"Hay hombres que luchan un dia y son buenos
Hay otros que luchan um año y son mejores
Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos
Pero hay los que luchan toda la vida
Esos son los imprescindibles"
(Bertolt Brecht)

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

📜Contos Históricos do RS: A Revolta não foi Revolução, Porto Alegre que nunca foi farrapa, vice presidente assassinado no Alegrete e as mentiras destes estancieiros. (CONTO III)*



O MTG NÃO CONTA ASSIM...

A """REVOLUÇÃO""" FARROUPILHA...

Na década de 1830 o Rio Grande do Sul tinha pouco mais de 150 mil habitantes, quase um terço da população eram de escravos negros. 15.000 escravos entraram no estado somente na janela temporal de 1814 à 1823. Poucos detinham a propriedade da terra. Eram colonos na região de Porto Alegre e litoral Norte. Nos resto do estado reinavam os estancieiros sesmeiros que exploravam a mão de obra de escravos negros, e de indígenas, mestiços mal pagos e de errantes (gaúchos) nas épocas de verão quando havia os abates e rodeios de marcação. Foi neste estado desigual que estancieiros reclamavam de qualquer tipo de impostos. Os ricos da metade norte reclamavam ter o peso dos impostos sobre si enquanto os criadores de gado das estâncias pouco pagavam. O historiador Moacyr Flores comenta: "O presidente da província pretendia criar impostos sobre a propriedade rural, pois não achava justo que grandes latifundiários nada pagassem, enquanto o habitante do núcleo urbano, às vezes, tendo apenas uma casinhola para viver, pertencesse ao único grupo contribuinte de impostos territorial e predial." Os latifundiários só aceitavam impostos sobre a produção e nunca sobre seu capital.

Em 1831 D. Pedro I é corrido do Brasil por forças federalistas e se inicia o Período Regencial na espera da maioridade de D. Pedro II. Estouram revoltas como a Setembrada no Ceará onde caboclos pobres foram esmagados pelo mercenário frances Labatut. Em 1835 estouram duas revoltas que dizem muito sobre o Brasil: a Revolta dos Malês, na Bahia, uma revolta de escravos muçulmanos influenciados pelo movimento muçulmano africano de Osmã Dan Fodio, o segundo movimento foi a chamada Revolução Farroupilha, de estancieiros influenciados distantemente por ideais jacobinistas dos "sans culottes"(por isso "farrrapos"). O primeiro movimento foi massacrado, o segundo foi perdodado e indenizado.

A Cabanagem, revolta de pobres moradores de cabanas do Grão Pará acabou com a morte de 30 mil pessoas das quais só se lembra apelidos. Em 1839 os farroupilhas vão à Santa Catarina iniciar a República Juliana, tomam Laguna, Canabarro se torna presidente mas dura poucos meses e é retomada pelo Império. De ganho só o coração de Anita por Garibaldi. E a partir daí só derrotas: 18 de julho, Bento Manoel troca de novo de lado; 1840 . . . 3 de maio, derrota no rio Taquari; 11 de junho derrota no arroio Salso; 16 de julho, São José do Norte resiste e derrota o cerco farroupilha. Em Novembro Bento Gonçalves é derrotado em Viamão e morre Rossetti que escrevia o jornal "O Povo" dos farroupilhas. Em 1841 Garibaldi abandona estes fazendeiros escravistas. Caçapava, a 2a capital farroupilha é tomada(a 1a foi Piratini) pelos legalistas e os documentos se mudam em carros de boi para São Gabriel e de lá para Bagé e de lá para Piratini e de lá para São Gabriel de novo e de lá para Bagé, de novo, e de lá para Cacequi e de lá para o Alegrete (3a capital) e lá é convocada a Assembleia Constituinte da República Riograndense, algo jocoso e tosco para quem nem dominava mais nada! No meio dos debates o vice-presidente farrapo, Antônio Paulo da Fontoura, é morto com um tiro pela janela de um casarão que havia na rua Vasco Alves. Dizem que foi morto por um marido corno que foi guampeado pela esposa com o vice presidente. Mas as suspeitas recaíram em Bento Gonçalves que por isso duelou com Onofre Pires em Livramento, morrendo Onofre. Bento Manoel marcha com tropas legalistas cedidas por Caxias em direção à Alegrete e a capital farroupilha vira um amontoado de caixas em carros de boi escondidos em grotas na serra do Caverá.
O dia 20 de setembro de 1835 seria o início das operações militares dos farroupilhas. Queriam tomar Porto Alegre e derrubar o presidente da província (Fernandes Braga). A primeira ação já foi na noite do dia 19, perto da ponte da Azenha, nos arredores da POA da época (hoje Monumento da Ponte de Pedra__onde passava o navegável arroio Jacareí, hoje desviado, tornando-se o poluído Arroio Dilúvio).
Em Alegrete, Bento Manoel consegue uma Declaração Pacificadora, assinada por todos os vereadores, pedindo paz. E com 200 homens sai em nome da pacificação e sem aderir aos revoltosos. Perto da cidade de Cachoeira, Bento Manoel é acossado e foge perdendo até as botas! Em março de 1836 Bento Manoel desabafa assim à um amigo embaixo de um salso chorão às margens do rio Santa Maria: "infelizmente fui um dos formadores do movimento, me afasto porque está fugindo dos propósitos do começo, do jeito que está, vamos trocar um ditador por outro." Bento Manoel deu a primeira grande derrota aos farroupilhas às margens da Lagoa Funda em Passo do Rosário, 17 de março de 1836. Logo depois libertou Porto Alegre do cerco farroupilha, que o recebeu à badaladas de sinos das Igrejas. Em 11 de setembro de 1836 ocorreu a batalha nos campos de Bagé entre 560 legalistas comandados por João Nunes sa Silva Tavares contra 430 homens sob comando do farroupilha Neto. Neto vence porque Tavares perdeu o freio do cavalo, saiu campo afora e confundiu suas tropas. Após Neto proclama a República Riograndense. Isso tapa de nojo Bento Gonçalves que estava no cerco à Porto Alegre em Viamão. Bento Gonçalves logo é derrotado na Batalha do Fanfa, ilha do Fanfa no rio Jacuí. É capturado e enviado ao RJ. Enquanto isso Neto entrava no estado com tropas do Uruguaio Rivera que já tinha invadido o RS em 1828 na região das Missões e levado guaranis para a morte no massacre em Bella Unión (1832). Era no Uruguai que os farroupilhas vendiam escravos para pagar por pólvora. Bento Manoel troca de lado quando um amigo latifundiário é afastado do comando militar. Em 1837 Bento Gonçalves fugia da prisão no RJ, voltava com os italianos Garibaldi e Rossetti. No RJ teve o golpe da maioridade, D. Pedro II assumia.



Em 1844 a guerra já estava perdida pelos farrapos. Assim, Canabarro negociou o assassinato dos negros que lutaram pelos farroupilhas sob a mentira de que seriam libertos ao fim do conflito. O Corpo de Lanceiros Negros, no seu auge, chegou a ter 8 unidades montadas de 51 homens cada. Mas haviam muitos outros na infantaria de libertos. A ideia de libertar escravos para se unirem às tropas farroupilhas veio do Gen. Netto, um verdadeiro abolicionista, que não tinha suas ideias seguidas pelos outros generais, que muito depois do conflito ainda tinham escravos em suas estâncias. As tropas de escravos libertos foram formadas após a derrota na Batalha do Fanfa (mas a liberdade nunca veio, mas a traição farroupilha sim). Essas tropas Negras eram temidas pelos soldados imperiais e todas com respeito pelo seu heroísmo em batalha. Giuseppe Garibaldi, assim descreveu os Lanceiros Negros na sua biografia "Memórias de Giuseppe Garibaldi":
"""""“[São] soldados de uma disciplina espartana, que com seus rostos de azeviche e coragem inquebrantável, punham verdadeiro terror ao inimigo. (…) Nunca vi, em nenhuma parte, homens mais valentes, em cujas fileiras aprendi a desprezar o perigo e combater dignamente pela causa sagrada das nações.”"""""

DETALHE: a biografia de Garibaldi foi escrita em 1860, na Sicília, onde ele conheceu o escritor, Negro, francês, Alexandre Dumas, que em 1844 e 1845, havia lançado suas obras mais emblemáticas: "Os três mosqueteiros" e "O conde de Montecristo", respectivamente.

