rio Grande do Sul já foi região econômica e socialmente poderosa. Suas classes proprietárias desempenharam papel determinante na Independência, participando desde o início do “Conselho de Procuradores Provinciais”; os grandes criadores do meridião sustentaram longa guerra contra a Corte; na República Velha, o Rio Grande do Sul jamais conheceu intervenção federal, liderando a Revolução de 1930. Porém, nos últimos oitenta anos, o Estado conheceu depressão tendencial, relativa ou absoluta, já que à margem de desenvolvimento capitalista, primeiro nacional, a seguir mundial, centrado no RJ-SP. Hoje o Rio Grande do Sul é um arremedo do que foi no passado. Nesse longo período, apenas dois governantes ensaiaram projeto de desenvolvimento autonômico regional: Flores da Cunha, em 1930-37, defenestrado por Vargas, representante do capital nacional hegemônico do RJ-SP; e Leonel Brizola, em 1959-63, rejeitado pelas próprias classes proprietárias sulinas que, após 1937 e 1964, adaptaram-se sem pruridos ao papel de gestores subordinados ao centro hegemônico, registrando assim incapacidade histórica de acaudilhar a região. O grande problema é que as classes trabalhadoras mostraram-se até agora incapazes de levantar projeto alternativo para o Rio Grande do Sul e o Brasil.

IHU On-Line - Como o gaúcho contemporâneo se relaciona com a política?

Mário Maestri - A politização da população sulina insere-se no processo apenas assinalado de crise regional. Na Colônia e no Império, a ação social coletiva das classes subalternizadas foi quase nula, já que se mostraram incapazes de articular-se em forma autônoma. Na República Velha, um importante ativismo operário, capitaneado pela gloriosa FORGS, centrado, sobretudo, em Porto Alegre, não conseguiu espraiar-se para as regiões coloniais e para a Campanha, região que jamais conheceu movimentos coletivos. A população pobre e trabalhadora jamais conseguiu servir-se dos confrontos de 1835-45, 1893-5, 1923, 1930, 1932, para fazer avançar seus interesses. O que não quer dizer que a solução daqueles conflitos não lhes dissesse respeito. Talvez à exceção de 1961, a politização rio-grandense expressou-se, sobretudo, no plano político-eleitoral. A partir de 1969, o Sul conheceu ativismo sindical, sobretudo metalúrgico, bancário, dos trabalhadores rurais sem terra e, com destaque, dos professores públicos estaduais. Atualmente, apenas os dois últimos setores mostram vitalidade.

IHU On-Line - Considerando a identidade gaúcha, como o povo do Rio Grande do Sul se define hoje? Quem é o gaúcho contemporâneo?

Mário Maestri - As identidades nacionais e regionais são geralmente construções das classes dominantes para a gestão política, ideológica, social e econômica dos subalternizados de um território. O gaúcho foi trabalhador pastoril nascido da dispersão das comunidades guaranis, charruas etc., devido à privatização dos territórios comunitários. Em relação à Argentina e ao Uruguai, o gaúcho desempenhou papel menor na economia pastoril sulina, devido ao forte desempenho do cativo campeiro. Porém, foi no Rio Grande do Sul onde se entranhou mais profundamente a identidade gaúcha entre comunidades sem relações com gaúcho histórico e o mundo latifundiário-pastoril, como os operários, classes médias urbanas e, sobretudo, descendentes de camponeses alemães, italianos, poloneses etc. Essa identidade inventada sufoca as identidades nascidas das experiências sociais profundas, como as do mundo do trabalho urbano, rural, servil etc.

IHU On-Line - Que tipo de reflexão a atual crise política gaúcha lhe desperta?

Mário Maestri - O Rio Grande do Sul vive hoje sob o signo da banalização da corrupção pública e da literal criminalização da oposição popular, através de ataque direto ao direito de manifestação dos trabalhadores sem terra, registros indiscutíveis da decomposição estrutural das práticas tradicionais da política republicana sulina. Realidade que não enseja resposta substantiva da chamada sociedade civil ou do mundo político regional, preocupado este último essencialmente com as próximas eleições. Trata-se de processos subjetivos nascidos das transformações substanciais e perversas da organização social rio-grandense, parte do processo de literal barbarização social do Brasil, que tende a pôr em xeque o próprio ordenamento democrático e institucional formal que ainda conhecemos. Processo perverso exemplificado paradigmaticamente no tratamento militar criminoso da população trabalhadora do morro da Providência no Rio de Janeiro.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

50 ANOS DEPOIS... O mesmo desafio de fazer a Revolução

Havana. 30 de Dezembro de 2008


Lázaro Barredo Medina

"A tirania foi derrubada. A alegria era imensa. Contudo, ainda faltava muita coisa a fazer. Não nos enganemos pensando que agora tudo será mais fácil; talvez, a partir de agora, tudo seja mais difícil".

O mesmo desafio de fazer a RevoluçãoEssas foram as palavras ditas por Fidel Castro ao povo no dia em que entrou em Havana, em 8 de janeiro de 1959. Muitos não imaginaram o imenso desafio que teriam perante si.

Poucos dias depois, Fidel proclamou o direito à autodeterminação nas relações com os Estados Unidos e isso foi suficiente para iniciarem imediatamente as agressões, os planos de atentados contra ele e para a irritação dos políticos norte-americanos, sendo prova disso os discursos e artigos da época, como por exemplo, o editorial da revista Time, porta-voz dos setores mais conservadores, intitulado "O neutralismo de Fidel Castro é um desafio para os EUA". Nem neutros podiam ser os cubanos diante dos Estados Unidos.

O triunfo da Revolução, em janeiro de 1959, significou para Cuba a possibilidade real, pela primeira vez na sua história, de exercer o direito à livre determinação. Desde esse momento, nem o presidente, nem o Congresso, nem os embaixadores dos EUA puderam decidir o que se podia ou não fazer em Cuba. Acabou a amarga dependência, pela qual, os governantes norte-americanos e seus embaixadores dispunham de um poder muitas vezes maior para decidir em Cuba, que o poder real que tinham para tomar decisões dentro do governo federal dos EUA, em relação a quaisquer dos 50 estados que formam a União.

Foi precisamente em exercício deste direito que, depois de conquistada a independência nacional, começou logo a aplicação do programa anunciado por Fidel no julgamento do Moncada, em 1953, e inserido na sua histórica alegação A História me Absolverá.

