"Hay hombres que luchan un dia y son buenos
Hay otros que luchan um año y son mejores
Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos
Pero hay los que luchan toda la vida
Esos son los imprescindibles"
(Bertolt Brecht)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Mais uma Yedisse: Fechamento Conselho Distrital de Sáude


Conselho Distrital de Saúde Glória/Cruzeiro/Cristal

Convocação para Plenária

A Coordenação do Conselho Distrital de Saúde Glória/Cruzeiro/Cristal convida para a Plenária Ordinária que realizar-se-á dia 18 de novembro, às 19 horas, no auditório do Centro de Saúde Vila dos Comerciários, na rua Professor Manoel Lobato, 151 Vila dos Comerciários, para debater e deliberar sobre a seguinte pauta:

- Informes;

- Apresentação do mapa da área de atuação e diagnóstico comunitário do PFS Nossa Senhora de Belém;

- Desmonte do Núcleo da FADERS na Vila Cruzeiro.

Solicitamos a colaboração para a divulgação deste convite. Sugerimos a afixação em local de fácil visualização, o re-encaminhamento a pessoas fora da intranet da PMPA, a divulgação junto a instituições prestadoras de serviços, associações comunitárias, instituições religiosas e outras formas de comunicação que tenham como objetivo principal os usuários do SUS.

Pela Coordenação



Gláucia Fontoura /Pedro Ribeiro



Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação[1].

POA14112008



[1] Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.


Conselho Distrital de Saúde Glória/Cruzeiro/Cristal

DENUNCIA

Governo do Estado do RS quer fechar serviço que atende crianças e adolescentes

A FADERS/SJDS – Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas Portadoras de Deficiência e de Altas Habilidades do Estado do Rio Grande do Sul, entidade vinculada a Secretaria da Justiça e do Desenvolvimento Social, está sendo ameaçada de encerrar as atividades realizadas no Centro de Atenção a Saúde Mental – CASM/FADERS, instalado no Postão da Vila Cruzeiro desde junho de 1991. A entidade oferece atendimento clínico-terapêutico, pedagógico, psicológico, psicopedagógico e social a famílias com crianças e adolescentes portadores de deficiência mental, deficiência física, baixa visão, cegueira, deficiência múltipla, paralisia cerebral, condutas típicas e altas habilidades.

A citada ameaça está oficializada internamente na FADERS pelas diretorias técnica e administrativa, sem a devida discussão com o conjunto de instituições que lutam pela qualificação das políticas públicas destinadas as crianças e adolescentes.

Esta medida, seguramente gestada no conforto de gabinete, ignora o impacto para os usuários das regiões Glória/Cruzeiro/Cristal, Sul e Extremo Sul, bairros que já apresentam carência de atendimento pelas políticas públicas e dificuldades de acesso aos serviços. É uma pretensão insana que ataca frontalmente os direitos humanos, tendo o seu efeito agravado por tratar-se de um serviço de atenção em saúde mental, área sabidamente carente de oferta.

Este Conselho Distrital denuncia esta arbitrariedade e solicita a divulgação deste manifesto para seus relacionamentos institucionais, comunitários e virtuais, bem como, ao Ministério Público, Justiça, Conselhos de Direitos, Controle Social, Legislativo, Gestores Públicos e Sociedade em Geral.

Sugerimos manifestação para as seguintes pessoas:

Direção da FADERS: faders@faders.rs.gov.br

Diretor-Presidente
Cláudio Sérgio Vidal Petrucci

Diretora Administrativa
Aracy Maria da Silva Lêdo

Diretora Técnica
Denise Tereza Marchetti

Gabinete da Secretaria da Justiça e do Desenvolvimento Social:

juarezhampel@sjds.rs.gov.br Secretario: Fernando Schüler


Ilustrando a Mentalidade

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Deu no Diário Gauche: Um blog com vista para o mar do século 21

Blogueiro é processado por empregado da RBS


Solidariedade a WU

O jornalista, professor e blogueiro combativo Wladimir Ungaretti está sendo processado judicialmente por um empregado celetista da RBS, conhecido como Fotonaldo. Uma vez me foi dito o nome de batismo desse manipulador de máquina fotográfica, mas esqueci no ato. Saber isso tem tanta importância quanto a sofrível qualidade jornalística ou artística das imagens do sujeito (ou seria objeto?).