Em 14 de novembro de 1844, ocorre o infame Massacre de Porongos, a traição covarde dos farroupilhas aos seus heróis negros. Os mais de 1000 negros entre lanceiros e infantaria foram desarmados antes do massacre e dos que não foram mortos foram capturados para voltar a serem escravos no RJ. E assim abriu terreno para a rendição na paz do Ponche Verde, úmido de sangue negro. Os latifundiários revoltosos ganharam cargos vitalícios como membros do exército brasileiro. Bento Gonçalves morre em 1847 deixando 53 escravos em sua fazenda em Camaquã. Neto foi acusado de roubar dinheiro da República Riograndense. Foram 3 mil mortos, do lado farrapo quase todos mortos foram negros (iludidos sob promessa de liberdade) e mestiços pobres (os gaúchos) que lutavam por comida e cama.

Uma fala demonstra bem o que realmente motivou essa revolta que NUNCA FOI REVOLUÇÃO: Domingos José de Almeida, riquíssimo latifundiário, dono de charqueadas desabafa sobre o porque apoiou a revolta farroupilha depois de pagar impostos sobre o gado importado do Uruguai (quinto) e sobre o charque exportado (dízimo):

""""O governo central esquecia-se de que ele tinha de pagar os salários dos peões e outros funcionários e cuidar de cem escravos, vida dura!""""

: professor de História e Filosofia da rede pública estadual do RS.

📜Contos Históricos do RS: De paulista ganhando terras, estancieiros milicianos e até plantação de maconha (CONTO II)*

Reflexão do Dia... Semana Gaúcha!!
O QUE NÃO TE CONTAM!!

O Rio Grande do Sul a após matar seus índios: latifundiário nunca nos levou ao progresso!
Após as Guerras Guaraníticas o território missioneiro começou a ser ocupado por grandes lotes, sesmarias, doados pela coroa portuguesa à tropeiros paulistas e curitibanos que usavam mão de obra escrava ou semi escrava os indígenas Guaranis, minuanos e até Charruas sobreviventes (sendo que os charruas eram arredios e trabalhadores sazonais que por vezes levavam o gado das estâncias sesmeiras). As disputas territoriais com os espanhóis fez com que surgissem entrepostos/povoados militarizados. Os sesmeiros tratavam suas estâncias como bases militares, com posteiros nos limites sempre armados e patrões e peões sempre em patrulha. Mas a coroa portuguesa precisava de mais gente e, além de subsequente vinda de levas de escravospara atender os estancieiros, vieram colonos açorianos (do arquipelado de Açores no Atlântico Norte). Alguns chegaram em plena Guerra Guaranítica e não puderam seguir, por via fluvial, à região missioneira e se estabeleceram no chamado Porto de Dorneles (na verdade era Ornelas) nas margens do Lago Guaíba. Mas ali eram terras de um dos estancieiros milicianos, Jerônimo de Ornelas (depois ficou como Dorneles mesmo!) que mataram o líder dos açorianos sem terra que mesmo assim fundaram ali o vilarejo de Porto dos Casais, atual Porto Alegre. (Pois é, o primeiro sem terra no RS foi morto por um estancieiro Dorneles!). Até aí a única atividade econômica lucrativa no RS era a courama, ato de caçar bois selvagens que eram das criações indígenas e tirar o couro e abandonar a carcaça no campo! Logo a coroa portuguesa criou as chamadas Reais Feitorias do Linho-Cânhamo em Cânguçu e a outra no Faxinal do Courita (Hoje São Leopoldo). Plantaram campos de Cannabis para cordame de barcos e quem sabe outros usos...

Até as charqueadas, símbolo da riqueza advinda do latifúndio agropecuário veio pelas mãos de um cearense, José Pinto Martins, que montou a primeira charqueada para fins comerciais em 1780 na beira do arroio Pelotas. Em 1824, após a independência do Brasil e o fim das doações de sesmarias, vieram os primeiros imigrantes alemães ao RS. Estes ganhavam só 77hectares enquanto estancieiros ganhavam 3,6 milhas de cumprimento por uma de largura (1 milha terrestre equivale à 1,6km) e ainda mais outras em nome da mulher, cada parente agregado e até filho de colo. Colonos alemães ocuparam regiões de São Leopoldo até a Serra Gaúcha. Seguiram os açorianos (que já plantavam trigo) e iniciaram o plantio de diversificadas culturas que abasteciam tanto as cidades locais quando o resto do país. Enquanto nos latifundios da metade Sul do RS só escravos cuidavam de pomares e hortas, na metade Norte o desenvolvimento veio pela dinâmica do trabalho livre e produção para o consumo local. Em 1860 o RS já era chamado de "celeiro do Brasil" por culpa dos imigrantes açorianos, alemães, italianos, que também desmataram e mataram índios nas ocupações da serra gaúcha e catarinense com seus "bugreiros" caçadores dos últimos indígenas, os caiguangues ("povo do mato" em tupi. Mistura de etnias perseguidas nas outras regiões).

E assim o RS se constituía: assassinou seus índios, tinha uma metade norte multicultural pela imigração que trazia também dinamismo econômico enquanto a metade sul tinha um polo de riqueza no charque e grandes vazios populacionais (criou estas distâncias gigantes entre as cidades nas regiões do Pampa) que pelo trabalho escravo só reproduz até hoje seu autoritarismo e impõe sua visão de mundo via aculturação do MTG. Foram estes escravistas atrasados que fizeram a "Revolta Farroupilha". Por isso a metade norte os ignorou e ficou com o Império!

: professor de História e Filosofia da rede pública estadual do RS.

📜Contos históricos do Rio Grande do Sul: As origens do termo """gaúcho""" e nossas heranças indígenas. (Conto I)*

                                                        
Reflexão do Dia... Semana Gaúcha!
A História que NÃO TE CONTAM!

O primeiro registro de """gaúcho""" surgiu em Santa Fé (atual Argentina) em 1617, quando "moços perdidos", vestidos ao estilo dos charruas, com botas de garrão de potro, chiripá e poncho, e assaltavam as estâncias de gado. Cartas jesuítas de 1686 falam nos "vagos ou vagabundos" pilhando estâncias missioneiras. Em 1820, Saint-Hilaire estabeleceu as diferenças entre o "campeiro", que trabalhava nas estâncias, e o "gaúcho", pilhador, ladrão que não entendia o significado de pátria. Notem, todas essas alcunhas vieram de escritores que representavam o poder político e econômico colonialista. Sendo assim podemos, numa perspectiva dos oprimidos, afirmar que o gaúcho histórico negava a condição de domado pelos poderosos e ignorava acordos sociais. A etimologia da palavra vem do idioma dos índios andinos Mapuches, que quer dizer "homem solitário, solteiro". Ou seja, nada de parecido com a ideia de gaúcho que o MTG nos conta ou que o poder do latifúndio quer que saibamos, pois querem um gaúcho subserviente que odeia outros oprimidos como se ele o fosse parte dos opressores sem ser dono nem da terra debaixo das unhas ...

Gaúcho não existiria sem os indígenas locais!
Exatamente, o gaúcho moderno nasce ainda no século XIX como identidade que misturava o gaúcho histórico (sem pátria, sem patrões) com o campeiro subserviente ao fazendeiro dono de estância. Foi dos indígenas que herdamos o chimarrão, da cultura Guarani que tinha na erva mate uma planta sagrada que estes plantavam junto aos jesuítas quando estes foram arregimentados para as Reduções (Missões) jesuíticas. Já o andar a cavalo, chiripá, churrasco de espeto cravado ao chão e a bravura vem dos charruas que habitavam os campos que hoje são a metade sul do RS, o Uruguai e o norte da Argentina. Mas foi exatamente o latifúndio em forma de sesmarias que aniquilou os indígenas. A ocupação do sul pelos portugueses inicia com a criação na Colônia do Sacramento (margem leste do Rio da Prata no atual Uruguai) em 1580. Quando da sua troca pelos Sete Povos Orientais (Sete Povos das Missões) em 1750, com o Tratado de Madrid, os portugueses e espanhóis iniciaram uma Guerra contra os Guaranis que resistiram. Seu cacique Sepé Tiarajú tombou na batalha do Caiboaté (interior do atual munícipio de São Gabriel) no dia 7 de fevereiro de 1756 (no local de sua morte, em 1961 se construiu uma cruz de concreto de 5 metros de altura) Mas antes gritou aos invasores: "esta terra tem dono!"