Cuba estabeleceu o sistema econômico e social que considerou mais justo e a um Estado socialista com democracia participativa, igualdade e justiça social.

Nessa época, a economia do país caracterizava-se por um escasso desenvolvimento industrial, dependendo fundamentalmente da produção açucareira e de uma economia agrícola concentrada nos latifúndios, onde os latifundiários controlavam 75% do total das áreas agrícolas.

A maior parte da atividade econômica do país e seus recursos minerais eram controlados por capitais norte-americanos, que dispunham de 1,2 milhão de hectares de terra (uma quarta parte do território produtivo), além de controlar a parte fundamental da indústria açucareira, a produção de níquel, as refinarias de petróleo, os serviços de eletricidade e de telefone, a maior parte do crédito bancário, e outros.

O mercado estadunidense abrangia, aproximadamente, 70% das exportações e importações cubanas, sendo os volumes do intercâmbio comercial muito dependentes: Em 1958, Cuba exportava produtos avaliados em 733 milhões de pesos e importava a 777 milhões.

A situação social existente caracterizava-se pelo elevado desemprego e analfabetismo, o sistema de saúde, a assistência social e o estado das moradias da maior parte da população eram precários, e existiam abismais diferenças nas condições de vida entre a cidade e o campo. Existia uma elevada polarização e distribuição desigual das receitas: em 1958, 50% da população dispunha apenas de 11% das receitas e 5% concentrava 26% das rendas. Além disso, a discriminação racial e da mulher, a mendicidade, a prostituição e a corrupção social e administrativa se tinham propalado.

A inadiável solução dos problemas sociais e econômicos mais urgentes da sociedade cubana apenas podiam encarar-se com a livre disposição das riquezas e recursos naturais, e assim, sob o amparo da Constituição, aprovada em 1940 e conforme as normas do Direito Internacional, Cuba exerceu o direito de dispor desses recursos e assumiu as obrigações derivadas disso, indenizando todos os recursos nacionais de terceiros países (Canadá, Espanha, Inglaterra, etc) exctuando os nacionais dos Estados Unidos, cujo governo rejeitou as disposições cubanas e converteu esta decisão do Estado cubano num pretexto para desencadear uma guerra sem precedentes na história das relações bilaterais entre duas nações.

A Revolução não só entregou a propriedade da terra aos camponeses, que até esse momento eram submetidos a condições semi-feudais de produção e obrigados a viverem na extrema pobreza, mas também, os recursos que o país tinha, foram destinados ao desenvolvimento econômico da nação e à melhora das condições materiais e de vida da população. Para termos uma idéia, na década de 80, foram destinados aproximadamente 60 bilhões de pesos à construção de unidades produtivas e de obras sociais.

O processo de industrialização implementado permitiu o início da diversificação econômica e produtiva. Até o início da crise econômica, resultante do colapso da União Soviética e do bloco socialista europeu, entre 1989 e 1991, chamada de período especial em Cuba, aumentou em 14 vezes a capacidade de produção de aços; em seis vezes, a produção de cimento; em quatro vezes, a produção de níquel; em dez vezes, a de fertilizantes; em quatro vezes, a de refinação de petróleo (sem contar a nova refinaria de Cienfuegos); em sete vezes, a produção de têxteis; em três vezes, o turismo, para apenas mencionar alguns setores. Também foram criados novos setores e novas indústrias, como a indústria da construção de maquinarias, a mecânica, a eletrônica, a produção de equipamentos médicos, a indústria farmacêutica, a indústria de materiais da construção, a indústria do vidro, da cerâmica, e outras. A isso se somam os investimentos com que aumentaram e modernizaram as indústrias açucareira, alimentícia e dos têxteis. A esse esforço une-se o desenvolvimento da biotecnologia e da engenharia genética, e outros ramos científicos.

O país também melhorou a infra-estrutura. A geração de eletricidade aumentou em mais de oito vezes, a capacidade de água armazenada aumentou em 310 vezes, de 19 milhões de metros cúbicos em 1958, atualmente é de acima dos 9 bilhões. Também houve diversificação de estradas e rodovias, modernização dos portos e outros. As necessidades sociais foram satisfazendo-se, exceto a habitação, que é o grande problema cubano.

O progressivo crescimento e diversificação do potencial produtivo e a aplicação de um programa social permitiram enfrentar o desemprego. Em 1958, de 6 milhões de habitantes, por volta de um terço da população economicamente ativa estava desempregada, dela, 45% nas zonas rurais, enquanto de 200 mil mulheres empregadas, 70% trabalhava de doméstica. Atualmente, com 11 milhões de habitantes, o número de pessoas empregadas é de mais de 4,5 milhões. Mais de 40% dos trabalhadores são mulheres, representando mais de 60% da força técnica e profissional do país.

Em 1958, a cifra de analfabetos e semi-analfabetos atingia 2 milhões. A média de escolaridade entre as pessoas maiores de 15 anos não ultrapassava a terceira série, mais de 600 mil crianças não freqüentavam a escola e 58% dos professores não tinham emprego. Apenas 45,9% das crianças em idade escolar tinha matriculado e metade delas não freqüentava a escola, conseguindo terminar o ensino primário 6% das crianças matriculadas. As universidades mal tinham capacidade para 20 mil estudantes.

O setor da educação recebeu imediatamente a atenção do Estado revolucionário. O primeiro programa foi a campanha de alfabetização com a participação da população. Construiu-se uma ampla rede de escolas em todo o país e mais de 300 mil professores trabalham no setor. A média de nível escolar entre os maiores de 15 anos é de nona série. Os 100% das crianças em idade escolar matriculam nas escolas e os 98% terminam o ensino primário e 91%, o secundário. Um em cada 11 habitantes é universitário e um em cada oito têm algum nível de preparação técnico-profissional. Há 650 mil estudantes nas universidades e o ensino é gratuito. Além disso, 100% das crianças com deficiências físicas e mentais têm a possibilidade de se prepararem para a vida em escolas especiais.

Em 1958, a precária situação da saúde pública se caracterizava por uma mortalidade infantil que ultrapassava 60 em cada mil nascidos vivos e a mortalidade materna, 118 mil em cada 10 mil. A taxa de mortalidade por gastrenterite era de 41,2 em cada cem mil e a de tuberculose, 15,9 em cada cem mil. Nas zonas rurais, 36% da população padecia parasitas intestinais, 31% malária, 14% tuberculose e 13% febre tifóide. A esperança de vida ao nascer era de 58,8 anos.

