"Hay hombres que luchan un dia y son buenos
Hay otros que luchan um año y son mejores
Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos
Pero hay los que luchan toda la vida
Esos son los imprescindibles"
(Bertolt Brecht)

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segunda-feira, 8 de março de 2010

Retrato da Estupidez Gaúcha


Quando realizamos a critica contra o gauchismo, muita gente se levanta para defender a cultura e a tradição do gaúcho. Se observarmos as suas raízes, seus conceitos, seus hábitos, a economia do Rio Grande do Sul e principalmente quando avaliamos a pecuária, o surgimento do latifúndio e da revolta farroupilha, enxergamos os verdadeiros interesses das oligarquias deste Estado. O traço conservador e raivoso dos viventes guascas, da intransigência dos fazendeiros ricos, sua arrogância acima da lei ou melhor eles são a lei. Essa postura de proprietário não só das terras mas das pessoas, cria um mau habito disfarçando a força e a truculência como se fosse um ato de bravura, de galhardia e de valentia. Essa é a demonstração de maior covardia, que se expande desde o machismo ao gesto mais reacionário e emblemático do Centros de Tradição Gaúcha - CTG, lugar onde os guascas condensam o sentimento arraigado pela propriedade, o horror aos pobres e todo o tipo de preconceito e o fazem invadir a cidade com um certo sentimento de Pátriotismo e, quem não participa e não concorda passa a sofrer todo o tipo de segregação. O machismo, discriminação racial e o ódio contra os homossexuais, campeiam mentes doentes dessa cultura inventada e atrelada ao latifúndio, modelo mais atrasado de produção capitalista.

A estrutura do CTG está baseada nesse modelo de produção, pois faz o aliciamento para essa pseudocultura na forma e semelhança ao mando do senhor de estância, vamos a ela: este clubinho de conservadores reacionários, usam cavalos, homens (peões), mulheres (prendas), cachorros, vaca, boi e outros bichos mais, como se todos estes fossem a mesma coisa. Toda alegria vivenciada no CTG, tem essa característica embrutecida, da tutela, da domesticação na pratica da doma e do bagaceirismo. Esta baixa moral e autoestima submete o povo do rio Grande do Sul a submissão e raiva contra a liberdade e a solidariedade. A estrutura desse clube da ignorância e da usurpação da história se constitui de Patrão, Capataz, Peões e Prendas. Somente os que obedecem ao latifundiário, ao estancieiro, ao dono da Fazenda.

Milton Ribeiro mostra com muita precisão a estupidez dessa tradição manca, em seu blog. Leia aqui o seu artigo, Retrato da Estupidez Gaúcha. Faz aparecer as garras dessa pseudocultura que acolhe todo o tipo de crueza e desprezo.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O Gaúcho e seu Avesso


Escrito por Mário Maestri
26-Mar-2007

http://www.correiocidadania.com.br/content/view/36/

Apesar da função germinal que a fazenda pastoril desempenhou na origem e no desenvolvimento da formação social sulina, não dispomos de sequer uma história geral da estância no Rio Grande, ao contrário do Uruguai e da Argentina, onde abundam valiosos trabalhos sobre o tema. Guilhermino César, último grande expoente da historiografia tradicional sulina, esboçou uma primeira leitura geral da estância sem jamais concluir o trabalho, publicado postumamente – A origem da economia gaúcha: o boi e o poder [Porto Alegre: IEL, 2005.]

Esse paradoxo manteve-se apesar da abundância da documentação; da qualidade e da quantidade dos estudiosos; dos paradigmas interpretativos sobre a estância construídos pela historiografia platense. A história da fazenda no Sul permaneceu como uma espécie de caixa de Pandora, mantida cuidadosamente cerrada. São múltiplas as razões de tal esquisitice historiográfica. Como no Plata, os mitos da democracia pastoril e da produção sem trabalho são também bases constitutivas das explicações apologéticas do passado sulino. O Sul divide com aquelas regiões a apologia das virtudes democráticas dos latifúndios, da produção pastoril sem trabalho, da ocupação pelo colonizador de terras sem donos, de civilização assentada na destemidez do gaúcho, trabalhador livre que jamais conheceu a opressão de classe.

Entretanto, ao contrário dos pampas platenses, o Rio Grande possuiu economia e sociedade fortemente apoiadas no trabalho escravizado. Realidade negada ou minimizada pelos intelectuais orgânicos da sociedade liberal-pastoril, inicialmente, e positivista-industrial, a seguir, apesar de os levantamentos populacionais dos séculos 18 e 19 registrarem o volume e a expansão absoluta da mão-de-obra cativa no Sul, além do fim do tráfico transatlântico, em 1850-2. Uma produção escravista sulina que envolveu em forma significativa, ainda que não exclusiva, a própria economia pastoril.