Da mesma forma como Fotonaldo registra imagens mecanicamente da realidade, assim ele procedeu ao acionar judicialmente WU. Ele copia de forma mecânica e replicante a fórmula aprendida dos seus patrões – busca no judiciário o que não consegue na sua vida subalterna e deserta.

Afinal, o que quer Fotonaldo? Quer que WU reconheça o que lhe falta? Quer que o judiciário obrigue a WU que este lhe aponte as qualidades profissionais? Quer tomar à força, por via da coerção judicial, o que a vida social lhe negou – reputação, estima pública, admiração pessoal?

Impossível. O que o indivíduo não soube cultivar durante uma vida, não é uma ação judicial que lhe irá prover.

Por isso, fica aqui o registro de solidariedade fraterna a Wladimir Ungaretti, do blog Ponto de Vista.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

DENÚNCIA: mais uma da Desgovernadora Yeda Crusius


Conselho Distrital de Saúde Glória/Cruzeiro/Cristal

DENUNCIA

Governo do Estado do RS quer fechar serviço que atende crianças e adolescentes

A FADERS/SJDS – Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas Portadoras de Deficiência e de Altas Habilidades do Estado do Rio Grande do Sul vinculada a Secretaria da Justiça e do Desenvolvimento Social esta ameaçando fechar as atividades do Centro de Atenção a Saúde Mental – CASM/FADERS instalado no Postão da Cruzeiro desde junho de 1991 e que oferece atendimento clínico-terapêutico; pedagógico; psicológico; psicopedagógico e social a famílias com crianças e adolescentes portadores de deficiência mental; deficiência física; baixa visão; cegueira; deficiência múltipla; paralisia cerebral, condutas típicas e altas habilidades.

Esta ameaça está oficializada internamente na FADERS pelas diretorias técnica e administrativa sem a devida discussão com o conjunto de instituições que lutam pela qualificação das políticas públicas destinadas a crianças e adolescentes.

Esta medida, seguramente gestada no conforto de gabinete, ignora o impacto para os usuários das regiões Glória/Cruzeiro/Cristal, Sul e Extremo Sul. Regiões com vazios de atendimento pelas políticas públicas e dificuldades de acesso aos serviços. Esta pretensão insana que ataca frontalmente os direitos humanos fica agravada por tratar-se de um serviço de atenção em saúde mental, área sabidamente carente de oferta.

Este Conselho Distrital denuncia esta arbitrariedade e solicita a divulgação deste manifesto para seus relacionamentos institucionais, comunitários e virtuais e ao Ministério Público, Justiça, Conselhos de Direitos, Controle Social, Legislativo, Gestores Públicos e Sociedade em Geral.

Sugerimos manifestação para as seguintes pessoas:

Direção da FADERS: faders@faders.rs.gov.br

Diretor-Presidente
Cláudio Sérgio Vidal Petrucci

Diretora Administrativa
Aracy Maria da Silva Lêdo

Diretora Técnica
Denise Tereza Marchetti

Gabinete da Secretaria da Justiça e do Desenvolvimento Social:

juarezhampel@sjds.rs.gov.br

Secretario: Fernando Schüler

Desativação do curso de graduação em artes da UERGS


Senhora Governadora,

Sou artista plástica e professora de História e Teoria da Arte, atuante na cidade de Porto Alegre.