A capital do país tinha 61% dos leitos dos hospitais e 65% dos 6.500 médicos. No resto das províncias existia um médico em cada 2.378 habitantes e em todas as zonas rurais da nação existia apenas um hospital.

Atualmente, o atendimento médico é gratuito e Cuba dispõe de mais de 70 mil médicos, havendo um médico em cada 194 habitantes e quase 30 mil deles prestam serviços em mais de 60 países. Foi criada uma rede nacional de mais de 700 hospitais e policlínicas.

Em face da massificação da vacinação (neste momento, são aplicadas 13 vacinas em cada criança), foram virtualmente eliminadas doenças como a poliomielite, a difteria, o sarampo, a coqueluche, o tétano, a rubéola, a parotidite e a hepatite B. A mortalidade infantil é de 5,3 em cada mil nascidos vivos e a esperança de vida é de mais de 77 anos.

Também se prestam gratuitamente serviços médicos de alta tecnologia, que no âmbito internacional não são usualmente considerados básicos, como é o atendimento nas salas de cuidados intensivos nos hospitais pediátricos e de adultos, serviços de cirurgia cardiovascular, serviços de transplante, cuidados especiais de perinatologia, tratamento da insuficiência renal crônica, serviços especiais para a reabilitação física e médica, e outros.

Não só as medidas econômicas e sociais foram a prioridade do Estado revolucionário, mas também os esforços encaminhados a estabelecer a base jurídica interna que possibilitaria o exercício do direito à livre determinação, mediante uma participação direta da população na discussão, análise e aprovação das principais leis do país, entre as quais, a Constituição de 1976, aprovada por 97% dos cubanos maiores de 16 anos, mediante referendo ou outras leis importantes, como o Código Penal, o Código Civil, o Código da Família, o Código da Infância e da Juventude, o Código do Trabalho e da Previdência Social, etc.

Da mesma maneira, a livre determinação do povo cubano também se expressa no direito de defender a nação face à agressão exterior.

Atualmente, mais de quatro milhões de cubanos — trabalhadores, camponeses e estudantes universitários — estão organizados nas milícias em suas áreas de residência ou em suas fábricas e zonas rurais.

Desde 1959, Cuba teve que enfrentar a hostilidade de dez administrações norte-americanas, que pretenderam limitar o direito de livre determinação, mediante agressões e a imposição unilateral de um criminoso bloqueio econômico, comercial e financeiro.

É um princípio universalmente aceito da lei internacional, a proibição da coerção de um Estado contra outro, com o propósito de lhe negar o exercício de seus direitos soberanos. No artigo 24 da Carta das Nações Unidas, assinala-se que as nações deveriam se abster em suas relações internacionais da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado.

Durante os últimos 45 anos, os Estados Unidos proibiram o comércio com Cuba, inclusive, alimentos e medicamentos; cancelaram a cota cubana de exportação açucareira; seus cidadãos são proibidos, com fortes sanções, de viajarem à Ilha; proíbem a reexportação de produtos de origem estadunidense que tenham componentes ou tecnologia norte-americana de terceiros países a Cuba; proíbem os bancos em terceiros países de terem contas em dólares com Cuba ou de utilizarem essa divisa em suas transações com a nação cubana; intervêm sistematicamente para impedir ou obstaculizar o comércio e a outorga de financiamento ou ajuda a Cuba por governos, instituições e cidadãos de outros países e organismos internacionais.

Essas medidas obrigaram o nosso país, na década de 1960, a reorganizar suas relações econômicas de uma maneira estrutural, pois se viu obrigado a isso, diante das circunstâncias e por ter criado todos seus mercados fundamentais nos países da antiga Europa oriental, designadamente na ex-União Soviética, impelindo-o a uma reconversão quase total de toda a tecnologia industrial, meios de transporte e outros.

Depois que Cuba perdeu seus mercados naturais no Leste europeu, o governo norte-americano acirrou o bloqueio mediante a Lei Torricelli, em 1992, sob o pretexto da "democracia e dos direitos humanos" para proibir as subsidiárias estadunidenses, estabelecidas em terceiros países e sujeitas a leis dessas nações, de realizarem operações comerciais ou financeiras com Cuba (sobretudo em alimentos e medicamentos), punir com a proibição da entrada nos portos norte-americanos, por 180 dias, de todos os navios que transportem mercadorias para ou de Cuba, medidas que, por serem extraterritoriais, não só prejudicam Cuba, mas também a soberania de outras nações, bem como a liberdade internacional de transporte.

Em 12 de março de 1996, o governo dos Estados Unidos pôs em vigor a Lei Helms-Burton, que agravou as relações entre os dois países e pretendeu atribuir-se o direito de sancionar os cidadãos de terceiros países em cortes norte-americanas, ao passo que determinou sua expulsão ou a negação do visto de entrada nos Estados Unidos, com o objetivo de obstaculizar o esforço que realiza a nação cubana para recuperar sua economia e para conseguir uma maior inserção na economia internacional. O governo dos EUA pretendeu pressionar a população cubana para fazê-la abrir mão de seu empenho de conseguir a livre determinação.

Mais recentemente, os EUA adotaram o Plano Bush, que pretende tornar Cuba uma colônia, mediante um programa anexionista de intervenção, sob o pretexto de uma "transição", onde o Departamento de Estado responsabilizou um de seus dirigentes pela "direção" da nação, quando o Estado revolucionário desaparecer. Este Plano, pelo qual George W. Bush decidiu "precipitar o dia em que Cuba seja livre", acirra o bloqueio e a pressão sobre os cubanos, inclusive, reprime as relações familiares dos cubanos residentes nos Estados Unidos, entrega recursos milionários aos grupos terroristas de Miami, bem como a seus mercenários subordinados à Repartição dos Estados Unidos em Havana e promove fórmulas para desestabilizar o país e incrementar a pressão internacional sobre a Ilha.

Esta hostilidade norte-americana teve outras manifestações de agressão que inclui desde a agressão militar pela Baía dos Porcos, em 1961, a guerra suja dos bandos contra-revolucionários, apoiados e munidos militarmente pela Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos, a guerra bacteriológica contra as plantações (cana-de-açúcar, fumo e cítricos), animais (febre suína) e pessoas (dengue hemorrágica) , até os planos de sabotagem, bombardeios, mediante o uso de aviões espias e atentados contra os principais dirigentes da Revolução.