Em geral, mesmo quando a historiografia sulina reconheceu alguma importância ao trabalho escravizado, esforçou-se em reafirmar a fazenda pastoril ou, ao menos, as práticas pastoris propriamente ditas como esferas de intervenção exclusivas do trabalhador livre – o gaúcho. A população escravizada registrada nas fazendas trabalharia exclusivamente nas atividades não-pastoris domésticas e mais pesadas – horta, transporte, construção etc. O cativo campeiro, presença constante nas fazendas pastoris médias e de maior porte, foi tradicionalmente ignorado.

Gaúcho nem sempre é peão

Nos fatos, essa visão historiográfica apologética já confundia comumente a categoria profissional peão-peón, assalariado livre das fazendas pastoris do sul da América, com o gaúcho-gaucho, categoria étnico-social constituída sobretudo por descendentes ou mestiços de charruas e guaranis que perambulavam nos pampas argentinos, uruguaios e rio-grandenses, empregando-se, eventualmente, como peões. Nos fatos, o gaúcho nem sempre foi um peão, assim como peão não era, necessariamente, um gaúcho.

A elucidação das razões da utilização do cativo nas práticas criatórias, mão-de-obra relativamente cara considerando-se a baixa rentabilidade da criação animal, quando existiam gaúchos hábeis nas lides do campo, constituía também dificuldade metodológica na solução dessa verdadeira charada historiográfica. A superação dessa contradição aparente exigia a compreensão da disponibilidade apenas aparente do trabalhador livre e que se identificassem as razões histórico-estruturais do caráter subordinado do mercado de trabalho livre no Sul, ao igual de que ocorria no resto do Brasil.

Até os últimos tempos da escravidão, os campos sulinos não foram plenamente apropriados e cercados e o gaúcho detinha parcialmente os instrumentos – cavalos, arreios etc. – necessários à produção furtiva ou semi-furtiva, em geral intermitente, de seus meios de subsistência. O que dificultava sua metamorfose plena em peão, trabalhador pastoril assalariado, obrigado pela necessidade econômica a vender permanentemente sua força de trabalho a preço vil. Nessas condições históricas, o trabalho coato ou semi-coato impunha-se como uma importante relação de trabalho na produção pastoril, ainda que não assumisse o caráter quase exclusivo, como ocorria nas atividades mais duras, como as charqueadas, monocultura exportadora etc.

A própria fantasia apologética sobre as condições de existência singularmente positivas do gaúcho-peão, identificado de fato ao fazendeiro, reafirmada pela historiografia tradicional, dificultava a compreensão da incapacidade dessas categorias sociais de reproduzir-se vigorosamente, criando população excedente capaz de substituir abundantemente a mão-de-obra escravizada, quando subsistissem as condições para tal. O padrão de existência do gaúcho-peão rio-grandense no século 19 e começos do século 20 exige estudo como o desenvolvido por Laudelino Medeiros, para os anos 1960, em “O peão de estância: um tipo de trabalhador rural” [Porto Alegre: Instituto de Estudos e Pesquisas Econômicas da UFRGS, 1964].

O fazendeiro nos panos do gaúcho

O deslocamento geográfico do célebre monumento do Laçador, na entrada de Porto Alegre, centrou os holofotes da mídia regional nesse registro exemplar da ocultação do rosto triste do gaúcho-peão, herói anônimo do mundo do trabalho do passado sulino, através da projeção sobre sua representação da imagem idealizada do fazendeiro, seu antípoda social.

Em 1954, as celebrações do quarto centenário de São Paulo ensejaram concurso para a produção de escultura representativa do homem sulino, a ser exposta, junta a outras estátuas de homens-tipo brasileiros, no parque do Ibirapuera, inaugurado quando do evento. Participaram do certame artistas conhecidos como Antônio Caringi, Fernando Corona, Vasco Prado, que apresentaram cinco projetos, em modelos reduzidos – “Posteiro”, “Boleador”, “Bombeador”, “Peão da Estância” e “Gaúcho Farrapo”.

A comissão avaliadora, da qual participava o jovem tradicionalista Paixão Cortes, decidiu em favor de Antônio Caringi (1905-1981), natural de Pelotas, antigo centro charqueador-escravista, que substituiu as boleadeiras por laço, ensejando a nova denominação do seu projeto. Modelada em barro e a seguir em gesso, para ser eventualmente fundida e doada após a exposição à municipalidade de São Paulo, a estátua retornou ao Sul, permanecendo semi-esquecida em depósito da capital até ser retirada do olvido, para ser fixada em bronze, por ordem de Leonel Brizola, então prefeito da capital [1954-8].