Os charruas foram nunca foram arregimentados pelos jesuítas como os Guaranis ou fizeram acordos com portugueses como os minuanos que habitavam a "boca do inferno" (ligação entre o Oceano Atlântico e a Lagoa dos Patos, atual cidadede Rio Grande). Os charruas conheceram o cavalo via cavalos selvagens introduzidos pelos colonizadores. Lutavam com bravura e nunca se adequavam aos europeus. Nunca foram escravizados. Foram caçados com brutalidade por portugueses e espanhóis. O gen. Rivera oferecia dinheiro a quem entregasse um par de orelhas e o saco escrotal de índio charrua morto. Por fim ele os traiu sob promessa de paz e os aniquilou. Os últimos 3 charruas (um homem, uma mulher e uma criança) foram enviados à França em 1831 para serem atração de um zoológico humano. Dizem que um dia o charrua os viu tentando domar um cavalo extremamente arredio e se aproximou, ele, com calma, alisou o animal e em minutos montou-o sem rédeas. Espantados, os franceses perguntam como ele conseguiu domar o animal. Ao que o charrua responde: "eu não o domei, ele me escolheu para monta-lo!"

Estudos de 2001 da geneticista Maria Cátira Bortolini revelou que ainda temos presença da genética Charrua nos habitantes da região de fronteira. No sangue a resistência charrua que só falta descobrir que hoje está sendo enganado por uma versão de História contada pelo MTG que, para proteger a imagética do latifúndio, esconde a barbárie por detrás da ocupação deste território. Esconde a limpeza étnica dos indígenas pelas mãos do mesmo poder do estancieiro que hoje o quer de cócoras, sem revolta com a exploração para mais facilmente ser dominado.
: Professor de História e Filosofia da rede pública estadual do RS.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Guerra Farroupilha: História e Mito

MÁRIO MAESTRI
Historiador e professor universitário (UPF)


1. A revolta dos grandes fazendeiros

Um gaudério devidamente maneado pelo mito
No extremo sul do Brasil, apenas os festejos da Semana da Pátria, com o apogeu no 7 de Setembro, data da ruptura com ex-colônia com Portugal, voltam para a garagem das efemérides anuais, aquecem-se os motores para a largada da Semana Farroupilha, com linha de chegada em 20 de Setembro, data do ingresso dos rebeldes farroupilhas em Porto Alegre, em 1835, inicio da ruptura da então província sulina com o resto do país.

Através do Rio Grande do Sul, como pequenos robôs esquizofrênicos, os estudantes nas escolas públicas e particulares agitam primeiro as cores verde e amarela das bandeirolas do unitarismo nacional, inaugurado em 1822, para saudarem dias mais tarde, com igual ânimo patriótico, o verde-amarelo-vermelho do separatismo sul-rio-grandense de 35!

Nenhum estado brasileiro celebra data cívica regional com tamanha magnificência. Do Mampituba ao Chuí, do rio Uruguai ao oceano Atlântico, nos pampas, na Serra, no Planalto, na Depressão Central e no Litoral, organizam-se desfiles, celebrações, festas. A mídia comenta fartamente os fatos do passado e as comemorações em desenvolvimento. De certo modo, a Semana Farroupilha está para o gaúcho como o Carnaval está para o carioca.

A Semana Farroupilha é sobretudo festa pública. Desde que foi oficializada, em setembro de 1964, no início do Regime Militar [1964-1984], o governo estadual sul-rio-grandense abraçou fortemente as comemorações, verdadeira tradição nas escolas públicas estaduais e municipais. Nesse sentido, a passada administração petista [1999-2002] apenas vergou-se à tradição nascida há mais de 30 anos, ao manter retoques a festa patriótica regional.

Os com e os sem

A celebração privada da independência farroupilha é também magnífica e portentosa. Almoços, jantares, bailes, shows, conferências, acampamentos, palestras, exposições, etc. são realizados na capital e no interior, sobretudo por iniciativa do Movimento Tradicionalista Gaúcho – MTG –, através dos milhares de Centros de Tradição Gaúcha – CTG – esparramados através do Estado.

A Semana Farroupilha é unanimidade regional, congregando cidadãos de todas as regiões, origens, classes sociais e situações. Na roda de chimarrão, reúnem-se o ítalo, o teuto, o nipo, o luso, o afro-descendentes. Achegam-se à chama crioula o bem empregado, o mal-empregado e o desempregado; o esquerdista, o centrista e o direitistas; os com muito, os com pouco, os sem nada.

Diante da pira cívica regional e da celebração das raízes e dos princípios que seriam as mais lídimas expressões da Revolta Farroupilha, realiza-se congregação suprapolítica, supra-racial e supra-social que, no Brasil, repete-se apenas quando a Seleção Nacional entra em campo vestindo a bandeira canarinho!

Travada sobretudo no meridião do Rio Grande, a Guerra Farroupilha constituiu apenas um entre os múltiplos movimentos armados liberais, federalistas e separatistas terçados pelas elites proprietárias das diversas regiões do Brasil, inicialmente, contra o regime colonial lusitano e, após 1822, contra o Estado imperial brasileiro.

Num desses paradoxos da história, a guerra farroupilha contra o regime imperial foi movimento elitista, sem nenhum conteúdo social, promovido sobretudo pelos grandes criadores sulinos, que sequer contou com a unanimidade dos proprietários regionais. Não foi movimento de todo os habitantes sulinos, nem de todo o Rio Grande da época.

2. 1822: a Independência dos Escravistas

A América lusitana foi mosaico de regiões semi‑autônomas, de frente para a Europa e para a África, de costas voltadas umas às outras. As diversas colônias luso-brasileiras produziam regionalmente os produtos que exportavam pelos portos da costa, por onde chegavam os manufaturados e os africanos duramente escravizados. Os mercados internos quase inexistiam.

Os senhores luso-brasileiros controlavam o essencial do poder regional e viviam em situação de associação subordinada às elites portuguesas metropolitanas. Eles sentiam-se membros do império lusitano, possuíam fortes laços de identidade regional e desconheciam sentimentos ‘nacionais’ brasileiros efetivos.

Quando da crise colonial, as elites luso-brasileiras mobilizaram-se por independência restrita aos limites objetivos das regiões sócio-econômicas em que viviam e que controlavam. Então, o Brasil era uma entidade essencialmente administrativa. O Estado-nação brasileiro foi sobretudo produto do ciclo nacional-industrialista dos anos 1930. É, portanto, realidade muito recente.

Tendências centrífugas

Nas colônias luso-americanas atuavam as mesmas forças centrífugas que explodiram a América espanhola em uma constelação de repúblicas independentes. Porém, as diversas províncias luso-brasileiras emergiram da Independência coeridas em um Estado monárquico, centralizado, autoritário.

Quando da crise colonial, as classes proprietárias regionais desejavam pôr fim ao governo autocrático lusitano, nacionalizar o comércio monopolizado pelos portugueses, resistir às pressões inglesas pelo fim do tráfico transatlântico de cativos. Elas defendiam soluções federalistas, separatistas, monárquicas e republicanas.

No Norte, no Nordeste, no Centro-Sul e no Sul eram muito fortes as tendências republicanas e independistas. Tudo sugeria que o Reino do Brasil explodiria em diversas repúblicas, ao igual ao ocorrido com os vice-reinados espanhóis, através das possessões hispano-americanas.

Porém, um grande problema angustiava os grandes senhores de todo o Brasil. Como realizar a independência sem comprometer a ordem escravista, base da produção e da sociedade em todas províncias? Fortes choques militares colocariam em perigo a submissão dos cativos e a manutenção do tráfico de trabalhadores escravizados.

Independência negreira

Os senhores sabiam que a guerra levaria ao alistamento e à fuga de cativos, como ocorrera quando da luta contra os holandeses. Havia também o exemplo recente do Haiti, onde os cativos, sublevados, haviam fundado um Estado negro livre da escravidão. Os Estados luso-brasileiros que abolissem a escravidão acolheriam cativos fugidos. As pequenas nações negreiras vergariam-se ao abolicionismo britânico do tráfico.

O Estado monárquico, autoritário e centralizador foi partejado e embalado pelos interesses negreiros. A Independência deu‑se sob a batuta conservadora dos grandes proprietários e comerciantes de trabalhadores escravizados. Os ideários republicano, separatista e federalista – fortes sobretudo entre as fracas classes médias regionais – foram reprimidos.