Por ocasião da exposição que inaugurei na Galeria de Arte da FUNDARTE, em outubro último, e ao participar de conferência no Seminário Nacional em Arte Educação , promovido por aquela instituição na mesma época, tomei consciência da iminente desativação do curso de graduação em artes da FUNDARTE/UERGS, sediada em Montenegro.

O que vi e ouvi a esse respeito da parte de professores, pesquisadores, estudantes e participantes do seminário, oriundos de todo o Brasil, senhora governadora, deixou-me constrangida de pertencer ao estado sob sua gestão.

Atuando em Porto Alegre , oriento estudantes, artistas e professores de diversas regiões do Rio Grande do Sul e pude testemunhar a iniciação profissional de jovens graduados pela FUNDARTE que ingressam na comunidade de artistas e professores com o entusiasmo de quem sai de uma escola qualificada e da qual se orgulha.

Pergunto-lhe: já esteve na FUNDARTE? Dialogou com seus alunos e professores? Tem idéia do trabalho que realizam e da contribuição que, em seus poucos anos, a graduação da FUNDARTE proveu, em âmbito estadual? Tem ciência do nível de qualificação dos professores, que, por falta de perspectiva naquela instituição, têm-se colocado entre os primeiros classificados em concursos para instituições federais de ensino de nível superior? Está consciente da demanda pendente entre os jovens estudantes desde que a senhora deixou de autorizar novos concursos vestibulares?

Por omissão ou protelação – ambas inaceitáveis como justificativa do fechamento de uma instituição pública de ensino –, o concurso que regulamentaria o quadro de professores da FUNDARTE junto à UERGS permanece sem data para efetivar-se. Da mesma forma, os concursos vestibulares para ingresso de novos alunos permanecem sem previsão de realização. Não havendo quadro de professores e tampouco alunos para dar início a mais um ano letivo, parecerá justificada a desativação do curso. Será essa a conclusão a que a senhora espera que chegue a classe educadora e cultural de nosso estado? Seremos assim tão ingênuos a seus olhos?

Pessoalmente, senhora governadora, ainda me encontro sob o impacto da notícia a respeito de escolas do ensino fundamental fechadas em municípios do interior do estado sob o pretexto de falta de alunos, argumentado pela Secretaria Estadual de Educação. Para agravar essa impressão de abandono e indiferença por parte do Governo do Estado, os jornais de grande circulação divulgam a inexplicável demora na nomeação de um novo diretor da FAPERGS, o que deixou nossa principal instituição de fomento à pesquisa praticamente inativa ao longo de 2008.

Será essa a marca que seu governo deixará na educação e na pesquisa?

A desconstrução? O descaso? A imobilidade?

Desculpe-me a sinceridade, senhora governadora, mas ouso afirmar que, sem ações que evidenciem o contrário, tenderei a concluir que seu governo objetiva a imobilidade administrativa que flagela nossas instituições educacionais.

Esta carta é, também, uma manifestação de solidariedade para com aqueles estudantes que tristemente vêem anulada a instituição que os formou e aqueles que já não poderão candidatar-se a ela em um próximo concurso vestibular. Minha solidariedade dirige-se aos colegas artistas e professores da FUNDARTE que transferiram suas vidas das cidades de origem para se tornarem cidadãos de Montenegro, cidade que os abraçou nesse projeto que seu governo está em vias de extinguir por absoluta falta de ação. Minha solidariedade é para com a educação e a formação artística qualificadas que perdem terreno em nosso estado, sob sua gestão.

Senhora governadora, seja na qualidade de artista, palestrante, ensaísta ou professora, atuando junto a artistas, estudantes, professores e pesquisadores em artes, serei mais uma a assumir o compromisso de sensibilizar nossa comunidade em relação à triste realidade que presenciei em Montenegro.

Maria Helena Bernardes

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Nossas mulheres são mais viris

Leitores! Só para lembrar: com a ironia peculiar de La Vieja Bruja.