É bem conhecido o trabalho que as organizações terroristas realizam na execução de ações militares contra Cuba, a partir do território norte-americano, promovidas e financiadas pelos meios de comunicação em Miami, que recrutam constantemente aventureiros dispostos a virem a Cuba como espiões para perpetrarem ações de sabotagem, que declaram abertamente que não têm receio de serem processados nem condenados pelas autoridades estadunidenses.

Essa é a causa pela qual jovens patriotas colocam os interesses da nação sobre os pessoais, sacrificando, inclusive, seus parentes, e se infiltram nos grupelhos terroristas. Dessa maneira, conseguem saber de suas atividades, evitando o derramamento de sangue do povo cubano e norte-americano. Eles estão dispostos a pagarem o preço da irracionalidade política do governo dos Estados Unidos, como acontece hoje com os Cinco heróis presos injustamente nos cárceres norte-americanos por lutarem contra o terrorismo.

A isso soma-se o aparelho militar criado pelos Estados Unidos contra Cuba e as constantes atividades contra nosso país, bem como a ocupação ilegal da base naval de Guantánamo em território cubano (que hoje é uma prisão terrorífica), pedaço de território oocupado a Cuba pelos Estados Unidos no início do século passado e que o governo norte-americano se nega a devolver ao povo cubano.

No início de 1990, depois do colapso da União Soviética, isolada e vilipendiada pela reação internacional, Cuba suportou o golpe da perda de seus mercados e demonstrou que podia brilhar com luz própria, porque pôde suportar essa conjuntura pela extraordinária prova de resistência da maioria da população cubana.

A população cubana decidiu apoiar consciente e conseqüentemente a direção política do país, não só porque identifica o sistema com seu próprio interesse, mas também pela maneira responsável com que o Estado assume a crise, reorganizando as forças e projetando estratégias para buscar soluções, apesar do bloqueio norte-americano e dos condicionamentos de seus aliados europeus.

Os sacrifícios provocados por essa situação são duros, mas são suportados não só pelos avanços sociais conseguidos, mas também pela confiança nos dirigentes do país e pela apreciação das pessoas de que seu governo não é um governo decadente nem com crise em sua gestão ou carente de estratégias, mas sim um governo que demonstrou que, ainda nas mais difíceis circunstâncias, jamais deixou de atender a população.

Decorreram 50 anos e o processo libertador chegou até aqui na mesma direção daquela noite, quando Fidel, diante do povo que o aclamava, no quartel-general da tirania naquele momento, disse que talvez, a partir de agora, tudo fosse mais difícil, porque teríamos que lutar para fazer a Revolução.

Com certeza, é o desafio dessa luta a que está vigente nas atuais circunstâncias para eliminar os vícios e enaltecer as virtudes, com Fidel como soldado das idéias, como guia na luta pela liberdade e pela independência.

Os inimigos de Cuba apostam no contrário. Neste mundo, onde a política é uma charge, não podem entender que esta Revolução é um processo de continuidade no seu pensamento e na sua ação e que Fidel continuará sendo o líder da Revolução de hoje e de amanhã, que além de cargos e de títulos, continuará sendo o conselheiro de idéias, ao qual sempre deveremos acudir, porque Fidel conseguiu ultrapassar a vida política para se inserir como algo íntimo na vida familiar da imensa maioria dos cubanos.


terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Mensaje Año Nuevo/ Mensagem Ano Novo

A todos los Compañeros y Compañeras vinculados con la Solidaridad con Cuba:
Al despedirnos del ya viejo 2008 y a unos días de cumplir 50 Años de la Revolución Cubana, comparto con ustedes nuestros ideales de construcción socialista, manteniendo la confianza y el optimismo por seguir trazando caminos de victorias. Con la fuerza de nuestras ideas, el espíritu inquebrantable de nuestro pueblo y los lazos de colaboración y solidaridad con otros países continuaremos nuestras luchas por lograr un mundo mas solidario y justo.
Feliz 2009!!!!
Abrazos solidarios,
María Antonia Ramos (Assessora Política da Embaixada de Cuba )

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Bento Gonçalves da Silva: o abigeatário confesso


Os empresários cantam aos quatro ventos, que são eles os responsáveis pela existência dos empregos. Sem eles a produção dos bens e serviços, a sociedade não existiria. Há certa razão em suas palavras, mas, porém, o que não é revelado ao povo das nações que esta responsabilidade não se deve aos préstimos sociais pelo quais os meios de produção deveriam corresponder, as necessidades básicas de vida dos seres humanos. Há, aqui, implícito, inerente ao sistema capitalista o inverso das necessidades de reprodução da vida. Um conjunto de princípios estabelecidos pelo movimento do dinheiro e, assim, uma rígida incompatibilidade com o complexo das faculdades anímicas da humanidade.

O âmago desta combinação, propriedade privada dos meios de produção e dinheiro, desde a sua origem, institui inescrupulosamente na sua maneira de ser, comportamentos e atitudes nas transações com o objetivo de acumular capital, em detrimento das necessidades das pessoas.

Quando o objetivo da sociedade é o dinheiro, a violência, o crime estabelece na sociedade seus interesses, as divisões, a quebra da unidade humana da solidariedade. Funda-se o individualismo para dar sentido e justificar cada ação. A cada divisão da força de trabalho reduz-se a necessidade de seres humanos para realizar as tarefas da produção seja na agricultura, na indústria ou em serviços. Somente tem alcance de realizar suas necessidades aqueles que podem pagar pelo que necessita seja: saúde, educação, alimentos ou uma geladeira.

No artigo, “A Matriz da Violência do Mundo” de Cristóvão Feil, estas evidências aparecem com precisão, apesar do cotidiano, para os demais mortais, estar empacotado no senso comum construído pela preponderância ideológica da classe dominante. E por ventura ao desvendar-mos, ao romper-mos com a invisível e espessa alienação, que condensa uma espécie de vedação, e concretizada como verdade absoluta na consciência das pessoas padronizando costumes e condutas. Como exemplo disso, citaremos a farsa dos heróis das elites proprietárias do Rio Grande do Sul: o General Bento Gonçalves da Silva, abigeatário confesso –o grande herói da burguesia guasca.

O capitalismo é um jogo, que coloca as pessoas em confronto constante e à ambições ilimitadas. Violência e crimes escoram toda as justificativas e condenam todos aqueles que o contestam no fio da navalha.