A independência do Brasil foi a mais conservadora das Américas. Os senhores brasileiros romperam com a coroa portuguesa e com o absolutismo e entronizavam o autoritário herdeiro do reino lusitano. Cortavam as amarras com Portugal e asseguravam os interesses portugueses. Mantiveram-se unidos sobretudo para garantir o abastecimento farto e a exploração dura dos trabalhadores escravizados.

As forças liberais e federalistas regionais curvaram-se à proposta monárquica e unitarista sob a condição que a autonomia provincial fosse discutida quando de Assembléia Constituinte, convocada antes mesmo da Independência. Em novembro de 1823, dom Pedro, digno filho dos Braganças, pôs fim ao regime constitucional e às esperanças federalistas regionais, ao inaugural o primeiro golpe de Estado militar do Brasil.

A ferro e fogo

O golpe anti-constitucional de 1823, e a constituição autoritária imposta em 1824, no contexto de profunda crise da economia escravista exportadora da época, determinaram período de forte instabilidade político-social, durante o qual as facções liberais das elites regionais mobilizaram-se pela independência ou por maior autonomia regional.

Em 1824, a primeira revolta provincial contra o golpismo bragantino, promovida sobretudo pelos liberais e republicanos pernambucanos – Confederação do Equador –, foi sufocado em um verdadeiro banho de sangue. Os líderes liberais foram executados sem o julgamento garantido pela própria Constituição autoritária outorgada por dom Pedro.

A concentração despótica dos poderes e recursos provinciais pelo governo central, em contexto de decadência da economia escravista, levou à deposição de dom Pedro, em 7 de abril de 1831, pelos farroupilhas, como eram chamados os liberais radicais de todas as províncias. Porém, o poder terminou deslizando para as mãos dos liberais conservadores, reais detentores do poder econômico, ou seja, de legiões de trabalhadores escravizados e de imensas parcelas de terras.

Em 7 de abril de 1831, com a partida de dom Pedro e com o fim do controle da administração e do exército por dignitários e oficiais próximos do príncipe português, concluía-se finalmente a independência política do Brasil. Então, o poder central passou ao controle dos representantes dos grandes escravistas, sobretudo do Rio de Janeiro.

3. Revoltas farroupilhas no Brasil e no RS


Apesar de ter debilitado as oposições provinciais, as limitadas concessões regenciais às reivindicações federalistas e liberais lançaram o Império em profunda crise. A negativa da Regência de conceder a monarquia ou a república federativa quase pôs fim à frágil unidade nacional brasileira, pactuada havia dez anos.

Através de todo o Brasil, um rosário de movimentos liberais federalistas e liberais separatistas convulsionou a Regência e o início do II Império: Ceará (1831-2); Pernambuco (1831-5); Minas Gerais (1833-5); Bahia (1837-8); Grão-Pará (1835-40), Maranhão (1838-41); Rio Grande do Sul (1835-45).

O centralismo imperial teria sido possivelmente vergado se cabanos, balaios, sabinos, praieiros, sul-rio-grandense etc. tivessem coordenado suas lutas. Isolados, os movimentos farroupilhas regionais foram esmagados, sucessivamente, um após o outro, pelo poder central.

Liberais radicais

É um acaso histórico que apenas os farroupilhas sulinos sejam conhecidos pela denominação comum a todos os liberais radicais de então. É erro deduzir romanticamente o termo farroupilha/farrapo dos uniformes em frangalhos dos últimos combatentes sulinos.

Os movimentos liberais regenciais foram impulsionados pelas elites dissidentes regionais. No Maranhão (Balaiada) e no Grão-Pará (Cabanagem), as revoltas liberais assumiram claro caráter social com o ingresso na pugna de pobres, caboclos, cativos, quilombolas, etc. O que levou as elites regionais liberais a abandonarem a luta, submetendo-se ao tacão imperial.

Os liberais sulinos reivindicavam a autonomia federativa, e, a seguir, a república separatista. Sobretudo, o movimento interpretou as reivindicações dos criadores do meridião, então hegemônicos. A longevidade da revolta deveu-se também ao fato de as elites sulinas manterem as classes subalternas regionais à margem do movimento.

Em geral, os comerciantes, a população urbana, os colonos alemães, etc. optaram pelo Império, levando a que os farrapos perdessem rapidamente o controle das grandes cidades e, sobretudo, do litoral. Porto Alegre resistiu por três vezes ao cerco farroupilha. O programa liberal-latifundiário farroupilha pouco propunha para esses setores sociais.

A questão oculta

Em 1835, no início da revolta, os farroupilhas controlaram quase toda a província. Em 1845, ao concluir-se o movimento, encontravam-se arrinconados nos pampas da fronteira sul. Tal fato também se deveu à defecção dos grandes comerciantes e charqueadores escravistas, temerosos que a vitória do movimento separatista comprometesse o tráfico internacional de trabalhadores escravizados.

Os farroupilhas jamais foram revolucionários ou reformistas sociais e políticos. Entretanto, continua-se a insistir sobre o pretenso caráter revolucionário do movimento sobretudo porque boa parte das tropas farrapas foram formadas por peões pobres e ex-cativos.

Os senhores farroupilhas e imperialistas preferiam que outros lutassem e morressem por seus ideais. Muito logo, os exércitos republicanos e monarquistas formaram-se com contingentes de peões, nativos e cativos africanos e afro-descendentes libertos.

Quando da guerra, boa parte dos gaúchos livres eram descendentes de nativos guaranis e pampianos, que haviam perdido, para os grandes latifundiários, no século anterior, suas terras ancestrais. Eles acompanhavam seus caudilhos nos combates, como faziam-no tradicionalmente nas lides dos campos.

Churrasco e saque

Não foi o ideal liberal-republicano que levou o gaúcho pobre à guerra. Quando os caudilhos trocavam de lado, sem pudor, os peões faziam o mesmo. Bento Manuel mudou de bandeira diversas vezes, sempre seguido por sua gauchada. Para o peão, o ideário farroupilha significava sobretudo soldo, churrasco e saque.

Quando chamado às armas, o homem livre tinha o direito de substituir-se. Em geral, alforriava um cativo para ocupar seu posto no combate. Arrolavam-se nas tropas republicanas cativos dos inimigos da República e compravam-se trabalhadores escravizados de cidadãos da república para preencher os vazios das tropas.

Os soldados negros que combateram faziam-no obrigados, por preferirem a vida militar à escravidão, por sonharem com liberdade após a luta, jamais obtida. Não houve democracia racial nas tropas farrapas. Soldados negros e brancos marchavam, comiam, dormiam e morriam separados. Os oficiais dos combatentes negros eram brancos.

A Constituição farroupilha dizia: "A República do Rio Grande é a associação política de todos os cidadãos rio-grandenses". Ou seja, dos "homens livres nascidos no território da República". A República erguia-se sobre a mesma pedra angular do Império: o latifúndio e a escravatura. O índio e o cativo não eram e não seriam cidadãos.

República dos senhores

Os principais chefes farrapos eram ferrenhos escravizadores. Ao ser enviado preso para a Corte, Bento Gonçalves da Silva levou consigo um negro doméstico, para servi-lo. Ao morrer, legou terras, gado e meia centena de trabalhadores escravizados, numa época em que um cativo valia um bom patrimônio.

Os farroupilhas jamais acenaram com a distribuição de terras, aos gaúchos, e com o fim do cativeiro, aos cativos, como fizera Artigas, na Banda Oriental. Os farroupilhas sequer propuseram o fim do tráfico transatlântico de homens. Nas filas farroupilhas, as veleidades emancipacionistas foram facilmente silenciadas e abafadas. Sustentada sobretudo com o sangue do peão sem terra e do negro liberto, a revolta era das elites, para as elites.

Recorda-se sempre que, para abater as armas, os farrapos exigiram, insistentemente, que o Império respeitasse a liberdade dos soldados negros. Nos fatos, temiam que se formasse uma guerrilha negra na província, ou que os combatentes negros homiziassem-se no Uruguai, caso temessem a reescravização. E, nos últimos anos da guerra farrapa, já se pensava na intervenção na Banda Oriental ...

A infâmia de Porongos

Na madrugada de 14 de novembro de 1844, em conluio com Caxias, chefe das forças imperial, David Canabarro, principal general farrapo, entregou os soldados farroupilhas negros ao inimigo, desarmados. No serro de Porongos, foi dizimada a infantaria negra, acelerando a paz entre os amos farroupilhas e imperialistas.