Em 20 de setembro de 1958, data magna das celebrações farroupilhas, a majestosa estátua – quatro metros e meio de altura, quatro toneladas de peso – era plantada na confluência das avenidas Farrapos e Ceará, na mais nobre entrada de Porto Alegre, nas proximidades do aeroporto Salgado Filho, símbolo da modernidade pretendida pela metrópole sulina. A obra alcançou rápido sucesso. Em 1991, era escolhida em consulta promovida pelo Banco Itaú-RBS como símbolo da capital, decisão homologada pela Câmara dos Vereadores, no ano seguinte, e, em 17 de setembro de 2001, era tombada pelo patrimônio como monumento histórico. Antes dessas distinções, já era motivo sempre presente nos cartões de viagens, prospectos e alegorias sobre a capital e o estado.

Brigadianos e cetegistas

Em 11 de março de 2007, quando se preparava para celebrar meio século guardando a entrada de Porto Alegre, o Laçador foi transferido, pajeado pela Brigada Militar e cavalaria cetegista, sob o som do hino rio-grandense e de canções tradicionalistas, para seiscentos metros de distância, na avenida dos Estados, próximo à estação da Trensurb e ao antigo terminal do Aeroporto Salgado Filho, devido às obras do viaduto Leonel Brizola.

O deslocamento da estátua do eixo central da visão dos que chegam à capital pela BR-116 obrigou sua colocação sobre pequena elevação em terra, batizada em forma grandiloqüente de “Coxilha do Laçador”. Durante todo o processo, as autoridades municipais consultaram os vates tradicionalistas, temerosas de incorrerem impensadamente em alguma profanação.

Nada na estátua monumental fixa plasticamente o peão-gaúcho, descendente do pampiano ou missioneiro ou, menos ainda, o cativo campeiro, presença constante nas grandes estâncias. O Laçador constitui negação do olhar, do porte e, sobretudo, do corpo do gaúcho-peão, corpo dolorosamente esculpido por existência de trabalho duro e perambulação sem fim em campos que haviam sido, mas já não eram mais seus.

Os traços somáticos europeus, a postura dominadora, os trajes de manequim empertigado para foto oficial anulam a representação do gaúcho-peão real, ao projetar sobre ela a imagem mitificada do fazendeiro luso-descendente, que se apropriou, sem dó, da terra que pisou e dos trabalhadores que a exploraram. O Laçador volta as costas ao gaúcho-peão real, materializando-se como representação de herói imaginário produzida com as reconstruções do presente sobre passado pastoril mítico estranho às necessidades e contradições sociais. Uma operação cultural-ideológico que se deu paradoxalmente sem mediações.

Super-heróis rio-grandenses

Autor de outras esculturas áulico-monumentais, como o “Imigrante”, em Caxias do Sul; o “Soldado Farroupilha”, em Pelotas; “Bento Gonçalves” e o “Expedicionário”, em Porto Alegre, Caringi não se inspirou na iconografia e na documentação história ou, melhor ainda, no trabalhador pastoril de sua época, explorado e sofrido, descendente sociológico do gaúcho-peão que prometia retratar.

O Laçador teve, ao contrário, como modelo e conselheiro histórico, Paixão Cortes, descendente de lusitanos e servidor produtivo e imaginativo da fazenda, como engenheiro-agrônomo e como fundador do movimento de apologia do mundo pastoril-latifundiário, que posou e aconselhou o artista, vestido de trajes folclorizados de gaúcho, no conforto de sua residência da capital.

O próprio Paixão Cortes registrou a estranha gênese do Laçador: “[...] um dia eu estou lá em casa e batem na porta. Era o Caringi, que [...] me pediu se poderia conseguir um traje de gaúcho [...]. Eu disse que só tinha o meu, então ele pediu se eu poderia vestir. Eu vesti e ele foi fazendo desenhos [...]. Ele [...] voltou várias vezes e eu sempre colocava o traje e nós debatíamos o que seria” [Melhor Idade, 15.02.07]. Por esse seu pecado, durante toda a vida, Caringi amargou o amplo conhecimento popular do modelo e a quase ignorância do produtor da mais célebre escultura rio-grandense.

Mário Maestri é professor do curso e do programa de pós-graduação em História da UPF.