Leia aqui, artigo postado no Diário Gauche por Cristóvão Feil: A Matriz da Violência do Mundo

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O gaúcho era gay?


Mário Maestri (*)
La Insignia. Brasil, novembro de 2006.


Em 20 de setembro de 2002, em pleno centro de Porto Alegre, durante celebração da Semana Farroupilha, membros do Movimento Tradicionalista Gaúcho sovaram a relhaços militante do movimento gay que se introduzira, montado e pilchado, na parada regionalista, com a bandeira do arco-íris, símbolo mundial da luta contra a discriminação sexual e pela paz. Ao passar diante do palanque do governador do Estado, Olívio Dutra, também vestido de gaúcho, o ativista gritara ser aquela a "verdadeira bandeira da revolução". Em inícios de 2005, em Centro de Tradições Gaúchas de Passo Fundo, no norte do RS, professor foi expulso do salão de festa por portar brinco em uma orelha. Segundo o patrão do clube, folcloristas e o presidente do Movimento Tradicionalista Gaúchos, o adereço agredia por sua feminilidade a procurada figuração contemporânea do gaúcho histórico.

O ato público de covardia grupal homofóbica de 2002, ou o comportamento autoritário e machista de 2005, materializam a angústia do movimento tradicionalista diante da simples sugestão de que o gaúcho do passado, objeto paradigmático das recriações encenadas pelos cetegistas do presente, tenha conhecido, mesmo marginalmente, orientação homossexual. Uma realidade que negaria a essência mítico-histórica proposta para o personagem, apresentado como símbolo do rio-grandense de ontem, hoje e sempre. Entre as principais atribuições do tradicionalismo ao gaúcho destaca-se a qualidade, cantada em prosa e verso, de ser tão, mas tão totalmente macho, que essa macheza desbragada terminou virando motivo de jocosidade geral, de além e aquém Mampituba.

A desembargadora Maria Berenice Dias, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, ao rechaçar publicamente a agressão física ao militante gay, de 2002, teria feito a pergunta cuja verbalização faz tremer o tradicionalismo sulino: "Por que não pode existir um gaúcho gay de bombachas?" (Época, 227, 23.09.02. www.epoca.com.br) Ou seja, em palavras simples e sem floreios: "O gaúcho do passado, cavaleiro vagabundo dos campos indivisos, centauro destemido dos pampas, guerreiro indômito do sul das Américas, motivo de lendas e romances, poderia ter sido, eventualmente, gay?"

Por vocação ou necessidade

Desconheço se há estudos históricos científicos sobre a orientação sexual do gaúcho, questão de não desprezível interesse, nem que seja como contribuição para a superação tendencial das propostas homofóbicas construídas em torno desse personagem, permanentemente esvaziado de seu sentido histórico pelas representações mítico-triviais do passado, que o confundem, mais e mais, com o fazendeiro, seu antagonista social. Porém, por razões obvias, sem o apoio de qualquer dado histórico positivo, podemos afirmar que a gauchada dos pampas sulinos, uruguaios e argentinos, como qualquer outra população masculina, em qualquer local e época, dividiu-se em uma maioria de heterossexuais e uma minoria de homossexuais.

Em forma muito geral, as práticas homossexuais correspondem à realização dos impulsos sexuais de indivíduos orientados eroticamente para o mesmo sexo ou como derivativos nascidos da impossibilidade de objetivação de orientação heterossexual. Especialistas defendem que, em qualquer situação e época, de quatro a quatorze por cento da população masculina seria homossexual [homossexuais exclusivos, segundo Alfred Kinsey, 1949], divergindo sobre as origens genéticas, psicológicas, sociais etc. do fenômeno. O impulso homossexual derivativo nasceria comumente de isolamento de população do mesmo sexo, em conventos, quartéis, internatos, presídios, navios, etc., campo fértil para a realização dos impulsos homossexuais dominantes ou subordinados e de práticas sexuais derivativas.

Essa distribuição natural da população, tendo nos seus extremos uma maioria hétero e uma minoria homossexual, constitui apenas o ponto de partida de uma eventual investigação sobre a sexualidade da população gaúcha ou de qualquer outra. Isso porque as orientações sexuais profundas e derivativas materializam-se no contexto de inúmeras e complexas determinações sociais, culturais, etc. Portanto, a questão não é saber se houve ou não gaúchos homossexuais, já que tal questão registra, em si, profunda ignorância e preconceito sobre a sexualidade humana, mas sim desvelar como o gaúcho homossexual teria vivido sua orientação homoerótica, nos diversos espaços geográficos e de tempo.

Entretanto, a questão sobre a orientação e objetivação das tendências sexuais do gaúcho torna-se ainda mais complexa devido ao fato de dispormos de informação histórica positiva que pode sugerir, hipoteticamente, que as práticas homoeróticas não fossem incomuns entre a população gaúcha heterossexual, devido precisamente às características singulares da forma de vida e de produção desse habitante do pampa sul-americano, como assinalado, motivo de infindáveis narrativas e figurações, dos mais diversos cunhos, em geral profundamente românticas e folclorizadas.

Falando mal

José Feliciano Fernandes Pinheiro nasceu em Santos, em 1774, em família abastada. Com 18 anos, partiu para Portugal, formando-se em Direito Canônico em Coimbra. Com as finanças familiares abaladas, estabeleceu-se em Lisboa, trabalhando como tradutor. Em 1800, viajou para a colônia brasileira, para ser juiz da alfândega das capitanias de São Pedro e Santa Catarina e auditor dos regimentos do Rio Grande. José Feliciano publicou, em 1819-22, os célebres Anais da Província de São Pedro, tidos como primeira história orgânica do Rio Grande, escritos desde a ótica de um burocrata de destaque do império lusitano. Na primeira edição dos Anais, José Feliciano desanca literalmente a sociedade e o habitante sulinos. Define os rio-grandenses como "inertes e vários, e de natural ferino" e propõe que os "roubos, mortes e atentados" dominassem o interior, devido aos "poucos progressos" da "moral", das "leis" e do "espírito de sociedade" locais, ensejados pelo "ruim fermento" da população original, constituída pelo "enxurro da nação", ou seja, "degredados" e "mulheres imorais e banidas". Isso porque os poucos "casais" açorianos, de límpido sangue lusitano, teriam "emigrado" devido ao descumprimento das promessas públicas.