A rendição de Poncho Verde foi acordo de cavalheiros entre senhores. Não havia contradições essenciais entre os chefes imperialistas e republicanos. Os fazendeiros farroupilhas não haviam conseguido impor a separação da província, o Império não manteria o controle sobre ela sem a colaboração dos grandes criadores. Muito logo, os ex-farrapos marchariam, sem pejo, sob a bandeira imperial contra o Uruguai e a Argentina, em defesa da extra-territoriedade de suas imensas fazendas nos departamentos setentrionais da Banda Oriental.

4. A Invenção da Tradição – Império e República Velha

Nas décadas seguintes ao fim da guerra separatista, facções das elites sul-rio-grandenses apropriaram-se da memória farroupilha, adaptando-a aos seus objetivos. Esse processo foi permitido pelo conteúdo nulamente social daquele movimento, onde as classes subalternizadas jamais intervieram em forma autônoma.

No Segundo Reinado [1840-1889], o desenvolvimento da cafeicultura, no Centro Sul, relançou, no Sul, a criação de mulas para o transporte e a produção de charque para os trabalhadores escravizados. A boa conjuntura permitiu às elites pastoris retomaram o poder político regional, através do Partido Liberal, incontestavelmente hegemônico no Rio Grande, de 1866 a 1889.

O Partido Liberal expressava os criadores do meridião que haviam dirigido a revolta de 1835. Devido à importância dos cativos nas grandes fazendas e charqueadas, os liberais sul-rio-grandenses defendiam a escravidão, ao contrário do que faziam no resto do país, onde apoiavam em geral o emancipacionismo. Discutindo a sorte do cativeiro, o grande tribuno liberal Gaspar Silveira Martins declararia amar “mais sua pátria do que o negro”.

Os liberais reivindicaram facilmente a memória farroupilha, que permaneceu propriedade das classes pastoris do meridião, como no passado. Porém, os liberais, agora monarquistas, reivindicando apenas apenas a descentralização dos poderes imperiais, abandonavam duas grandes bandeiras farroupilhas – a separação e a república.

Urbanos e abolicionistas


Em 1878, em Porto Alegre, fundou-se o Clube Republicano “Bento Gonçalves”. A seguir, fez-se o mesmo em outras cidades do interior. Saídos das frágeis classes médias, os primeiros neo-republicanos sulinos desenvolveram ativa agitação abolicionista, com poucos resultados, em província dominada pelos grandes criadores e charqueadores escravistas.

Entretanto, agora, por primeira vez, a memória farroupilha era apropriada por grupos sociais, política e geograficamente estranhos ao movimento de 1835. O mundo urbano e as classes médias jamais haviam sido farroupilhas. Os líderes farrapos abominavam a libertação dos trabalhadores escravizados. Bento Gonçalves morrera como grande escravista. Acelerava-se a manipulação da memória farroupilha.

Em fevereiro de 1882, em Porto Alegre, meia centena de delegados elegeram a comissão organizadora do Partido Republicano Rio-grandense. Logo, o PRR foi controlado por jovens filhos de ricas famílias de criadores, sobretudo do centro e do norte do RS, chegados em boa parte da escola de Direito de São Paulo. Eles defendiam modernização conservadora do Rio Grande.

No início de 1880, em São Paulo, alguns desses universitários – Borges de Medeiros, Júlio de Castilhos, Pinheiro Machado, etc. – fundaram o Clube 20 de Setembro, para celebrar o republicanismo sulino. Em 1882, a pedido dos seus pares republicanos, o jovem Assis Brasil escreveu sua História da república rio-grandense.

A pátria pequena

Sem ser separatista, o PRR desenvolveu virulenta pregação republicana e federalista. Os jovens jacobinos defendiam a autonomia regional e a diversificação produtiva, para superar a estagnação da economia pastoril-charqueadora. A República Farrapa tornava-se referência da propaganda dos positivistas radicais, adeptos das “pequenas pátrias” de Auguste Comte.

Momentos antes da República, o jovem líder republicano Júlio de Castilhos propôs a celebração do 20 de Setembro. Com o golpe militar anti-monárquico de 15 de novembro de 1889, apoiado primeiro pelo marechal Deodoro da Fonseca, a seguir por Floriano Peixoto, os republicanos sulinos empalmaram o poder regional, institucionalizando a leitura positivistas do passado farroupilha.

Em 14 de julho de 1891, promulgava-se a constituição republicana sulina, cópia quase literal do anteprojeto escrito por Júlio de Castilhos. A primeira constituição sul-rio-grandense determinava que as “insígnias oficiais do Estado” seriam as do "pavilhão tricolor criado pelos revolucionários [...] de 1835”.

Para manterem-se no poder e implementar o novo projeto, os republicanos positivistas vergaram as forças do meridião pastoril, na mais sangrenta guerra civil conhecida Sul. A revolta farrapa foi rusga de namorados, ao lado da carnificina de 1893-5. A Revolução Federalista ceifou mais de dez mil vidas, em uma população de um milhão de habitantes.

Somos todos farrapos

Durante o confronto, os fazendeiros do meridião, herdeiros sociais, políticos e territoriais dos farroupilhas liberais, reunidos sob a nova bandeira federalista, foram acusados de monarquistas e de separatistas pelos castilhistas, republicanos e federalistas extremados. Reinterpretada, a memória farroupilha escorregava das mãos dos grandes fazendeiros para as dos jacobinos do PRR.

Os republicanos positivistas assumiam a herança simbólica da revolta latifundiária-pastoril, que vestiam com nova roupagem. Enfatizando o autonomismo e o republicanismo farrapos, alicerçavam simbolicamente o republicanismo federalista radical defendido pelo PRR através de toda a República Velha [1889-1930].

Na nova versão, a memória farroupilha passava a ser herança de todo sulino, não importando sua origem étnica – negro ou branco –; sua origem social – pobre ou rico –; sua região de nascimento – Campanha, Litoral, Serra, etc. Manipulava-se a história, apresentando o movimento como de toda a população do Rio Grande, contra o Estado central.

O mito da unidade da população, no passado, na luta por ideal único republicano e autonomista, fortalecia a proposta de comunhão de interesses do sul-rio-grandense, no presente, pilastra da ordem republicana autoritária que regeu o Rio Grande até a chamada Revolução de 1930. Nesse processo, a história desvanecia por detrás do mito.

5. A invenção da tradição: o Movimento Tradicionalista Gaúcho

Na República Velha [1889-1930], o Rio Grande foi talvez o Estado mais cioso de sua autonomia federal, assentada em uma economia em boa parte voltada para o mercado interno sulino. Nesses anos, o RS foi o único Estado que jamais conheceu intervenção federal. A independência sul-rio-grandense seria vergada apenas em 1930, por Getúlio Vargas, gaúcho e ex-militante, desde a juventude, do PRR.

A chamada Revolução de 1930 e, sobretudo o golpe do Estado Novo, de fins de 1937, promoveram a propagação autoritária do sentimento de brasilidade. Com ele, buscava-se consolidar cultural e ideologicamente a formação em curso de mercado e de indústria nacionais centrados no eixo Rio-São Paulo. Para tal, foram fortemente reprimidos os sentimentos regionalistas.

Durante a “Proclamação ao Povo Brasileiro”, de 10 de novembro de 1937, Vargas denunciou o “caudilhismo regional” que, segundo o ditador, ameaçava a unidade nacional brasileira. Em gesto simbólico, mandou queimar publicamente as bandeiras regionais, ardendo, entre elas, o estandarte criado por seus antigos mestres, Castilhos e Borges, em 1891!

A seguir, o Estado Novo promoveu a invenção de cultura nacional, como substrato da identidade nacional proposta e imposta. Para isso, o getulismo apoiou fortemente a seleção futebolística nacional; difundiu o carnaval e o samba cariocas; financiou o surgimento de arquitetura moderna brasileira etc.

Brasileiros para o Brasil

Criaram-se e adaptaram-se órgãos e associações destinados a divulgação-imposição do sentimento de amor à Pátria e à Nação, entre eles, a Liga de Defesa Nacional; a Juventude Brasileira; o Departamento de Imprensa e Propaganda; a Hora do Brasil; a Rádio Nacional, etc. As iniciativas contaram com o apoio de grande parte da intelectualidade brasileira e, logicamente, sul-rio-grandense.