E-mail: maestri@via-rs.net

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Capatazes, peões e latifúndios


Mário Maestri (*)
La Insignia. Brasil, setembro de 2006.


Durante a Semana Farroupilha, com finalização em 20 de setembro, através todo o RS, patrões, capatazes, peões, prendas e ginetes das associações tradicionalistas ponteiam as multitudinárias celebrações da guerra separatista sulina de 1835-45 e da sociedade latifundiário-pastoril que a sustentou. Apesar da importância nas representações identitárias sulinas, não temos histórias gerais sobre a fazenda pastoril e seus trabalhadores, ao contrário do que ocorre no Uruguai e Argentina. A gênese da propriedade fundiária e as condições gerais de existência dos trabalhadores pastoris do passado e do presente constrangem certamente as apresentações historiográficas laudatórias sobre o gaúcho e a fazenda rio-grandense.

Em 1964, Laudelino Medeiros escreveu o texto "O peão de estância: um tipo de trabalhador rural", apoiado na sua participação em pesquisa geral sobre a pecuária rio-grandense, empreendida pelo Instituto de Estudos e Pesquisas Econômicas da UFRGS, no qual analisou a realidade de 35 fazendas, com mais de 440 hectares, dos municípios de Vacaria, Julho de Castilhos, Santiago e Uruguaiana, localizados no norte e no sul do Estado. O estudo foi realizado em um momento em que ainda dominavam as práticas tradicionais do pastoreio contínuo sulino que se estruturaram, sobretudo a partir dos anos 1870, com o início da desescravização das estâncias no Rio Grande do Sul.

O valioso trabalho inicia assinalando a gênese latifundiária da propriedade fundiária rio-grandense, seguida de crescimento e posterior queda relativa de dimensão. Porém, ainda em 1960, havia 6.787 explorações com mais de quinhentos hectares, entre as quais 238 possuíam de cinco a dez mil hectares e cinqüenta, dimensões ainda maiores do que uma sesmaria histórica. Nessa época, as propriedades tinham em média dois peões e um capataz, ou seja, 948,5 animais por trabalhador, realidade muito próxima à conhecida pelas estâncias criatórias da região de início do século 19! A seguir, o autor descreve a organização sócio-espacial das regiões pastoris estudadas: a sede municipal; os distritos e seus núcleos urbanos; as estâncias, base de toda a arquitetura econômico-social e, às vezes, "aglomerados de moradias habitadas por famílias pobres", com o seu "bolicho" e a sua "cancha".

Nas fazendas estudadas, trabalhavam, em forma eventual, o fazendeiro, seus filhos e parentes e, essencialmente, trabalhadores assalariados, com destaque para os, em 1965, setenta mil trabalhadores pastoris. O fato de que, em 1950, houve em todo o RS, cem mil operários industriais, registra a importância dessa população mantida historicamente à margem de qualquer expressão social e política organizada. Capatazes e peões cumpriam em geral as mesmas tarefas produtivas. O capataz era um peão mais experiente ao qual delegava-se a implementação quotidiana das decisões gerais nas quais não intervinha. Nas fazendas maiores, podia haver um sota-capataz.

Os trabalhadores assalariados temporários eram sobretudo o alambrador, o tosquiador, o carpinteiro, o tratorista, o enseminador, etc. Em 1964, o domador e o posteiro estavam já em processo de plena extinção. Sobretudo até 1870, quando as estâncias começaram a receber cercas de arame, os posteiros eram "agregados" que moravam em geral com a família nas franjas da propriedade, onde plantavam uma horta e criavam algum gado, sob a obrigação de controlar o ingresso nas terras de intrusos, a fuga de gado e de cativos, e apoiar episodicamente as atividades que requeriam maior esforço - rodeios, preparação de tropas, etc. Capatazes, peões e agregados conformaram como sub-oficiais e soldados o núcleo central das forças militares que intervieram nos conflitos sulinos, sob a direção das classes pastoril-latifundiárias - Guerra Farroupilha, Intervenções no Plata, Revolução Federalista, Revolução de 1923, etc.

Laudelino Medeiros registra a visão "romântica" e "bucólica" do "citadino", normal nas reconstruções apologéticas do presente e do passado, das pesadas e duras tarefas pastoris, iniciadas ao nascer do sol e desenvolvidas sob o rigor das intempéries. Apresentado comumente como uma verdadeira "diversão", o trato montado do gado em campos abertos foi sempre atividade rústica, causa de acidentes graves e, não raro, mortais. O autor assinala a verdadeira naturalização dessas condições de trabalho pelos peões e capatazes que desconheciam uma outra forma de existência. Organizados por produção que os isolava nas fazendas e lhes ensejava percepção individualista de suas práticas sociais, capatazes e peões possuíam historicamente uma muito limitada consciência de suas necessidades sociais, sobre a qual se apoiou o mito da concordância de interesses entre fazendeiros e gaúchos, base do forte movimento tradicionalista rio-grandense - GTG.