Sábado, 16 de Agosto de 2008


Está chegando a data máxima dos machinhos gaudérios, que já se alvoroçam nos galpões de todo o Rio Grande. Com suas bombachinhas frisadas apertadinhas nas canelas e nas bundinhas, lá se vão os centauros dos pampas comemorar uma constrangedora derrota, celebrada através de um acordo de cavalheiros brancos, cujo gran finale faz parte da galeria das infâmias humanas.

O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), que vê as relações sociais estabelecidas na estância pastoril-latifundiária como o ápice da cultura e das relações humanas, é o filho dileto daquele espírito viril e bravo, que não se cansa de produzir belos espécimes.

Segundo Oscar Fernande Gress, presidente do MTG e da Comissão Estadual dos Festejos Farroupilhas, a Semana Farroupilha deste ano terá como tema os símbolos oficiais do estado: a bandeira, o hino, as armas, a erva-mate, o quero-quero, a flor brinco-de-princesa, o cavalo crioulo, a macela, o mate e , é claro, o churrasco, que, como todos sabem, foi inventado pelos gaúchos que chegaram à Grécia junto com os aqueus, tal como nos narrou Homero, embora estudos recentes tenham encontrado vestígios de frisos de bombachas mesmo em túmulos pelágios, o que indica que os gaúchos são também os pais da civilização egéia.

Ainda hoje, 16, em São Leopoldo, RS, ocorrerá o acendimento da Chama Crioula. Depois, "mais de 2 mil tradicionalistas, de todas as querências do Rio Grande, terão a missão de retirar uma centelha do fogo histórico e levá-la para sua entidade tradicionalista, seu galpão, seu templo sagrado. Tudo isso, montados em seus pingos".

E isso porque, como também é público e notório, "A relação do gaúcho com seu animal é sempre de respeito, de amizade, de companheirismo", ainda segundo Gress.

Abaixo, uma pequena amostra de todo o respeito e companheirismo envolvidos nessa relação:




Uma das maiores preocupações do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF) - que recentemente editou o livro "Nossos Símbolos: Nosso Orgulho", a fim de que professores estaduais tenham subsídios para trabalhar o assunto nas escolas públicas farrapas -, finaliza o presidente do MTG, é a de que "nossas futuras gerações cresçam conhecendo sua história, assim tendo capacidade de formar uma sociedade mais justa e mais civilizada".

La Vieja, entretanto, sequer imagina que espécie de justiça pode brotar de uma farsa.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Capatazes, peões e latifúndios


Mário Maestri (*)
La Insignia. Brasil, setembro de 2006.


Durante a Semana Farroupilha, com finalização em 20 de setembro, através todo o RS, patrões, capatazes, peões, prendas e ginetes das associações tradicionalistas ponteiam as multitudinárias celebrações da guerra separatista sulina de 1835-45 e da sociedade latifundiário-pastoril que a sustentou. Apesar da importância nas representações identitárias sulinas, não temos histórias gerais sobre a fazenda pastoril e seus trabalhadores, ao contrário do que ocorre no Uruguai e Argentina. A gênese da propriedade fundiária e as condições gerais de existência dos trabalhadores pastoris do passado e do presente constrangem certamente as apresentações historiográficas laudatórias sobre o gaúcho e a fazenda rio-grandense.

Em 1964, Laudelino Medeiros escreveu o texto "O peão de estância: um tipo de trabalhador rural", apoiado na sua participação em pesquisa geral sobre a pecuária rio-grandense, empreendida pelo Instituto de Estudos e Pesquisas Econômicas da UFRGS, no qual analisou a realidade de 35 fazendas, com mais de 440 hectares, dos municípios de Vacaria, Julho de Castilhos, Santiago e Uruguaiana, localizados no norte e no sul do Estado. O estudo foi realizado em um momento em que ainda dominavam as práticas tradicionais do pastoreio contínuo sulino que se estruturaram, sobretudo a partir dos anos 1870, com o início da desescravização das estâncias no Rio Grande do Sul.