A campanha de nacionalização reprimiu os sentimentos regionalistas fortalecidos na República Velha. O separatismo farroupilha passou a ser execrado. Nesses anos, historiadores do Instituto Histórico e Geográfico do RS negaram, de mãos juntas, contra todas as evidências históricas, o independismo farrapo. O mesmo seria também feito, após 1964, por historiadores acadêmicos.

A dominância das relações econômico-sociais nacionais sobre as regionais exigia que o sul-rio-grandense deixasse de ser sobretudo gaúcho, para passar a ser essencialmente brasileiro. Ainda que, em âmbito local, a identidade gaúcha – leitura romantizada da vida pastoril – mantivesse seu caráter dominante sobre as outras identidades sulinas possíveis – escrava, imigrante, operária, etc.

Durante o Estado Novo, a posição econômica e política relativa do Rio Grande recuou em relação ao Rio de Janeiro e São Paulo, que se industrializaram aceleradamente. As elites sulinas aceitaram a subordinação imposta, preocupadas em manter a dominância regional. A industria sulina cresceu em ritmos menores do que a de São Paulo e Rio de Janeiro e se manteve a importância relativa da produção rural e pastoril sulina.

O Novo Tradicionalismo

Com a derrota do nazi-fascismo e a redemocratização conservadora de 1945, a perda de importância relativa do Rio Grande ensejou movimentos culturais regionalistas que reafirmavam a especificidade sulina, em oposição à proposta nacional-centalizador getulista que marginalizara relativamente o Estado sulino.

Em vez de apontarem para o rompimento com um passado que determinara, em última instância, esse atraso, esses movimentos reivindicaram o passado rural-latifundiário arcaico, apresentando-o em forma utópica e idealizada como espécie de Era de Ouro pampeana perdida.

Em 1947, em Porto Alegre, alguns filhos de proprietários rurais fundam movimento regionalista que, apoiados no mito da democracia pastoril e do caráter libertário farroupilha, propunha o culto da ideologia latifundiária-pastoril. O movimento expressava também a rejeição ao plebeísmo democratizante da sociedade urbana-industrial e o fortalecimento político e social das classes trabalhadoras industriais sulinas.

Essa releitura do passado retomava a visão pastoril liberal-federalista do movimento farroupilha, repudiando a interpretação urbana-industrialista do castilhismo. A Guerra Farroupilha surgia apenas como uma expressão, entre outras, da excelência da sociedade pastoril-latifundiária, apontada como síntese da essência do povo gaúcho.

O mito da unidade

Também em 1947, Érico Veríssimo começou a escrever O Continente, primeira parte de sua trilogia regionalista, onde mitifica igualmente a história gaúcha, realizando o elogio póstumo da economia pastoril-latifundiária. Também nesse romance, é mínimo o espaço dedicado às classes subalternizadas no passado – peões pobres e trabalhadores escravizados.

O Tradicionalismo organizou-se em torno dos Centro de Tradições Gaúchas – CTG –, espécie de ludização da fazenda pastoril, onde peões confraternizam sob a presidência do patrão. Para não perder sua funcionalidade, essa interpretação do passado ignorou o papel do trabalhador escravizado no passado sulino, em geral, e na grande fazenda pastoril, em especial.

O Tradicionalismo surgia, em 1947, em plena Guerra Fria, em época em que as classes operárias gaúcha e brasileira começavam a expressar-se no cenário político, em forma tendencialmente autonômica. Ou seja, quando se materializavam nas esfera das relações políticas e das representações culturais os antagonismos sociais profundos que haviam dividido, desde sempre, o Rio Grande.

No contexto de uma sociedade crescentemente industrial, o novo regionalismo construía discurso ideológico que tentava abafar a consciência sobre as contradições sociais, através do mito do destino comum de explorados e exploradores, construído em torno do culto à propriedade pastoril latifundiária e de seu proprietário – o patrão.

Então já hegemônico, o capital industrial sulino apoiou o movimento, solidário com sua essência conservadora, já que a debilidade econômica do latifúndio descartava-o como força política concorrente. Em setembro de 1964, a Assembléia Legislativa institucionalizou a Semana Farroupilha, comemorada de 14 a 20 de setembro, através do Rio Grande do Sul.

6. O Mito Fundador – A Democracia Pastoril

Em 1923, a derrota da insurreição armada assisista assinalou a definitiva submissão política do campo pela cidade no Rio Grande do Sul. Em 1927, desde a ótica do latifúndio pastoril, Salis Jorge Goulart publicou A formação do Rio Grande do Sul, tida como a primeira tentativa de análise estrutural da história sulina.

Em uma época em que a produção colonial-camponesa do norte gaúcho já superava a produção latifundiária-pastoril do meridião, o autor baseava sua explicação da formação sulina nos mitos “da democracia pastoril” e da “produção sem trabalho”, aos quais também procurou dar uma base sociológica sistemática.

Para o jovem ideólogo do latifúndio, o processo de formação sulino diferenciara-se do resto do Brasil que, desde o berço, apoiara-se na despótica exploração do índio e do negro escravizados. Para ele, ao contrário, a formação social sulina teria nascido e se desenvolvido à margem das diferenças e contrdições de classes.

No Sul, a “influência geográfica” das “vastas extensões territoriais” e a “grande quantidade de alimentos fornecidos pelos rebanhos” haviam gerado o latifúndio pastoril, “célula social” do “organismo coletivo” rio-grandense, que se apoiara essencialmente no trabalho solidário e não-compulsório.

Meu patrão, meu amigo

Nessa estranha “terra sem males”, onde o alimento surgia da terra sem exigir o suor humano, com “a subsistência garantida em qualquer parte”, o “trabalhador” jamais se empregara sob o chicote da necessidade, servindo “espontaneamente” ao “patrão, de quem era “mais um amigo do que um subordinado”.

Portanto, tratava-se de uma sociedade nascida sob verdadeira “indiferenciação de classes”, formada essencialmente por “uma classe única, a dos gaúchos” que, fossem “ricos ou pobres”, igualavam-se sempre “pelo garbo dos gestos, pelo amor da guerra, pelo gosto das aventuras”.

Gaúchos preocupados apenas com a “galhardia do pingo, felizes na roda amistosa do chimarrão, entre relatos guerreiros ou façanhas dos dias de rodeio”. Gaúchos que possuiriam, “todos, humildes e potentados, os mesmo hábitos, os mesmos costumes, os mesmos ideais”.

Um mundo em que “patrões e empregados alimentavam-se com o mesmo churrasco e o mesmo chimarrão, cavalgavam os mesmo animais e juntos entregavam-se às mesma fainas dos campos, às mais velozes correrias [...].” Sociedade onde o “empregado” “não criava interesses opostos aos do patrão”, identificava-se “com ele”, tornava-se “seu amigo e, por assim dizer, seu igual.”

Poucos e tarde

Era clara a contradição posta à proposta da democracia pastoril pela importância do cativo no Sul. Na solução do paradoxo que se elevava entre o mito e a história, Salis Goulart simplesmente negou a importante introdução de cativos desde os primórdios sulinos e sua contribuição às atividades criatórias.

Segundo ele, a origem singular do Rio Grande deveria-se ao “pouco” “contingente de escravos” e ao fato de que o “espírito democrático” sulino “se formara antes da grande introdução do elemento negro”, que teria conhecido no Sul condições de vida superiores às do resto do Brasil.

“Julgamos que o nosso espírito democrático já se formara antes da grande introdução do elemento negro. Esse ponto de vista explica o fato de serem, como relatam os historiadores, os escravos melhor tratados aqui [...].” Para ele, o Rio Grande, em geral, e a fazenda pastoril, em especial, seriam sobretudo produto do trabalho livre.

Salis Goulart não inventou nada. No preciso momento em que se consolidava a superação do latifúndio pastoril pela produção colonial e urbana, sistematizou, com inteligência e criatividade, os mitos já existentes da “democracia pastoril” e da “produção pastoril sem trabalho”.

A invenção da memória

As romantizações históricas não são simples resultados de uma conspiração consciente de intelectuais com o objetivo de escamotear as contradições étnico-sociais do passado, para melhor domesticar as classes subalternas do presente. Não são meras estórias construídas por imaginações fantasiosas a partir de elucubrações arbitrárias.

Não é condição suficiente à universalização das apologias que sejam profusamente difundidas pelas elites. Em geral, elas são produtos de uma longa elaboração coletiva das classes que as patrocinam, através da potenciação-generalização de fatos circunstanciais, da ocultação-distorção de fenômenos essenciais, da projeção no passado de expectativas sociais jamais cumpridas.