Os 32 capatazes entrevistados tinham habitualmente de 30 a 49 anos de idade, sugerindo que a velhice punha fim aos laços empregatícios. Em geral, eram casados - quase 71% - e suas mulheres trabalhavam comumente na sede e cozinhavam para os peões. A escolaridade e a família dos capatazes eram pequenas - 4,65% pessoas por família. Os capatazes moravam em casa de madeira, de coberturas de telhas ou de folhas de zinco, sem os confortos comumente encontrados na moradia próxima dos seus patrões - água encanada, eletricidade, banheiros, etc.

Os capatazes recebiam em torno de um salário mínimo e, nas fazendas maiores, possuíam algumas cabeças de gado e, raramente, um lote de terra, mesmo urbano. Eles conheciam alta rotatividade profissional, baixa mobilidade territorial, escassa ascensão social e eram habitualmente naturais da região e filhos de pais ocupados no pastoreio, não possuindo expectativas de mudar de profissão, da qual não tinham alta estima. Portanto, em geral, trocavam comumente de emprego, durante a vida produtiva, sempre na região onde nasciam, o que exigia naturalmente respeito à disciplina social, caso quisessem manter-se no mercado de trabalho. Na época, era incomum que capatazes e peões procurassem a Justiça do Trabalho.

Os peões, um pouco mais jovens, tinham entre 20 e 49 anos (62,7%) e eram em boa parte pardos e negros, herança da importante população de cativos empregada nas estâncias sulinas em tarefas de apoio e nas práticas pastoris propriamente ditas - cativos campeiros. Os peões conheciam a mesma baixa mobilidade profissional, social e territorial que os capatazes. Escutavam raramente a rádio, não liam jornais, havia quem não soubesse o que era a televisão, ainda em 1964! Em geral, devido aos descontos cobrados pela alimentação e a moradia, recebiam salário abaixo ao mínimo da época, não raro inferior ao determinado por lei. Visitavam volta e meia as povoações próximas, usando os veículos da estância ou o ônibus e, raramente, o cavalo.

Os fazendeiros negavam-se a empregar peões casados. O trabalho marginal das esposas e filhos dos peões não supriria os gastos com o alojamento e a alimentação. Temeriam, sobretudo, que núcleos familiares criassem laços associativos que apoiassem a luta pela democratização da terra. Quase 75% dos peões eram solteiros, não possuindo, portanto, direito à família e à reprodução, o que contribuiu para o escasso desenvolvimento demográfico e econômico das áreas pastoris rio-grandenses, sobretudo em relação às comunidades colonial-camponesas do nordeste rio-grandense. O autor descreve a triste moradia do peão: "(...) dormem numa peça junto ao galpão, mais propriamente uma divisão no galpão: o quarto dos peões. Ali se encontram quatro ou cinco camas rústicas (...)." Assinala que essas instalações encontravam-se em "contraste acentuado com as usadas pelos fazendeiros".

Laudelino assinala, igualmente, sem se aprofundar na questão, os efeitos dissociativos, pessoais e grupais, da manutenção de população masculina jovem, semi-encerrada, à margem do direito de acasalar-se e constituir família. Era habitual que nas comunidades pobres a que se refere o autor, ao lado do "bolicho" e da "cancha" assinalados, houvesse prostíbulos onde o gaúcho deixava periodicamente seu magro salário, na mesa, bebendo cachaça e carteando com jogadores espertos, ou na pista de dança e no catre, com mulheres tristes, prostituídas devido à impossibilidade de outra inserção social. Temos ricas notícias sobre os hábitos zooeróticos e escassa informação sobre as ideologicamente mais corrosivas práticas homossexuais eventuais do gaúcho.

O gaúcho possuía vida cultural pouco desenvolvida, valorizava escassamente a profissão, não tinha planos estruturados para o futuro. Perguntando o que pretendia fazer sobre sua vida, um jovem peão respondeu: "[...] se í dando certo, vô ficando". Salvo engano, divulgado através de alguns exemplares mimeografados, em 1969, o valioso trabalho de Laudelino T. Medeiros, "O peão de estância: um tipo de trabalhador rural" jamais foi publicado como livro.


(*) Mário Maestri, 58, rio-grandense, é historiador. E-mail: maestri@via-rs.net