O paulista enxovalhou igualmente sem dó a sociedade pastoril, ao anatematizar o churrasco, causa segundo o mesmo da "insensibilidade" com o "espetáculo da dor e da morte" do "estancieiro" e do "charqueador", que despedaçavam a "cada passo uma rês". Para ele, os "devoradores de vianda em geral" seriam "mais cruéis e ferozes" do que o homem normal. Ao referir-se à fazenda pastoril, registrou afirmação intrigante. Propôs nada menos que, devido à "inércia" da estância, o seu habitante conheceria a "moleza, a ociosidade e a devassidão", causas de "misérias" e, muita atenção, da baixa "multiplicação da espécie humana".

Não apenas na época, sobretudo no mundo católico homofóbico ibérico, acusava-se a sodomia, ou seja, a homossexualidade masculina, como forma de "devassidão" responsável pela frustração da "multiplicação da espécie humana". Essa interpretação deve ser tomada em sentido hipotético, ao lado de outras eventuais leituras, devido ao caráter obscuro e sintético da afirmação de José Feliciano. Porém, vinte anos mais tarde, um outro autor de narrativa muito conhecida do Rio Grande voltava a tocar, na mesma tecla, com ainda maior intensidade, sugerindo, assim, que a dupla fumaça poderia ser indício de um único foco de fogo.

Nicolau Dreys nasceu em 1781, na França. Funcionário público e militar bonapartista, viajou ao Brasil, após 1815, dedicando-se ao comércio. Conheceu diversas províncias, vivendo no Sul, na capital e no interior, em fazendas e charqueadas, de 1817 a 1827. Dreys publicou sua Notícia descritiva da província do Rio Grande de São Pedro do Sul, em 1839, no Rio de Janeiro, onde faleceu, em 1843. Sua Narrativa traz rica informação sobre o gaúcho, sua gênese e principais características. Ao concluir seu valioso depoimento, propõe que o gaúcho literalmente não gostava de mulher, devendo-se a isso a sua baixa proliferação, para o francês, fenômeno positivo, devido à fereza daquele tipo social.

¡No me gustan las chicas!

"Os gaúchos parecem pertencer a uma sociedade agyne [sem mulher], como dizia [Francesco] Algarotti, que viviam no seu tempo os Tártaros zoporojos; pelo menos, os gaúchos aparecem geralmente sem mulheres e manifestam mesmo pouca atração por elas, felizmente para seus vizinhos, a quem sua multiplicação, acompanhada de desejos tumultuosos, poderia causar desassossego [...]." Também a importante proximidade entre as propostas de José Feliciano e Nicolau Dreys não pode ensejar afirmações conclusivas, despropositadas e peremptórias. Não deve, porém, ser desconhecida e desconsiderada como ponto de partida para investigações mais detidas.

O gaúcho surgiu no Prata sobretudo como nativo destribalizado ou mestiço de europeu e pampiano ou guarani, vivendo em forma semi-nômade em campos abertos ainda que em geral apropriados privadamente, em contato intermitente com a sociedade ibérica. A explicações etimológicas mais comuns é que gaúcho teria se originado da palavra quíchua, importante idioma andino, "huachu" ou "huakcho", com o significado de "órfão", "vagabundo", "errante", "sem raízes". O nome não possuía feminino, já que não havia uma gaúcha. Na língua araucana, falada no sul do Chile e da Argentina pelos mapuches, "huaso" descreve o "habitante do campo" e "gatchu", "amigo" ou "parceiro".

No Rio Grande, mas sobretudo no Uruguai e na Argentina, o gaúcho incorporou-se, em forma permanente e episódica, à fazenda pastoril, como peão, o que não deve ensejar confusão entre os dois termos, já que o primeiro é atinente, originalmente, a uma etnia e cultura e, o segundo, a uma profissão. Nem todos os peões eram gaúchos e nem sempre o gaúcho trabalhava como peão. Segundo parece, sobretudo a partir dos anos 1870, quando os campos começaram a ser cercados, transformando o cavaleiro vago em intruso, o gaúcho foi definitivamente apealado pela necessidade econômica à fazenda, confundindo-se até mesmo etimologicamente com o peão.

Se, nos campos abertos, o gaúcho podia fazer-se acompanhar por uma companheira, em geral uma china - mulher, em quíchua - e, ainda com maior dificuldade, por algum filho, ele era aceito na fazenda pastoril apenas como trabalhador sem laços familiares. O custo de manutenção do peão e de sua família era dificilmente coberto pelo trabalho marginal que sua mulher e filhos pequenos forneceriam. Sobretudo, o fazendeiro temia que núcleos familiares de peões criassem laços familiares, societários e com a terra que questionariam inevitavelmente a posse latifundiária.

Eternamente solteiros

Na fazenda, além do fazendeiro, apenas o capataz, na sede, o posteiro, nas bordas da propriedade, e o cativo, nas senzalas, acasalavam-se normalmente, assegurando a baixa reprodução da mão-de-obra livre e escravizada necessária à produção pastoril. O cativo, campeiro ou não, podia se casar e multiplicar, como parece ter feito abundantemente no sul do Brasil, pois produzia seres que tinham no fazendeiro seu verdadeiro pai sociológico, já que eram dele propriedades e a ele deviam obediência e trabalho.

O peão, ao contrário, permanecia solteiro, dormindo no galpão, ao pé do fogo ou, mais tarde, em pequeninos dormitórios coletivos. Os levantamentos arquitetônicos das fazendas rio-grandenses dos séculos 18 e 19 registram a presença da sede, do galpão, da senzala, dos depósitos, dos currais e jamais de moradias unifamiliares para os peões. Essa triste condição do peão manteve-se quase plenamente até poucos anos.

Estudo de 1964 registrou que, nas fazendas rio-grandenses estudadas, 75% dos peões eram solteiros, enquanto praticamente 71% do capatazes eram casados. Sobre os peões, Laudelino Medeiros, autor desse valioso levantamento, registrou: "As mais das vezes dormem numa peça junto ao galpão, mais propriamente uma divisão no galpão: o quarto dos peões. Ali se encontram quatro ou cinco camas rústicas (...). São poucas as fazendas que têm quartos individuais ou de dois para os empregados." Os poucos peões casados dormiam em geral nos dormitórios coletivos e visitavam a família uma vez por semana.