O valioso trabalho inicia assinalando a gênese latifundiária da propriedade fundiária rio-grandense, seguida de crescimento e posterior queda relativa de dimensão. Porém, ainda em 1960, havia 6.787 explorações com mais de quinhentos hectares, entre as quais 238 possuíam de cinco a dez mil hectares e cinqüenta, dimensões ainda maiores do que uma sesmaria histórica. Nessa época, as propriedades tinham em média dois peões e um capataz, ou seja, 948,5 animais por trabalhador, realidade muito próxima à conhecida pelas estâncias criatórias da região de início do século 19! A seguir, o autor descreve a organização sócio-espacial das regiões pastoris estudadas: a sede municipal; os distritos e seus núcleos urbanos; as estâncias, base de toda a arquitetura econômico-social e, às vezes, "aglomerados de moradias habitadas por famílias pobres", com o seu "bolicho" e a sua "cancha".

Nas fazendas estudadas, trabalhavam, em forma eventual, o fazendeiro, seus filhos e parentes e, essencialmente, trabalhadores assalariados, com destaque para os, em 1965, setenta mil trabalhadores pastoris. O fato de que, em 1950, houve em todo o RS, cem mil operários industriais, registra a importância dessa população mantida historicamente à margem de qualquer expressão social e política organizada. Capatazes e peões cumpriam em geral as mesmas tarefas produtivas. O capataz era um peão mais experiente ao qual delegava-se a implementação quotidiana das decisões gerais nas quais não intervinha. Nas fazendas maiores, podia haver um sota-capataz.

Os trabalhadores assalariados temporários eram sobretudo o alambrador, o tosquiador, o carpinteiro, o tratorista, o enseminador, etc. Em 1964, o domador e o posteiro estavam já em processo de plena extinção. Sobretudo até 1870, quando as estâncias começaram a receber cercas de arame, os posteiros eram "agregados" que moravam em geral com a família nas franjas da propriedade, onde plantavam uma horta e criavam algum gado, sob a obrigação de controlar o ingresso nas terras de intrusos, a fuga de gado e de cativos, e apoiar episodicamente as atividades que requeriam maior esforço - rodeios, preparação de tropas, etc. Capatazes, peões e agregados conformaram como sub-oficiais e soldados o núcleo central das forças militares que intervieram nos conflitos sulinos, sob a direção das classes pastoril-latifundiárias - Guerra Farroupilha, Intervenções no Plata, Revolução Federalista, Revolução de 1923, etc.

Laudelino Medeiros registra a visão "romântica" e "bucólica" do "citadino", normal nas reconstruções apologéticas do presente e do passado, das pesadas e duras tarefas pastoris, iniciadas ao nascer do sol e desenvolvidas sob o rigor das intempéries. Apresentado comumente como uma verdadeira "diversão", o trato montado do gado em campos abertos foi sempre atividade rústica, causa de acidentes graves e, não raro, mortais. O autor assinala a verdadeira naturalização dessas condições de trabalho pelos peões e capatazes que desconheciam uma outra forma de existência. Organizados por produção que os isolava nas fazendas e lhes ensejava percepção individualista de suas práticas sociais, capatazes e peões possuíam historicamente uma muito limitada consciência de suas necessidades sociais, sobre a qual se apoiou o mito da concordância de interesses entre fazendeiros e gaúchos, base do forte movimento tradicionalista rio-grandense - GTG.

Os 32 capatazes entrevistados tinham habitualmente de 30 a 49 anos de idade, sugerindo que a velhice punha fim aos laços empregatícios. Em geral, eram casados - quase 71% - e suas mulheres trabalhavam comumente na sede e cozinhavam para os peões. A escolaridade e a família dos capatazes eram pequenas - 4,65% pessoas por família. Os capatazes moravam em casa de madeira, de coberturas de telhas ou de folhas de zinco, sem os confortos comumente encontrados na moradia próxima dos seus patrões - água encanada, eletricidade, banheiros, etc.