A apologia pastoril da identidade entre fazendeiros e trabalhadores apoiava-se na ausência de movimentos multitudinários de luta de peões pela terra. No século 19, para estabelecer-se como criador, o gaúcho pobre necessitava de talvez não menos de mil hectares. Realidade que dificultava, naquele então, objetivamente, a luta pela divisão dos latifúndios.

Fenômeno que não impediu o confronto social incessante, expresso no abate selvagem de gado, pelo gaúcho, pela carne e pelo couro, e na sua luta por um naco de terra onde levantar seu rancho. A ojeriza do latifundiário ao sem-terra, nos dias de hoje, repete o horror, no passado, de seu ancestral, do peão em busca de um lugar onde levantar um rancho.

Luta social no campo

As apologias pastoris sobre as condições idílicas de vida dos trabalhadores escravizados sulinos extremam e generalizam para todo o Rio Grande as relativamente melhores condições de trabalho dos cativos campeiros, em relação aos negros das charqueadas, das olariais, dos cortumes, das plantações, no Sul e no resto do Brasil.

A produção pastoril era atividade extensiva semi-natural, que se baseava nas condições naturais das fazendas – pastagens, aguadas etc. – e no esforço humano. Realidade que restringia, e não abolia, a produção crescente de lucro monetário através da intensificação de extração de trabalho excedente. Para o peão e o cativo, o trabalho pastoril era um jogo, apenas se comparado ao trabalho duro na charqueada e na plantação.

Porém, o trabalho escravizado negava, essencialmente, as representações de uma sociedade pastoril edênica. Assim sendo, em verdadeira limpeza étnica, as narrativas apologéticas simplesmente ignoraram, como o fez Salis Goulart, o papel sistêmico do cativo campeiro nas ricas fazendas criatórias.

A Idade de Ouro

As representações sobre a fazenda pastoril no passado sulino foram levantadas sobretudo através da generalização das condições de trabalho das pequenas fazendas de subsistência, exploradas pelo fazendeiro e seus familiares, já que incapaz de comprar um cativo ou assalariar um peão.

A facilidade com que as narrativas sobre a democracia pastoril universalizaram-se no Rio Grande atual, processo que se registra sobretudo através da grande adesão popular aos relatos nativistas, deve-se igualmente a fenômenos recentes.

Estressadas pelas contradições da sociedade capitalista, em forma inconsciente, os segmentos sociais populares e médios, sem forças e canais para concretizarem suas expectativas no presente, voltam-se para o passado, recriando uma imaginária idade de ouro, solidária e fraterna, onde o trabalho alienado era aventura lúdica e criativa.

Manipuladas pela elites, as mitificações do passado assumem sentido social negativo ao escamotear a história real das classes trabalhadoras e a verdadeira essência da formação social sulina, apresentando-as como mundos em que o lobo apascentava o cordeiro, em que o explorador fraternizava com o explorado.

7. O MTG contra o Capitão Gay

O turista mostra apreensivo na alfândega italiana a mala com o valioso cálice etrusco comprado a peso de ouro ao arqueólogo furtivo. Displicente, o policial pouca atenção dá à peça contrafeita rusticamente que repousará sobre centenas de lareiras de incautos e orgulhosos compradores norte-americanos.
Movimento Tradicionalista Gaúcho não busca no passado valores originais que iluminem o presente. Simplesmente apresenta como bens pretéritos visões do presente avelhentadas rusticamente para parecerem desterradas do tempo.

Em Nativismo: um fenômeno social gaúcho, Barbosa Lessa confessou com grande honestidade intelectual como o tradicionalismo procedeu, não raro na “votação”, a “invenção das tradições” gaúchas. “Quando algum elemento faltasse para a nossa ação, nós teríamos de suprir a lacuna de um jeito ou outro.”

Criado por filhos de fazendeiros, o MTG leu o passado com os olhos do latifúndio moderno. Suas interpretações romantizadas da sociedade pastoril-latifundiária monopolizaram o passado, esterilizando a real, rica, contraditória e semi-desconhecida história sul-rio-grandense.

A alegoria do latifúndio feliz dissolveu a diversidade e a contradição do passado. Ela negou espaço histórico ao nativo sulino e ao missioneiro e a suas lutas pela defesa da terra ancestral; ao peão pobre e ao gaúcho vago e quarteiro, na sua oposição ao criador; ao trabalhador escravizado, trabalhador, fujão, quilombola e justiceiro.

Diversidade e Contradição

O tradicionalismo desconheceu a rica e dolorosa trajetória histórica da mulher. A sua pretensa doce submissão ao marido, no passado, teatralizada na submissão da prenda do CTG ao peão e ao patrão, no presente, apresenta imagem idealizada da fazendeira como sinônimo de toda mulher sulina.
Na sociedade patoril-latifundiária, o trabalho era monopólio do pobre e do cativo. O ato produtivo transformador da natureza era signo de inferioridade. Nesse universo mandonista, os fazendeiros sobreviviam impondo-se pela violência aos subalternizados.

A coragem era a qualidade paradigmática senhorial. O gaúcho-fazendeiro devia ser macho, pouco importando sua disposição ao trabalho. Personagem-síntese do gaúcho em O continente, de Érico Veríssimo, o capitão Rodrigo era femeeiro e pouco amigo do trabalho. Mas brilhava pela macheza.

O grande signo da sociedade pastoril não foi a enxada, mas o rebenque. Com ele, o fazendeiro domesticava o animal bravio e, protegido pelo capataz, chegava-se às costas do cativo desobediente e ao rosto do peão impertinente, em castigo físico degradante. Nas cavalgadas urbanas, tradicionalistas expõem valiosos rebenques de cabos de prata.

Nos gestos, falas e canções, os tradicionalistas cultuam a imagem mítica do gaúcho-fazendeiro que defendia seus latifúndios, impondo-se despótico as suas mulheres, peões, cativos e lindeiros. Reconstrução funcional em momento em que milhares de trabalhadores sem terra lutam por um naco de terreno onde possam trabalhar.

Surge o Capitão Gay

Sem maior sucesso, o movimento gay brasileiro tem lançado candidatos a cargos legislativos. Em fins de 2002, procurando a exposição à mídia, imprescindível ao sucesso eleitoral, candidato gay ao legislativo sulino por partido conservador, já derrotado como candidato a vereador em Pelotas, assumiu a personagem do Capitão Gay, em referência aos personagens do humorista Jô Soares e do ficcionista Érico Veríssimo.

A transfiguração possuía múltiplas mensagens e reivindicações, implícitas e explícitas, conscientes e inconscientes. Entre elas, o direito do homossexual masculino de participar de pleno direito do MTG e a proposta de que a destemerosidade pessoal é também qualidade do gay. Idéia que é um quase truísmo. E se alguém dela duvida, que vá separar uma dessas desesperadas e furiosas disputas urbanas de travestis, à navalha, por um pedaço de calçada.

O Capitão Gay trazia também à discussão tabu da história sulina. Ou seja, a sexualidade do peão, trabalhador pastoril do passado, eternamente solteiro, devido à negativa do fazendeiro de ceder naco de terra para arranchar-se com sua china. Em geral, na fazenda, fora o patrão, apenas o capataz casava e procriava, fenômeno que determinou a débil expansão demográfica pastoril do meridião do RS, uma das razões de seu atual atraso.

Reduzido ao celibato, vivendo em latifúndios onde escasseavam as mulheres, o gaúcho concretizou os impulsos erótico-sexuais como pôde. Em geral, se reconhece seus hábitos bestialistas, mantendo-se porém silêncio sobre suas relações homoeróticas, finamente abordadas no conto A intrusa, de Jorge Luis Borges que inspirou a sensível obra cinematográfica homônima de Carlos Christensen [1979].

Gaúcho desinteressado


O francês Nicolau Dreys viveu no Sul em 1817-27. Em relato, anotou que o gaúcho não tinha “mulheres”, mostrando por elas “pouca atração” [sic]. Pesquisas históricas demonstrarão certamente que o gaúcho destemido do passado podia eventualmente ser um gay, por natureza ou necessidade.

Em Porto Alegre, durante o desfile de 20 de Setembro de 2002, ao desfraldar a bandeira arco-íris do movimento homossexual, diante do palanque oficial, o Capitão Gay foi perseguido e surrado a rebenque, como anunciado, por cavalarianos tradicionalistas. Em 7 de setembro, já fora impedido de entrar no mega-acampamento ruralista, promovido anualmente em parque público municipal de Porto Alegre, cidade que jamais se rendeu aos farroupilhas.