Cada modo e forma de produção tem sua lei demográfica tendencial. Carente de braços, a economia colonial-camponesa ensejou explosão demográfica, impondo à camponesa papel de verdadeira parideira, de conseqüências fisiológicas, psicológicas e sociais que apenas começam a ser estudadas. A produção pastoril latifundiária e extensiva exigia escasso emprego de mão-de-obra, determinando muito baixos acasalamento e reprodução dos trabalhadores livres, fenômenos registrados no despovoamento relativo das regiões envolvidas pela economia pastoril, no RS, no Uruguai e na Argentina. Uma realidade imposta pelo fazendeiro em detrimento das necessidades e anseios, conscientes e inconscientes, do gaúcho-peão. Nesse sentido, acertava Dreys, ao ver no gaúcho um homem sem mulher, mas errava, redondamente, em sugerir que o fenômeno pudesse dever-se a sua pouca simpatia com o frágil ser do sexo feminino.

O barranco e o gaúcho

A falta de mulheres, a dificuldade em constituir família, os longos períodos vividos dioturnamente apenas entre homens, nos campos, na sede, no galpão e nos dormitórios coletivos, certamente motivaram forte tensão na vida erótica dos peões e gaúchos heterossexuais, raízes das conhecidas práticas zoofílicas, motivo de poesias tradicionalistas cantadas comumente, é lógico, quando as prendas não estão presentes. Não deixa de ser interessante que o amor carnal do peão por sua égua arranque sorrisos simpáticos e cúmplices, enquanto que o abraço do gaúcho, alegre ou triste, ao seu companheiro de faena, luta e tristeza cause arrepios de horror aos muchachos nativistas!

O desespero dos tradicionalistas com a eventualidade de que o gaúcho histórico fosse, ainda que minoritariamente, homossexual, ou tivesse, eventualmente, comportamentos homoeróticos, deve-se em parte à falsa associação necessária da homossexualidade masculina a comportamentos femininos. A feminização é apenas uma, e talvez nem mesmo a mais significativa, entre as múltiplas formas de vivência da homossexualidade masculina. Em muitos países, a expressão da homossexualidade dá-se, precisamente, através da ênfase dos atributos físicos e psíquicos masculinos.

Uma das muitas qualidades do belo filme de Ang Lee, "O Segredo de Brokeback Mountain", de 2005, é precisamente apresentar o longo, tenso e dramático relacionamento afetivo e sexual de dois peões estadunidenses, no contexto da integridade plena dos atributos e comportamentos tidos como normais à identidade masculina. Ou seja, mostrar uma forma da expressão da homossexualidade masculina que deixa muito pouco espaço aos preconceitos e caricaturas habituais sobre o relacionamento homoerótico. Uma reconstituição que pode nos sugerir, igualmente, comportamento dominante dos gaúchos eventualmente homossexuais ou envolvidos em atos homoeróticos no passado.

É crível que o hipotético gaúcho homossexual vivesse ou reprimisse, mais ou menos plenamente, suas orientações profundas, sem jamais deixar de ser e de se comportar como o gaúcho que era. Ou seja, continuaria sendo macho, mas tão extremamente macho, que, caso se encontrasse no centro de Porto Alegre, em 2002, entraria no entrevero, mesmo de mãos nuas e desmontado, nem que fosse para não ter o desgosto de ver um grupo de barbados, de rebenques na mão, fantasiados de gaúchos, se encostando um nos outros, cheios de fricotes, para encontrarem a coragem que lhes faltava para surrar um guasca solito e desmamado. Um ato, definitivamente, convenhamos, mui, mas mui pouco macho!


Bibliografia consultada

CHAVES, Antônio Gonçalves. Memórias Ecônomo-políticas sobre a administração pública do Brasil. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1978.
DELLA FLORA, Jussara Maria "Rosas na Coroa, Pranto na Vida: a história silenciosa da Camponesa Oestina ítalo-catarinense". Passo Fundo: PPGH UPF, 2005. [Dissertação de Mestrado.]
DREYS, Nicolau. Notícias descritiva do Rio Grande do Sul. 4 ed. Porto Alegre: Nova Dimensão; PUC, 1990.
MAESTRI, Mário. O escravo no Rio Grande do Sul: trabalho, resistência e sociedade. 3 ed. Revista e ampliada. Porto Alegre: EdiUFRGS, 2006.
MEDEIROS, Laudelino T. "O peão de estância: um tipo de trabalhador rural". Porto Alegre: Instituto de Estudos e Pesquisas Econômicas da UFRGS, 1967. [Edição fotocopiada]
SÃO LEOPOLDO, José Feliciano Fernandes Pinheiro, Visconde de. Anais da Província de São Pedro. 5ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.
SILVA, Nery Luiz Auler da. Antigas fazendas : arquitetura rural do Planalto Médio. Séc. XIX. Passo Fundo: Edição do Autor, 2003.

Artigo escrito para a Revista Arquipélago. A homofobia. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro/Governo do Estado do RS, 2006.

(*) Mário Maestri, 58, é historiador e professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF. E-mail: maestri@via-rs.net

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Caprichos da burguesia guasca

O vento e o lixo

http://www.diariogauche.blogspot.com/


O litoral guasca é coisa pra macho

Dias atrás dei uma recorrida no Litoral Norte. Entrei via Cidreira e percorri praticamente todas as praias, até Torres. Na natureza se destacam o vento forte e constante, molhado de maresia e um mar achocolatado, revolto e gelado. Coisa pra macho. Na paisagem urbana uma arquitetura pobre e repetida, muito lixo em terrenos baldios, lixo nas ruas, lixo nas poucas calçadas, o que denota a existência de um poder público que está se lixando para moradores e turistas, e uma novidade que cresce como cogumelo: condomínios fechados, muros altíssimos, com nomes que nada significam mas demonstram fantasias povoadas de monarcas, nobrezas e imaginários pré-capitalista e pré-republicano.

Passei por um condomínio cujo nome é Condado da Riviera, uma mescla tola de ignorância com desorientação. Falei com um zelador que estava visivelmente assoleado, sentado num abrigo inútil, na portaria do tal Condado:

- O senhor pode me dizer onde mora o Conde?

Ele nada respondeu. Acho que estava sofrendo uma forte insolação.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Construtores de uma Farsa: gauchismo urbano




São eles: Paixão Cortes, Barbosa Lessa, Glauco Sariava....Ideólogos da burguesia guasca, criaram o MTG (Movimento Tradicionalista Gaúcho) e o clubinho preconceituoso do CTG (Centro de Tradições Gaúchas).

Algumas Caracterisitcas do MTG e do CTG:

- estrutura do latifúndio-, patrão, capataz, peão, prenda.