Os capatazes recebiam em torno de um salário mínimo e, nas fazendas maiores, possuíam algumas cabeças de gado e, raramente, um lote de terra, mesmo urbano. Eles conheciam alta rotatividade profissional, baixa mobilidade territorial, escassa ascensão social e eram habitualmente naturais da região e filhos de pais ocupados no pastoreio, não possuindo expectativas de mudar de profissão, da qual não tinham alta estima. Portanto, em geral, trocavam comumente de emprego, durante a vida produtiva, sempre na região onde nasciam, o que exigia naturalmente respeito à disciplina social, caso quisessem manter-se no mercado de trabalho. Na época, era incomum que capatazes e peões procurassem a Justiça do Trabalho.

Os peões, um pouco mais jovens, tinham entre 20 e 49 anos (62,7%) e eram em boa parte pardos e negros, herança da importante população de cativos empregada nas estâncias sulinas em tarefas de apoio e nas práticas pastoris propriamente ditas - cativos campeiros. Os peões conheciam a mesma baixa mobilidade profissional, social e territorial que os capatazes. Escutavam raramente a rádio, não liam jornais, havia quem não soubesse o que era a televisão, ainda em 1964! Em geral, devido aos descontos cobrados pela alimentação e a moradia, recebiam salário abaixo ao mínimo da época, não raro inferior ao determinado por lei. Visitavam volta e meia as povoações próximas, usando os veículos da estância ou o ônibus e, raramente, o cavalo.

Os fazendeiros negavam-se a empregar peões casados. O trabalho marginal das esposas e filhos dos peões não supriria os gastos com o alojamento e a alimentação. Temeriam, sobretudo, que núcleos familiares criassem laços associativos que apoiassem a luta pela democratização da terra. Quase 75% dos peões eram solteiros, não possuindo, portanto, direito à família e à reprodução, o que contribuiu para o escasso desenvolvimento demográfico e econômico das áreas pastoris rio-grandenses, sobretudo em relação às comunidades colonial-camponesas do nordeste rio-grandense. O autor descreve a triste moradia do peão: "(...) dormem numa peça junto ao galpão, mais propriamente uma divisão no galpão: o quarto dos peões. Ali se encontram quatro ou cinco camas rústicas (...)." Assinala que essas instalações encontravam-se em "contraste acentuado com as usadas pelos fazendeiros".

Laudelino assinala, igualmente, sem se aprofundar na questão, os efeitos dissociativos, pessoais e grupais, da manutenção de população masculina jovem, semi-encerrada, à margem do direito de acasalar-se e constituir família. Era habitual que nas comunidades pobres a que se refere o autor, ao lado do "bolicho" e da "cancha" assinalados, houvesse prostíbulos onde o gaúcho deixava periodicamente seu magro salário, na mesa, bebendo cachaça e carteando com jogadores espertos, ou na pista de dança e no catre, com mulheres tristes, prostituídas devido à impossibilidade de outra inserção social. Temos ricas notícias sobre os hábitos zooeróticos e escassa informação sobre as ideologicamente mais corrosivas práticas homossexuais eventuais do gaúcho.

O gaúcho possuía vida cultural pouco desenvolvida, valorizava escassamente a profissão, não tinha planos estruturados para o futuro. Perguntando o que pretendia fazer sobre sua vida, um jovem peão respondeu: "[...] se í dando certo, vô ficando". Salvo engano, divulgado através de alguns exemplares mimeografados, em 1969, o valioso trabalho de Laudelino T. Medeiros, "O peão de estância: um tipo de trabalhador rural" jamais foi publicado como livro.


(*) Mário Maestri, 58, rio-grandense, é historiador. E-mail: maestri@via-rs.net