Em uma metáfora histórica, os regionalistas perseguiram e golpearam, matreiramente, em grupo, um tradicionalista que ousou enunciar, isolado, sua diversidade, ao igual que os fazendeiros surravam no relho, no passado, protegidos pelos prepostos, o peão e o cativo alçado. A covarde violência do presente espelhou-se e inspirou-se no barbarismo do passado.

Há quase meio ano dos fatos, o cidadão ofendido, em especial, e a população sul-rio-grandense humilhada, em geral, não conheceram a devida reparação mínima através da expulsão pública e notória pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho de seus associados siderados pelo ódio homofóbico.

sábado, 10 de setembro de 2016

LENDA D'O NEGRINHO DO PASTOREIO



Por Hemerson Ferreira*

Hoje, durante o almoço, contei a lenda d'O Negrinho do Pastoreio para a minha filha, Olga. Contar histórias, contos, mitos e lendas é uma forma de distraí-la. Porque se não for assim as vezes ela não come.
A lenda d'O Negrinho do Pastoreio é antiga. Não se sabe ao certo quem a criou. Era contada no séc. XIX, sobretudo pelos abolicionistas, em campanha pelo fim da escravidão. Por isso seu tom trágico, carregado de dor e injustiça. Mostrando em forma de mito a dor de um povo sob a sina do cativeiro, que no Brasil durou 3/4 da nossa história e deixou marcas até hoje.

O escritor pelotense João Simões Lopes Neto (1865-1916) publicou uma versão em 1913, que ficaria famosa somente a partir de uma reedição feita em 1949 por Érico Veríssimo e outros escritores.

Como acontece com toda a lenda, quem a conta, o faz de um jeito. Carrega num trecho aqui, se esquece de outro ali, muda a garrafa, mas serve mesma bebida, sem mudar muito sua essência. Por isso eu contei do meu jeito, que foi mais ou menos assim:

Era uma vez um fazendeiro que morava no Sul do Brasil. Ele era rico, ignorante, violento, mas esnobe e arrogante. Vivia da exploração de trabalhadores, alguns livres e alguns escravizados. Era criador de cavalos. Gostava de apostar em corridas. Tinha um cavalo baio que era o seu xodó, de quem gostava até mais que do próprio filho, um Mauricinho que só gastava o dinheiro do pai na capital Porto Alegre, no Rio e até na França e tinha vergonha da grossura do pai, um semi-analfabeto. E odiava ver o velho com mais orgulho do cavalo baio do que dos seus diplomas.

Na fazenda haviam peões livres, peões cativos, uns plantadores e os criados da casa. A maioria era de homens, jovens, que se chamavam de "irmãos" ou "malungos". Havia um preto velho, que todos os pretos chamavam de "pai" e algumas senhoras, chamadas de "mães".

Um desses pretos cativos era um menino, muito novo e franzino, adquirido pelo fazendeiro numa das apostas em corridas de cavalo. Foi apartado da mãe, também cativa, que durante o pagamento da aposta implorou para que não levassem seu filho. Em vão. Eles nunca mais se viram. O garoto tinha nome de um santo português, sobrenome da família dos donos da sua avó, trazida da África num navio negreiro, a quem nem conheceu, mas o fazendeiro o chamava apenas de Negrinho, e assim ficou conhecido na fazenda.

Por ser pequeno e leve, o fazendeiro passou a usar Negrinho como "jóquei" do cavalo baio, num tino inteligente que o fez ganhar ainda mais dinheiro nas corridas. Nenhum peão da redondeza era páreo para o baio montado pelo menino.

Numa tarde de rodeio, porém, depois de ganhar muito dinheiro, numa das corridas, justo na qual o fazendeiro apostou bem alto, o cavalo baio, que mais uma vez iria vencer, parou de repente, como se tivesse se assustado com algo, talvez uma cobra, derrubando o Negrinho e deixando outros peões cruzarem a chegada na sua frente.

Enfurecido com o prejuízo, o fazendeiro covarde descontou no cativo. Mandou o capataz dar-lhe uma surra bem dada de relho. Depois amarrou a mão do menino numa corda que na outra ponta prendia-o ao pescoço do cavalo, obrigando-os a passarem os dias e noites unidos. Negrinho, então, não mais dormia debaixo da escada, como os criados da Casa-Grande, nem na senzala, como seus demais companheiros. Tinha que dormir no campo, no chão gelado ou no lombo do baio, ao relento.

Certa noite, muito cansado, o menino dormiu profundamente e nem percebeu que o nó que o atava ao cavalo se desprendeu. O baio, solto, partiu em disparada, sumiu, se escafedeu, junto com o resto da cavalhada.

O fazendeiro, que já era carrancudo e estava furioso por causa do prejuízo da última aposta, ficou ainda mais brabo. De relho na mão, disse ao Negrinho que ele deveria encontrar os cavalos, sobretudo o baio, ou pagaria com a vida depois da pior surra que ele jamais sonhara.

Os senhores brancos eram especialistas nisso de causar dor. Palmatória, tronco, chicote de três pontas, ferro em brasa, máscara de flandres, pau-de-arara, torniquete na cabeça, cadeira do dragão, fio elétrico desencapado, tiro no pé ou na mão, apagar o cigarro na pele, arrancar ou enfiar alfinetes embaixo das unhas, desaparecimento, exílio, chacina, salário mínimo, tapão no rosto, telefone nos ouvidos, expulsar do shopping, olhar de desprezo, desemprego, fome, achaques, blitz, "vai pra parede"..., o menino bem sabia do que os opressores eram capazes.

Em desespero, o menino então rogou pela ajuda de uma protetora a quem as mães pretas costumavam rezar nas horas de sufoco. Algumas chamavam-na de Iara, outras de Iansã, Iemanjá, Odoiá, Janaína ou Maria. Ela tinha muitos nomes. Diziam que era mãe de deuses. Ou de um deus, que apanhou também e sangrou em seus braços. O menino lembrou de sua mãe preta. E se essa protetora dos pretos já foi mãe, havia de socorrê-lo...

Na noite escura, saiu o garoto com uma vela em busca dos cavalos. Cada pingo da vela que caia no campo acendia uma luz, fazendo um rastro iluminado que não o deixou se perder. Depois de muito caminhar, ele encontrou os cavalos, inclusive o baio. Sentiu um peso gigante saindo de suas costas. Montou no baio e conduziu toda a cavalhada pra fazenda, seguindo o rastro iluminado, voltando um pouco antes do sol nascer.

Acontece que o filho do fazendeiro não gostou de ver de volta o maldito cavalo baio, de quem tinha ciúmes. Aproveitou-se que o menino foi preparar o milho para os animais e espantou novamente o cavalo, somente aquele, o baio, xodó de seu pai. Quando Negrinho chamou o fazendeiro para mostrar que havia realizado a tarefa, o homem deu falta do cavalo e explodiu de raiva: "Seu inútil, inútil. Você vai ver"!

Negrinho apanhou muito, por horas, até seu carrasco não aguentar mais bater. Quando parou de gritar e de se mexer, o fazendeiro jogou seu corpo ensanguentado num enorme formigueiro, para que as formigas o despedaçassem.

Anoiteceu e um silêncio terrível tomou conta da fazenda. Todos os cativos choravam, mas ninguém ousava fazer qualquer comentário. O batuque estava proibido. Quando amanheceu, o fazendeiro voltou ao formigueiro para ver se as formigas haviam feito o "serviço". Mas, para sua surpresa, Negrinho estava vivo, sem um arranhão sequer, montado no cavalo baio e ao lado da sua protetora celeste.

Diziam os antigos que lá no Sul do Brasil que, a partir de então, toda vez que alguém perdia algo importante e o quisesse de volta, bastava acender uma vela, colocá-la ao lado de um formigueiro e pedir ao Negrinho que o encontrasse e trouxesse.

Imagens do Negrinho do Pastoreio estão hoje enfeitando a sede do governo do Rio Grande do Sul, o Palácio do Piratini, para que essa história seja lembrada e contada de geração em geração, até o fim dos tempos, para que todos saibam que a liberdade não tem preço.

OBS: "Hemerson Ferreira: Mas ainda tomaremos esse palácio de inverno".

*Hemerson Ferreira é Professor de história