- o "gaúcho" não possui um lugar na estrutura do CTG.

- herdeiro de uma ordem ditatorial e transformou-se no desaguadouro do pensamento e das práticas de caserna.

- O tradicionalista é um ser fragmentado.

- Sempre tem um piquete de estúpidos para agredir pessoas "fora do padrão".

- usam o método da estupidez para converter à obediência – a chamada pedagogia da doma usada com animais.

- tradicionalismo assumiu oficialmente um caráter “oficialista”, cívico-fundamentalista.

- Paixão Cortês fora tocado pelos rodeios e estilo de vida dos caubóis norte-americanos.

- o Tradicionalismo acabou se transformando em uma cultura de caserna, de inspiração de um positivismo desilustrado, dominado, em especial, pelos oficiais brigadianos, funcionários públicos e pela direita culturalmente limitada, líderes de legiões de "artistas" do lumpesinato.

-Na fase espontânea, lúdica e telúrica do Tradicionalismo foi colocada uma canga disciplinadora, controladora, de obediência.

- o Tradicionalismo expressou a sua hegemonia na instituição do MTG como instrumento da Ditadura Militar.Nessa arreada, o Tradicionalismo transformou-se na "cultura oficial" do Rio Grande do Sul como expressão do poder e assumiu seu aspecto militantemente ideológico. Terminava qualquer inocência em seu interior.

- A trilha sonora da tortura foi a música tradicionalista. Todo preposto da ditadura no Piratini teve um lacaio pilchado para servir o mate, assar o churrasco e animar a tertúlia. Cada quartel construiu seu galpão crioulo como eco desse tempo obscurantista, de tortura, de morte, de repressão e de controle popular, especialmente da alma e da sensibilidade.

-O núcleo fundamental do Tradicionalismo, do qual deve emanar o comportamento e a cultura, é a estância simbólica. A arte da elite era preferencialmente palaciana. Admitiam-se somente as expressões "aceitas". Na verdade, a oligarquia real era universal. O Tradicionalismo não é sequer uma extensão cultural da oligarquia, de cuja propriedade retirou seu ícone fundante. Ele é uma leitura equivocada, uma adoção ilusória de sua rusticidade. Sequer abagualada e xucra, pois isso poderia remeter para a insubmissão.

- No CTG se encontram o peão, o agregado, o posteiro, o capataz, todas as figuras obedientes, atreladas ao mando da sede, do núcleo inquestionável do poder do patrão.

- MTG é um movimento de defesa de uma moralidade conservadora, de uma idéia pastoril cristã de família.

- CTG não é lugar de gaúcho; é lugar de patrão e peão, de gente obediente, conformada e militante da ordem, mesmo que o sistema trate o povo como gaúcho e excluído.

- MTG é uma entidade privada, mas que, colocando-se como "cultura oficial", invadiu instituições, domina espaços do governo e possui reservas vitalícias nos órgãos públicos. Além disso, arrecada considerável verba pública para os seus eventos. Invadiu a escola para converter os alunos ao seu culto, quando a educação republicanamente é o espaço do saber, do estudo.

- MTG é um movimento militante ideológico-cultural, cada vez mais fundamentalista e intolerante, que procura converter-se em um poder dentro do Estado, invariavelmente pressionando, quando não elegendo governantes.

- O "orgulho gaúcho" é completamente inútil para protagonizar a modernidade, apesar do próprio tradicionalista ser um ente pós-moderno, no sentido que postula uma identidade pela imagem e pelo culto ritualístico. A sua energia e militância, no entanto, cria um cenário dogmático.

- a missa crioula é uma ode ao mundo estancieiro. A propriedade foi sacralizada. O latifúndio, por sua extensão, é ressignificando como a "estância do Céu"; Deus, como o "Patrão celestial"; São Pedro, como o "capataz"; Jesus Cristo, como o "tropeiro" que andou pela terra mangueirando o rebanho; e, Nossa Senhora, como a "prenda" disso tudo.

- MTG fortalece o dogmatismo. Essa "dureza" de pensamento se evidencia na sala de aula, na política, na cultura. Não existe nada pior do que o ignorante com "certezas" imutáveis. Praticamente é um insensível com o outro. O mundo é uma pirâmide, com o patrão no topo; e ele, psicologicamente, junto... O fundamentalismo é uma totalidade. No seu último congresso, o MTG adotou o projeto de fundar as suas próprias escolas de ensino fundamental e médio, além de uma universidade. É simplesmente assustador para a vida republicana.

- o MTG, ao menos no Rio Grande do Sul, possui um forte impulso militaresco; as pilchas já não são mais expressões da vestimenta civil, pois os CTGs andam uniformizados; e os piquetes parecem grupos militares ou de milicianos, invariavelmente ocorrendo escaramuças entre eles, em disputas inócuas, mas de intensa mobilização.

- O autoritarismo castilhista colocou-se, por fim, como herdeiro dessa tradição, e, por meio da difusão educacional, disseminou-se a falsa visão de que os farrapos eram republicados e que o povo lutou ao seu lado contra o Império.

- O auge do processo de colaboração entre a Ditadura e o MTG foi a instituição do IGTF - Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore, em 1974, consagrando uma ação que vinha em operação desde 1954. A missão era aparentemente nobre: pesquisar e difundir o folclore e a tradição. Mas do papel para a realidade existe grande diferença. Havia um interesse perverso e não revelado.

- A lei que instituiu a "Semana Farroupilha" é de dezembro de 1964, determinando que os festejos e comemorações fossem realizados através da fusão estatal e civil, pela organização de secretarias governamentais (Cultura, Desportos, Turismo, Educação, etc.) e de particulares (CTGs, mídia, comércio, etc.).

- Durante a Ditadura Militar, o Tradicionalismo foi praticamente a única "representação" com origem na sociedade civil que fez desfiles juntamente com as forças da repressão.

- o Tradicionalismo engrossou os piquetes da ditadura - seus serviçais pilchados animaram as solenidades oficiais, chulearam pelos gabinetes e se responsabilizaram pelas churrasqueadas do poder. Esse processo de oficialização dos tradicionalistas resultou na "federalização" autoritária, com um centro dominador (ao estilo do positivismo), com a fundação do Movimento Tradicionalista Gaúcho, em 1967. Autoritário, ao estilo do espírito de caserna dos donos do poder, nasceu como órgão de coordenação e representação.